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5 PASSOS PARA PARECER CRÍTICO NO BARZINHO COM SEUS AMIGOS



Cena: Imagine um debate sobre o uso de roupas masculinas ou femininas no mundo contemporâneo. Imagine agora que um dos indivíduos, Josefa, em um barzinho intelectualizado qualquer, destaca a completa arbitrariedade dos critérios, revelando os discursos opressores e suas formas de atuação, além de defender um fluxo múltiplo e infinito de corpos, escolhas e narrativas. Em sua análise, Josefa fala a verdade? Sim. Seu discurso é eficaz e até necessário? Sim. Mas, por algum motivo, essa estratégia se tornou soberana quando o assunto é o pensamento crítico. Em outras palavras, CRITICIDADE VIROU SINÔNIMO DE PÓS-ESTRUTURALISMO[1].


Antes de começar, por favor guardem suas lanças e espadas, não quero brigas... Eu concordo com todo argumento de Josefa, acho inclusive verdadeiro, além de politicamente correto (afinal, sou um professor de esquerda!!), mas ele é muito previsível, na fronteira do tédio. Em termos mais filosóficos, diria que minha discordância com Josefa é estética, envolvendo aqui a própria forma como argumentos são tecidos e ideias encadeadas. Seu comentário, apesar de verdadeiro, e correto, no sentido ético, é bastante previsível, sem qualquer traço de originalidade, sendo nada mais do que uma aplicação de um modelo pronto, fixo. Em vez de explorar os caminhos do pensamento crítico, e todos os riscos e opções disponíveis, Josefa segue um roteiro dado, pronto, confortável. Não é nada que você olha e diz: "UAU, não estava esperando por isso". Ou: "UAU, essa é uma matriz interpretativa curiosa". Como é de se esperar dentro e fora da academia, principalmente por conta da chegada da esquerda liberal e seus contornos específicos pós-década de 60, temos aqui o mesmo raciocínio pós estruturalista de sempre, a clássica hermenêutica da suspeita simplificada no limite do óbvio. Apesar da diferença de objetos e fenômenos, a matriz compreensiva de fundo se repete, se arrasta ao longo de cada sílaba. Em cinco passos simples qualquer um pode parecer “CRÍTICO”, como se a criticidade fosse um exercício fácil, conveniente, seguro. Não acredita? Então, vamos lá...

Identifique algum critério com pretensão de objetividade e universalidade (no caso de Josefa, as diferenças de gênero entre roupas femininas e masculinas)

Desconstrua o critério, mostrando o quanto ele sempre foi contingente, histórico, precário etc

Rastreie seu percurso e estratégias ocultas, fora da consciência do sujeito comum

Apresente você como uma criatura esclarecida que escapou das garras da ideologia e consegue enxergar a verdade nas profundezas do mundo

Proponha um descentramento, apostando na diversidade ilimitada de corpos e indivíduos


E de novo... Não quero dizer que esse raciocínio é um erro. Já que trabalho com teoria social, e é parte do meu papel estudar as formas como as teorias são mobilizadas dentro e fora do universo acadêmico, todo esse cenário pós-estruturalista é quase como assistir um filme de Michael Bay no conforto da minha casa: eu acho ótimo, divertido, necessário, e até verdadeiro, mas completamente previsível. Temos sempre no horizonte a mesma fórmula aplicada a objetos diferentes, uma simples troca de conteúdo, nunca de forma. Claro que toda essa aplicação é importante, ninguém negaria isso, afinal o pós estruturalismo é muito útil e uma ferramenta fácil de usar. Talvez esse seja o grande segredo de toda sua popularidade, inclusive nas redes sociais. É quase como um comediante de stand-up, seguindo os passos de uma fórmula humorística específica: “timing” + “punchline”. Não importa o tema, o objeto, ou os detalhes em cena, desde que você use a forma certa as risadas são um destino inevitável.


Apesar da importância política e acadêmica dessa fórmula pós-estrutural, esquecemos de explorar outras possibilidades (fenomenológicas, pragmáticas, vitalistas, marxistas, etc). Ela se torna sinônimo do SER CRÍTICO, ao invés de apenas uma versão possível ao lado de tantas outras. A academia hoje, por exemplo, é muito conservadora em sua defesa da diversidade. Ela faz questão de trazer em todas suas manifestações vários corpos, cores, cheiros, mas nos bastidores temos a mesma matriz epistêmica (a pós estruturalista). Por isso que os debates se tornam entediantes, ainda que sejam verdadeiros e politicamente necessários.


Isso significa que o simples fato de existirem indígenas ou africanos nas ementas, ou no próprio campo político, não significa uma mudança epistêmica, ou seja, estrutural, necessariamente. A matriz epistêmica não tem a ver com quem analisa, mas qual a matriz usada na análise. Por exemplo, Mbembe é negro, camaronês, mas ainda assim de base pós estrutural, extremamente foucaultiano. Spivak é indiana, mas também uma autora pós-estruturalista, além de uma pupila de Derrida. E nem me façam expor aqui Boaventura de Souza Santos e seu conceito pós-estruturante de “Epistemicídio”...


Muitas linhas decoloniais (na verdade, a maioria) trazem as marcas do pós estruturalismo em suas trajetórias. Por esse motivo, diversidade de países ou corpos ou religiões não significa, necessariamente, uma mudança epistêmica, sendo ela algo de muito mais profundo, muito mais arriscado. É o mesmo o que acontece com os filmes da Disney, onde personagens diversos, a exemplo de negros, gays e mulheres, aparecem com destaque, mas ocultando nos bastidores uma única matriz fílmica, reciclada pela própria Disney e seus remakes. Ou seja, por trás da defesa da diversidade existe a reprodução de uma única estrutura de narrativa.


Como disse antes, o pós estruturalismo não é um problema em si. Ela é uma matriz poderosa, fácil de usar, bem instrumentalizável no campo político, e nas redes sociais como um todo, mas ainda assim apenas uma única vertente. Vamos a um exemplo rápido... Vamos aos estudos feministas. De um lado, Butler, do outro Jane Bennett. Duas engajadas no movimento político identitário, ambas em batalhas acaloradas sobre gênero, mas distintas em suas matrizes epistêmicas. Uma é pós estrutural e a outra vitalista (novo materialismo).


E você leitor, gostaria de arriscar os caminhos incertos e dolorosos do pensamento crítico ou prefere o conforto de certas matrizes convenientes?


[1] É preciso lembrar mais uma vez que “pós-estruturalismo”, ao menos na minha opinião, não se refere a figuras como Foucault, Derrida e Deleuze, mas à forma como as pessoas lá fora, inclusive no meio político, instrumentalizam suas teorias.


Refererência da imagem:

https://www.fluentu.com/blog/french/everyday-french-phrases/

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4 opmerkingen

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Jorge A. Ribeiro
Jorge A. Ribeiro
09 mrt. 2023

Gostei muito do texto! Acho que ele chama a atenção para que nós das ciências sociais, de maneira geral, estejamos mais atentos e mais dispostos a não somente filtrar mais as teorias forjadas fora da nossa realidade sociopolítica, mas a também construir as nossas ideias (uma espécie de 'resgate' do artesanato intelectual, como dizia Wright Mills).


Acho que é inadiável que nós façamos uma discussão mais preocupada em agregar, em informar, que se assente no nosso pensamento social e político, do que desagregar e querer instalar uma espécie de dogmatismo teórico. Há que se resgatar a dialética marxista e a análise do conhecimento crítico, como o velho Marx fazia. Acredito que só assim para que as nossas ciências sociais tenham…

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Thiago Pinho
Thiago Pinho
10 mrt. 2023
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Com certeza, caso contrário as ciências sociais se tornam só uma arma de ressentimento, ou seja, não propõem nada, apenas atacam e destrói

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Acho que, infelizmente, a profundidade da discussão sobre diversidade foi capturada pelas pautas publicitárias. Por isso, sentimos essa constante contradição de será que estamos progredindo ou não? O buraco é mais embaixo e poucos querem ir até ele...

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Thiago Pinho
Thiago Pinho
09 mrt. 2023
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Com certeza. Seja pela publicidade, em uma escala maior, ou pelas redes sociais, em uma escala menor, existe esse grau de instrumentalizacao. Como disse no texto, ele é necessário e talvez até inevitável. O problema é o custo de fundo

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