A GUERRA TAMBÉM SE FAZ COM HISTÓRIAS: Quando um Super-Herói se torna um símbolo.

Dias atrás, movida pelo meu lado fã da Marvel, decidi revisitar o Universo Cinematográfico Marvel. Como toda boa maratona, comecei pelo início: Capitão América: O Primeiro Vingador, lançado em 2011 e ambientado durante a Segunda Guerra Mundial. A ideia era apenas rever a trajetória de Steve Rogers antes de se tornar um dos Vingadores. No entanto, uma cena que passa quase despercebida pela maioria dos espectadores acabou despertando uma reflexão muito maior sobre comunicação, propaganda e o poder das narrativas.
No filme vemos um Steve Rogers que queria lutar. Pequeno, franzino e rejeitado diversas vezes pelo Exército norte-americano, ele não sonhava com a fama ou com o reconhecimento. Seu desejo era simples: servir ao seu país durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de se tornar o primeiro supersoldado, o público naturalmente espera vê-lo marchando rumo ao campo de batalha, enfrentando nazistas e mudando os rumos da história. Em vez disso, o roteiro faz uma escolha inesperada. O herói sobe ao palco.

Vestido com um uniforme exageradamente colorido, acompanhado por dançarinas e cercado por bandeiras dos Estados Unidos, Steve Rogers percorre o país participando de espetáculos teatrais para vender bônus de guerra. Sorri para fotógrafos, acena para multidões e interpreta o papel do soldado perfeito enquanto o verdadeiro conflito acontece do outro lado do oceano. A sequência costuma ser lembrada como um momento cômico do filme, mas talvez ela seja uma das cenas mais inteligentes de todo o Universo Cinematográfico Marvel, na minha humilde e simples opinião.
Ali, o filme revela algo que vai muito além dos superpoderes e das cenas produzidas com CGI. Antes de combater inimigos, o Capitão América precisava convencer pessoas. Sua primeira missão não era militar; era comunicacional.
Décadas antes do lançamento do filme, Theodor W. Adorno já demonstrava preocupação com a forma como a cultura poderia ser utilizada para influenciar a sociedade. Ao lado de Max Horkheimer, o filósofo desenvolveu o conceito de indústria cultural para explicar que cinema, música, rádio e outras formas de entretenimento deixavam de ser apenas manifestações artísticas e passavam a integrar um sistema de produção em massa. A cultura transformava-se em mercadoria. Mais do que divertir, ela também difundia valores, naturalizava comportamentos e contribuía para consolidar determinadas formas de organização social.
A crítica de Adorno nunca foi dirigida simplesmente ao ato de assistir a um filme. Seu olhar estava voltado para um fenômeno muito mais amplo: quando o entretenimento passa a moldar nossa percepção da realidade sem que percebamos esse processo. Histórias aparentemente inocentes carregam escolhas, silenciam determinadas perspectivas e reforçam outras. Toda narrativa comunica uma visão de mundo.
É exatamente isso que acontece com Steve Rogers.
Aqueles espetáculos mostrados no filme não surgem por acaso. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano compreendeu rapidamente que vencer batalhas dependia também da capacidade de conquistar a opinião pública. O cinema, os programas de rádio, os jornais, os cartazes e as histórias em quadrinhos tornaram-se instrumentos importantes para fortalecer o patriotismo, incentivar o alistamento militar e mobilizar a população em torno do esforço de guerra.
Nesse contexto, talvez não exista personagem mais emblemático do que o Capitão América.

Criado pela Marvel Comics em 1940, meses antes da entrada oficial dos Estados Unidos no conflito, o herói já nasceu carregando uma mensagem política. A capa de sua primeira revista tornou-se uma das imagens mais famosas da história dos quadrinhos: o Capitão América desfere um soco em Adolf Hitler quando boa parte da sociedade norte-americana ainda discutia se o país deveria ou não participar da guerra. A ilustração dizia muito mais do que parecia. Não era apenas uma aventura em quadrinhos; era uma tomada de posição.
Naturalmente, não se pode reduzir a criação do personagem a um simples instrumento de propaganda. Obras culturais são sempre mais complexas do que isso. Entretanto, é impossível ignorar que ele se tornou um símbolo nacional em um dos períodos mais delicados da história do século XX. Seu uniforme reproduzia as cores da bandeira americana. Seu escudo transformava defesa em identidade nacional. Seu próprio nome dispensava explicações.
Talvez Adorno observasse exatamente esse ponto.
Se estivesse vivo para assistir aos filmes da Marvel, provavelmente não perguntaria apenas quem derrotou o vilão da vez. Talvez perguntasse por que tantas pessoas, em diferentes países, passaram a consumir as mesmas histórias, admirar os mesmos personagens e compartilhar os mesmos símbolos. Seu interesse estaria menos no herói e mais no sistema que produz o herói.
Hoje, a Marvel ultrapassa as telas do cinema. Seus personagens estão em brinquedos, mochilas, roupas, parques temáticos, videogames, campanhas publicitárias e redes sociais. Cada lançamento dialoga com o anterior e prepara o próximo, formando um universo (ou multiverso) cuidadosamente planejado para manter o público permanentemente conectado à franquia. O filme deixa de ser um acontecimento isolado e transforma-se em parte de uma experiência contínua de consumo.
Essa lógica conversa diretamente com uma das principais críticas da Escola de Frankfurt: a padronização dos produtos culturais. Embora cada filme apresente novos cenários e novos antagonistas, existe uma fórmula reconhecível. O herói enfrenta uma ameaça crescente, supera conflitos pessoais, preserva determinados valores morais e prepara o caminho para a narrativa seguinte. Não se trata de uma falha artística, mas de uma característica da produção cultural em larga escala.
Entretanto, limitar a discussão a essa crítica seria injusto até com o próprio Capitão América.
Ao longo das décadas, Steve Rogers deixou de ser apenas o soldado obediente. Em diversas histórias, passou a confrontar autoridades, questionar operações governamentais e recusar ordens que considerava incompatíveis com seus princípios éticos. O herói que nasceu como símbolo do patriotismo tornou-se, em muitos momentos, um crítico das próprias instituições que representava. Essa transformação demonstra que produtos da indústria cultural também podem tensionar discursos oficiais e provocar reflexões sobre poder, vigilância e liberdade.
Talvez seja justamente aí que a discussão se torne mais interessante.
Se os super-heróis ajudam a construir referências sobre coragem, justiça e heroísmo, também contribuem para definir quem ocupará o papel de vilão. Toda narrativa precisa de um inimigo. Durante a Segunda Guerra Mundial, essa figura parecia evidente. Em outros períodos históricos, entretanto, ela muda de rosto. Terroristas, traficantes, imigrantes, usuários de drogas, pessoas em situação de rua ou qualquer grupo social podem ser transformados em ameaças coletivas por meio de discursos políticos e representações midiáticas.
É nesse ponto que comunicação, psicologia e criminologia deixam de caminhar em estradas separadas.
A criminologia crítica demonstra há muito tempo que nossa percepção sobre o crime não nasce exclusivamente da experiência cotidiana. Ela também é construída pelas histórias que consumimos. Filmes, séries, telejornais e redes sociais selecionam quais crimes receberão destaque, quais vítimas despertarão compaixão e quais suspeitos serão apresentados como monstros antes mesmo de qualquer julgamento. Pouco a pouco, essas representações moldam o imaginário coletivo sobre quem merece confiança, quem inspira medo e quem deve ser combatido.
Não é por acaso que alguns crimes provocam comoção nacional enquanto outros desaparecem das manchetes em poucas horas. Tampouco é coincidência que determinados perfis sejam constantemente associados à violência, enquanto outros permanecem praticamente invisíveis. A comunicação não cria a realidade, mas influencia profundamente a maneira como a interpretamos.
Talvez por isso a cena do Capitão América no palco continue tão atual.
Ela nos lembra que a batalha pelas ideias começa muito antes da batalha propriamente dita. Antes de existirem soldados, existem narrativas. Antes de existirem heróis, existem símbolos. E antes de qualquer guerra conquistar territórios, ela precisa conquistar imaginários.
No fim das contas, talvez o maior poder de Steve Rogers nunca tenha sido sua força física nem o escudo de vibranium. Seu verdadeiro superpoder sempre foi representar uma ideia. E ideias, como Adorno nos ensinou, raramente são inocentes. Elas circulam, emocionam, convencem e, muitas vezes, moldam silenciosamente a forma como enxergamos o mundo.
Da próxima vez que o Capitão América erguer o escudo diante de uma plateia, talvez a pergunta mais importante não seja quem ele está protegendo. Talvez seja outra: quais narrativas nós escolhemos defender sem sequer perceber que também fazemos parte da história?
REFERÊNCIAS:
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR. Direção: Joe Johnston. Produção: Kevin Feige. Estados Unidos: Marvel Studios; Paramount Pictures, 2011. 1 DVD (124 min), son., color.
HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga (org.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
KELLNER, Douglas. A cultura da mídia: estudos culturais, identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru: EDUSC, 2001.
MATTELART, Armand; MATTELART, Michèle. História das teorias da comunicação. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2001.
WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. 5. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1999.
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Fontes de Imagem:
Imagem Capa: MARVEL. Capitão América: O Primeiro Vingador. 2011. Poster promocional prime vídeo;
Imagem 1: Capitão América o Primeiro Vingador (Direção de Joe Johnston, 2011);
Imagem 2: SIMON, Joe; KIRBY, Jack. Captain America Comics n1 [Capa]. New York: Timely Comics, mar. 1941.


Parabens pelo texto. Fantastico!
Seu texto deveria ser leitura obrigátria para todas as pessoas.