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A ASSESSORA EXONERADA: QUANDO A IGUALDADE PROCURA A DIFERENÇA.




No último domingo 24, foi realizada a final da Copa do Brasil entre São Paulo e Flamengo, no estádio do Morumbi, na capital paulista. Seria mais uma decisão com gols, lances da partida, análises técnicas das equipes, festa de uma das torcidas. No entanto, o título do tricolor paulista foi ofuscado pela manchete da semana: o post polêmico envolvendo a então assessora do Ministério da Igualdade Racial Marcelle Decothe. Ela teria afirmado que a torcida do São Paulo presente no estádio eram “descendentes de europeu safade” e “pior de tudo pauliste”. Tudo isso puxou a notícia de que a chefe da pasta Anielle Franco teria embarcado de Brasília para São Paulo em um avião da FAB. Anielle se defendeu dizendo que estava a serviço do Ministério (sua presença no Morumbi era pra assinar um protocolo de combate ao racismo). No fim das contas, a ministra pediu desculpas ao presidente do São Paulo e Decothe foi demitida. Vou tentar tirar minhas conclusões sobre o episódio.


A exoneração era inevitável. Estando em exercício, honrando pelo cargo público que ocupa, num ministério que pretende reduzir as desigualdades raciais no país, ela não deveria misturar a profissional, a torcedora, e a ativista. Isso é claro. O ataque à torcida são paulina pareceu choro de perdedora e não cabível para alguém que estava em atividade protocolar. Pior: ao se manifestar como uma flamenguista chateada com a perda do título – supostamente - levantou-se a hipótese de não estar à trabalho e viajou num avião oficial expondo privilégio. Pode ter sido o caso de ter se deslumbrado com a posição que ocupava e perdeu uma chance de ascensão na carreira.


Muito se falou nos preços dos ingressos. No Morumbi, os preços variavam entre 200 e 500 reais. No Maracanã, na primeira partida da final, entre 1000 e 4.500 reais!! Ou seja, quanto mais cara a entrada, maior a “brancalização” da torcida. É óbvio que os altos valores impedem torcedores de classe mais baixa assistirem o jogo, e todos sabem, a maioria deles negros. Nesse caso, é provável que tivessem mais brancos na partida do Rio de Janeiro, no meio da torcida do Flamengo. Decoté percebeu isso afinal? Então, o que ela viu nas arquibancadas provavelmente, foi mais uma questão de classe que racial. Nesse caso, uma boa medida de combate ao racismo seria por essa via: O Ministério cobrando das administrações dos estádios o alto valor dos ingressos; os gestores justificando; A pasta da Igualdade Racial convocando o Ministério Público para acertar um Termo de Ajustamento para o acesso de torcedores com várias faixas de renda. Acredito que seria algo mais produtivo. Sendo assim, nem sabemos os termos da campanha que Anielle estava promovendo, pois todo esse imbróglio envolvendo sua então assessora manchou tudo.


Marcelle nasceu em Parada de Lucas, zona norte do Rio de Janeiro, e chegou a dar aulas para pessoas carentes. Foi assessora parlamentar e desde 2020 trabalha com Anielle, quando foi fundado o Instituto Marielle Franco. É bacharel em Gestão Estratégica Internacional pela UFRJ e doutora em Políticas Públicas em Direitos Humanos. Estava traçando uma boa trajetória até tentar lacrar com uma postagem que uma defensora da igualdade deveria evitar, pois procurou alcançar a diferença. Seu futuro continua em aberto.


Quanto á utilização do avião da FAB para isso, Anielle reforçou cumprimento de agenda. As regras de utilização da aeronave permitem vôos de ministros em serviço. Isso nem deveria ser discutido. O fato do também ministro Silvio Almeida, dos Direitos Humanos e Cidadania, ter ido para o mesmo ato, mas num avião comercial, levantou a dispensa do supracitado avião. Entretanto, sabem quem também utilizou esse mesmo veículo da FAB para a mesma ocasião? O Ministro dos Esportes André Fufuca. Isso passou completamente batido! E aí? Viram alguma fofoca com o Fufuca nesse caso? Tudo girou em torno mesmo do infeliz post da assessora. Sendo assim, puxaram a “capivara” da ministra. Ela já teria gastado metade do orçamento da pasta em viagens. Ela também tornou-se conselheira administrativa da metalúrgica Tupy, que tem o BNDES como acionista, com um salário de 36 mil reais – fora o soldo como ministra.


Se a Franco tem viajado demais, é sinal de que está trabalhando, ou pelo menos, podemos cobrar dela algum resultado no fim de seu mandato, caso as incursões aéreas tenham sido inócuas. Até aqui, nada fora dos conformes. Acharia mais justo cobrar ministros da qual nem temos ideia. Vocês sabem quem é o ministro da Pesca? Nem eu. Criamos a mania de levantar suspeitas sobre quem aparece demais, pois gasta muito dinheiro público pra pouco proveito, mas esquecemos quem nem faz muita questão de aparecer (a não ser que vaze algum áudio de um assessor do ministério chamando algum pescador de "safade"). Pode até estar sem fazer nada, deitado numa rede, em algum lugar paradisíaco, tomando água de côco, mas como o dinheiro do contribuinte está sendo utilizado, deixa quieto. Algo bem 2016, 2017. Ô anos que não terminam! Por fim, aventou-se até a exoneração da própria Anielle. Exagero. Ela que abra o olho!


Chamo atenção pra exemplos que mostram que enquanto ocupantes do executivo sempre estão correndo riscos, os do judiciário passam incólumes por qualquer risco de afastamento. Um ministro do Supremo Tribunal Federal já perdeu as estribeiras com um transeunte insuportável: “Perdeu, mané, não amola!” . Ele mesmo, já afirmou numa convenção universitária “derrotamos o bolsonarismo”, quando nenhum magistrado derrota movimento algum. E prestes a assumir a presidência do tribunal do STF ele teria dito que irá “combater as organizações criminosas”, quando ele não tem a mínima alçada para isso. Ou seja, deslizes em série como esse mostram que, em grande parte dos casos, a diferença jamais procura a igualdade.


FONTE:







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Thiago Pinho
Thiago Pinho
Sep 29, 2023
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Ótimo texto, Carlos. Diante desse caso, muitos tentam evitar o confronto direto com o post, destacando outros detalhes secundários . O post foi absurdo em todos os sentidos, embora reconheça que no meio do barulho a extrema direita se aproveitou. É mais ou menos como uma casa pegando fogo, enquanto um grupo de fora aproveita e faz um churrasco. Sem dúvida, podemos questionar as motivações dos churrasqueiros, e até a insensibilidade deles diante da tragédia, mas uma coisa é certa: o fogo foi real. Então, mesmo reconhecendo o quanto o caso foi instrumentalizado por pessoas questionáveis, o post foi infeliz, até quando contrastado com os valores que o próprio ministério defende.

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