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A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NA BAHIA: Mulheres, Indígenas e Negros Lutando Pela Liberdade!




Durante muito tempo, o 2 de Julho foi visto apenas como a celebração da independência da Bahia. O evento, ocorrido em 1823, era utilizado como argumento xenofóbico para afirmar que até para conseguir a independência, nossa amada terra era lenta e atrasada. Quanto ódio e ignorância! Longe de visões preconceituosas e alienadas, os fatos históricos dão conta da Bahia enquanto único Estado no qual houve intensa participação popular nas lutas pela independência. Mulheres, indígenas e negros recorreram às armas para expulsar as tropas portuguesas, inconformadas com a declaração de Independência do Brasil. Não obstante, quais as verdades históricas sobre o 2 de Julho?


Em 1820, a capital da Província da Bahia, Salvador, então, uma cidade relevante para o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, tinha portugueses apoiadores da Revolução Liberal do Porto e que pretendiam o retorno do Brasil para o status de colônia. Em contraposição, as camadas populares e as elites baianas – liberais, monarquistas, conservadores e republicanos –reivindicavam a manutenção do Brasil, como Reino Unido a Portugal. À medida que os movimentos cresciam, as hostilidades tornavam-se iminentes. A 14 de junho de 1822, o primeiro grupo de baianos se uniu, através da proclamação na Câmara da Vila de Santo Amaro da Purificação, reconhecendo Dom Pedro I como regente. Observe-se que as lutas pela Independência da Bahia – contrárias a visão retrógrada de alguns – iniciam antes e terminam pouco menos de 1 ano após a Independência do Brasil. Ora, se a independência brasileira foi um acordo financeiro – com pagamento de 2 milhões de libras esterlinas a Portugal, tomadas de empréstimo a Inglaterra, e, não fosse isso ainda suficiente, assinado o reconhecimento da independência por Dom João VI, nomeado Imperador Honorário do Brasil –, na Bahia, encontramos outro cenário. Temos robustas provas históricas dando conta de lutas com um objetivo principal: dar cabo da recolonização em nosso Estado.


Todavia, em 18 de fevereiro de 1822, o Brigadeiro Luís Inácio Madeira de Melo foi eleito presidente de uma Junta Militar. Português e partidário da Revolução do Porto, Melo foi alvo da rejeição dos baianos. Logo na madrugada do dia seguinte, os confrontos tiveram início no Forte de São Pedro. Tropas portuguesas entraram em conflito com efetivos baianos das Mercês, passando pela Praça da Piedade, até chegar ao Campo da Pólvora. A Independência do Brasil na Bahia conhecia sua primeira mártir: Sóror Joana Angélica (1761–1822), abadessa do Convento da Lapa, assassinada pelos lusitanos. Em 2 de março do mesmo ano, nomeado pela Corte Portuguesa, Madeira de Melo jurou a bandeira na Câmara de Vereadores, ante os brasileiros lançando pedras nas tropas portuguesas. Ficara evidente a insatisfação popular com o desenrolar dos fatos e a iminente reação.


Em junho daquele ano, a Câmara Municipal de Cachoeira reconhecia a autoridade de Dom Pedro I sobre o Brasil, assim como ocorrera no Rio de Janeiro. No entanto, Madeira de Melo enviou uma canhoneira, posicionando-a no leito do rio Paraguaçu. Ante os disparos contra a Vila de Cachoeira, a população implementou a Junta Conciliatória e de Defesa para governar a cidade, sendo apoiada por vários brasileiros, como Maria Quitéria de Jesus (1792-1853). O povo, usando armas improvisadas, tomou a embarcação, a 28 de junho de 1822. As vilas vizinhas se uniram a Cachoeira, “empurrando” Madeira de Melo de volta a capital. Começava ali o cerco a Salvador, ponto de inflexão no rumo da guerra. Esse movimento teria sido impossível sem o apoio de dois povos originários: os pataxós e os tupinambás. Eles sustentaram os suprimentos das tropas baianas durante o cerco, além de monitorar as embarcações dos portugueses e realizar emboscadas.


Maria Quitéria se destacou no confronto de Cachoeira. Contudo, sua história comprova que ela foi além. Em 1822, após fugir da fazenda na qual morava com a família, indo até a casa da irmã, ela vestiu trajes socialmente masculinos. Assumindo o nome do cunhado, José Medeiros, Maria Quitéria se alistou no Batalhão de Voluntários do Príncipe. Combateu em Ilha de Maré e na Pituba, capturando soldados portugueses e liderou um regimento formado por mulheres, cortando o avanço das tropas portuguesas. Sua bravura lhe rendeu a patente de 1º cadete, a condecoração da Imperial Ordem do Cruzeiro e um salário vitalício como alferes. Primeira mulher presente nas Forças Armadas, ela integrou com coragem o Exército Libertador, nome dado aos soldados que combatiam pela independência.

Os detalhes da estratégia de batalha mostram que, desde o início, as tropas do nosso Estado compreenderam rapidamente a necessidade de cortar as linhas de suprimento e comunicação dos inimigos em Salvador. Já em agosto de 1822, o controle sobre a farinha era das tropas baianas, responsáveis pelos batalhões da vila de Nazaré, hoje, cidade de Nazaré das Farinhas: ao mesmo tempo em que se alimentavam, também bloqueavam o acesso dos portugueses aos mantimentos. Os lusitanos tentaram desbloquear os caminhos para Salvador, contudo, encontraram foram rechaçados. Mesmo em desvantagem numérica e com muitas baixas ante Madeira de Melo, o Exército Libertador, liderado pelo General Pedro Labatut (1776-1849), conseguiu permanecer de pé.


Entretanto, prosseguir o esforço bélico ao longo de 8 horas parecia impossível. Muitos soldados tombaram e um oficial brasileiro ordenou a debandada. O fato a seguir não encontra consenso entre os historiadores: a motivação do corneteiro Luís Lopes. Talvez jamais saibamos se ele, naquele instante agudo, se enganou ou tomou a decisão por conta própria. Sabemos, contudo, através do jornalista Inácio Acioli de Cerqueira e Silva (1808-1865) e do poeta Ladislau dos Santos Títara (1801-1861), ambos participantes do combate, qual o resultado da ação de Lopes: o toque de avanço da cavalaria alarmou Madeira de Melo. Em pânico, suas forças provavelmente imaginaram uma tropa auxiliar vindo para lhes arrasar, e, apavoradas, bateram em retirada. A vitória em Pirajá expôs os equívocos de Madeira de Melo. Arrogante, ele concentrou os combatentes naquele território, deixando expostos outros pontos de Salvador. Ora, uma vez derrotado exatamente onde tinha um maciço efetivo militar, o moral dos portugueses certamente começaria a arrefecer. Por outro lado, os ideais da independência floresciam, inclusive aqueles distantes da liberdade: para os conservadores, destroçar os portugueses representava a manutenção dos seus interesses em solo baiano, inclusive, da restrição de liberdade aos escravizados. Em todas as revoluções, encontramos esses paradoxos: entre os ideais de liberdade, existem interesses retrógrados, alguns, inconfessáveis. Ao invés de romancear a história, esses fatos ajudam a esclarecer as motivações oriundas dos vários grupos que contribuíram para a Independência do Brasil na Bahia. Vamos ver histórias parecidas na Revolução Farroupilha, ocorrida duas décadas depois e mesmo nas guerras atuais. Entre ideais luminosos, residem a sombra dos egoísmos e a natureza deletéria de certas personagens.


Nos primeiros dias de 1823, era dramática a necessidade dos portugueses de uma saída para o mar. Somente através de um porto, eles poderiam retomar o controle tanto sobre a capital quanto sobre toda a província, regulando a entrada de suprimentos. Certamente isso os levou a se lançar, com 42 embarcações, em um feroz ataque contra a Ilha de Itaparica. Nesse ínterim, o batalhão daquela ilha, sob o comando dos capitães Manoel Joaquim Tupinambá e Antônio de Sousa Lima, defendeu o território, partindo do Forte de São Lourenço e seguindo por trincheiras posicionadas em pontos específicos. O comandante João das Botas também reforçou a Ponta de Nossa Senhora, de maneira que os navios portugueses não conseguiram adentrar a baía.


Porém, a grande heroína dessa batalha foi Maria Felipa de Oliveira (? – 1873). Ela enfrentou os portugueses e saiu vitoriosa. Conforme a professora Eny Kleyde Vasconcelos Farias descreve na obra “Maria Felipa de Oliveira – Heroína da Independência da Bahia”, Maria Felipa, marisqueira, ganhadeira e pescadora, era também uma hábil estrategista, relacionando suas profissões ao ideal político independente e a espacialidade das frentes de combate. Nascida na escravidão e depois liberta, Maria Felipa era uma mulher negra e de alta estatura. Começou a trabalhar muito cedo e aprendeu a capoeira para se defender. De saia rodada, bata, torso e chinelos, esteve à frente de um contingente formado por 40 mulheres e homens de classes e etnias diversas. Era ela a responsável por organizar a rota de suprimentos para o recôncavo baiano. Ela sobreviveu a 200 anos de anonimato e controvérsias sobre a própria existência, para ter a vida comprovada na irrefutável pesquisa independente de Felipe Brito. Após associar registros históricos a documentos, ele encontrou nos escritos do historiador Ubaldo Osório Pimentel citações tanto da existência quanto da residência de Maria Felipa: ela morava na Rua da Gameleira, Ilha de Itaparica. Brito encontrou nos documentos do arquivo de Cascais, Portugal, uma lista contendo os nomes de moradores da Itaparica de 1834. Lá também se encontra o nome de Maria Felipa, residindo na Rua da Gameleira.


Mesmo derrotadas, as tropas portuguesas ainda acessavam Salvador pelo mar. No entanto, entre maio e julho de 1823, o último golpe na tirania de Madeira de Melo veio pelas mãos do britânico Lorde Thomas Cochrane. Contratado por Dom Pedro I e com o auxílio de negros alforriados, ele destruiu os pontos de abastecimento e fuga dos portugueses. Isso provocou a saída dos lusos da Baía de Todos os Santos a 2 de julho. Enfim, a independência!


A independência do Brasil na Bahia representa o esforço coletivo e a união dos diferentes contra o inimigo comum. As forças de coalisão do Exército Libertador, tinham em suas fileiras, mulheres, indígenas e africanos, mas, também portugueses e britânicos. Lamentamos que em 2026 ainda não exista uma minissérie brasileira para contar a geração atual os feitos dos nossos ancestrais. Reconhecendo a seriedade dos investimentos de um governo federal com pautas progressistas, esperamos a criação de um projeto para reproduzir nas telas a data mais importante na Bahia e uma das mais célebres no Brasil: um instante histórico, no qual a palavra independência ganhou representação sem barganhas e com dignidade, sem acordos financeiros e com galhardia, sem manipulações e com verdadeiro amor à Pátria.


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02 de jul.
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