A culpa é do sistema



O crime é não se ajoelhar ao sistema.

Essa frase soava ontem, 01 de agosto de 2021, nas manifestações bolsonaristas Brasil afora. O tema era a mudança do voto eletrônico para algum outro tipo de voto auditável. Uma PEC de autoria da deputada Bia Kicis (PSL-DF) tornaria obrigatória a impressão de cédulas de papel após votos depositados na urna eletrônica. De acordo com as lideranças das manifestações, o sistema é fraudulento, só favorecem alguns. Mas eles nem mesmo conseguem explicar que o mesmo tipo de urna eletrônica colocou o próprio Bolsonaro na presidência, e o elegeu, outrora, como deputado federal por quase 30 anos. Incompreensível, não é mesmo? Mas as táticas da extrema direita para criar confusão já é antiga.


O sistema está corrompido, dizem. Mas, quem é o sistema e como ele opera? Vamos tentar listar alguns inimigos.


O comunismo. O comunismo está em todo o lugar, é uma espécie de panóptico de Jeremy Bentham : na política, no direito, na cultura, na educação, nos partidos, nos movimentos sociais. O Partido dos Trabalhadores (PT) seria a vanguarda do comunismo no Brasil, e teria apodrecido toda a sociedade, imputando valores como a idolatria ao ateísmo; antipatriotismo; desarmamento da população; crescente estatização em todas as áreas; apologia à homossexualidade; incitação à divisão entre brancos e negros (devido às cotas); incitação da luta e/ou divisão da relação entre pobres e endinheirados; financiamento de ditaduras em Cuba e na Venezuela, com uso do dinheiro público; organização de um esquema de corrupção com partidos e empresas, deturpação moral das crianças e adolescentes com incitação de masculinização da mulher e feminização do homem, pedofilia, existência de racismo, legalização das drogas e do aborto. Em suma, todo mal moderno viria do comunismo.


A ideologia de gênero. Aqui, haveria também um tipo de projeto deliberado para impulsionar as crianças e adolescentes a abandonarem o gênero referente ao seu próprio sexo de nascimento. Segundo os radicais e extremistas de direita, a educação progressista/esquerdista/liberal quer ensinar que meninos e meninas não precisam seguir uma orientação heteronormativa, que esta, segundo a ideologia esquerdista, foi uma invenção religiosa para impor poder sobre os sexos, impedindo sua liberdade e reprimindo os afetos corporais. Então, seria necessário lutar para salvar a almas dos jovens contra a delinquência cultural sexual depravada.


O laicismo. O laicismo seria uma política orquestrada para afastar a religião, ou propriamente os princípios cristãos, da esfera pública. Os ateus progressistas estariam na política, na cultura e na educação ativando o pensamento anti-religioso, visando criar uma sociedade totalmente despida de espiritualidade. Resumo da obra: o naufrágio do ocidente foi e continua sendo o afastamento de Deus.


Superior Tribunal Federal (STF). Este é chamado de ditadura pelos bolsonaristas. O STF foi corrompido pela social democracia, PT e PSDB, por indicar ministros que sempre atuaram contra os valores conservadores da família tradicional cristã, da religião e da pátria. O STF é visto como um Poder politizado, favorecendo somente a eles próprios ou a um lado da população, pelo menos desde a redemocratização. É preciso virar o jogo e combater o inimigo jurídico.


O Parlamento. A própria existência dos legisladores, comprados pela narrativa esquerdista, em sua grande maioria, seria um entrave para a governabilidade do presidente Bolsonaro. A política, que se faz no Legislativo, é corrompida pelo toma lá dá cá, e não serve aos interesses da população, somente a uma parte dela, quando lhe convém. De forma assertiva, seria melhor não fazer política: discussão e deliberação tornam lenta a resolução de problemas, quando não é somente um teatro para enganar a plateia. A saída mais rápida para colocar ordem na casa é pela via do autoritarismo, pelo uso da Força, sem filtro, sem trâmites burocráticos disfuncionais.


A Mídia. Este poder de comunicação cria um mundo que vai de encontro aos valores conservadores, como família, religião e pátria. A mídia constrói o mundo depravado sexualmente, pluralista, que coloca as mulheres contra os homens, romantiza o bandido e a favela, apela para a sexualidade precoce das crianças e jovens, apoia o uso de drogas. O establishment midiático é, portanto, pregadora de comportamentos que remete a promiscuidade, a glamourização do crime, e é vendida aos interesses de movimentos sociais, políticos e partidos.


Resumo da narrativa:

o sistema desloca e oprime: favorece uns e prejudica muitos. O sistema é podre porque seus agentes são corrompidos por uma certa visão de mundo, uma certa ideologia, que quer imprimir um único tipo de DNA à toda população, um DNA esquerdista. O sistema é falido porque os impostos pagos não são convertidos aos reais interesses da sociedade. O sistema quer tornar os cidadãos desprotegidos e dependentes do Estado. A política do sistema quer invadir a vida privada e destruir direitos como liberdade de expressão ou o direito de ir e vir. O sistema é construído para acabar com a religião e criar um Estado ateu. O sistema oprime o branco, a classe rica e média, o heterossexual, persegue os cristãos e condena a família tradicional. O sistema está sendo contaminado com os ideais da ditadura chinesa. Libete-se do sistema!

Leitores e leitoras, deixo uma breve reflexão em forma de perguntas. Será que podemos então chegar à conclusão que ao usar o conceito de “sistema”, indivíduos e grupos não estão simplesmente buscando algum tipo de conforto psíquico/emocional, racionalizando a realidade de forma simples? Não seria uma tentativa de descomplicar e facilitar a explicação sobre as mazelas do mundo, apontando um ou alguns inimigos que estariam oprimindo, atrapalhando ou prejudicando um país, um povo ou parte dele? Seja na direita ou na esquerda, ou mesmo sem elaboração teórica, as pessoas, descontentes com a realidade, quase sempre não colocam inimigos, visíveis ou invisíveis, para batalhar? Será que isso é da própria natureza humana?


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