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A INFÂNCIA REGISTRADA PELAS CÂMERAS E A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS



Esses dias passei por uns vídeos curtos retratando eventos engraçados e curiosos com crianças pequenas. Um deles me chamou atenção. O menino foi ao banheiro e, sentado no vaso, caiu no sono.


A cena gravada, com milhares de curtidas, comentários e compartilhamentos, me fez pensar: “Será que, na nossa maternidade, ainda temos espaço para contar histórias, no lugar de registrá-las?”


A situação da criança era realmente engraçada, mas, caso acontecesse antes da facilidade tecnológica de um celular, ela seria mais um evento da infância contado nas rodas de conversa com parentes ou, quando o menino crescesse e levasse seus amigos para casa, a gente não ia se aguentar para trazer a história e fazer todo mundo cair na gargalhada (menos o guri, que ficaria vermelho de vergonha). Agora, com a possibilidade de registrar e guardar esse material por anos em uma nuvem de dados online, a possibilidade de narrar o evento vai ser interrompida pelo: “Vou mostrar o que aconteceu quando ele tinha sete anos de idade”. Todos assistem, riem e pronto, fim de papo.


Preciso acrescentar aqui a discussão social sobre registrar a infância pela internet, que chegou ao ponto de se tornar um mercado fortíssimo, com direito a contratos milionários, fama e garantia do sustento familiar. A sociedade ainda está discutindo qual o limite dessa exposição. Já conhecemos as más experiências de crianças no mundo do entretenimento com exemplos tristes como do ator Macaulay Culkin que começou a atuar aos 5 anos de idade e anos depois teve sérios problemas com drogas devido às brigas familiares pelo dinheiro e bens acumulados. Outro exemplo sempre lembrado é o das estrelas da Disney, como Miley Cyrus, Demi Lovato, Selena Gomez, que hoje falam abertamente sobre o sofrimento psíquico que viveram por crescerem em frente às câmeras.


Meu foco para esse texto não é essa questão. Mesmo que sejam registros que só você e sua família terão acesso, penso em como um mecanismo simples e fácil pode estar mexendo na nossa forma de conexão e de relembrar o passado. Eu vivo tirando fotos e fazendo vídeos de momentos engraçados e diferentes do meu filho. Foi em uma dessas ocasiões que veio essa reflexão porque, na hora, meu celular resolveu dar problema na câmera e precisou ser reinicializado para voltar a funcionar. Fiquei muito irritada nessa hora, querendo dar um jeito na tecnologia que havia falhado comigo.


Enquanto isso, o menino inteligente e divertido de oito anos à minha frente estava fazendo mais uma coisa nova, mostrando outros sinais de maturidade, ao mesmo tempo que permanecia com seu olhar infantil. Essa mistura é tão agradável de ser vista que quis muito registrar o momento. Só que, dessa vez, não deu certo e eu fiquei muito frustrada, sentindo que havia “errado” de alguma forma. Até que parei para observar o momento. Eu era a maior “máquina” de registro da infância dessa criança. Não teria as imagens gravadas desse momento, mas, ainda disponho das palavras para narrar a situação a qualquer outra pessoa.


Outra situação que me fez pensar no assunto foi quando estava assistindo o vídeo de uma famosa blogueira, mãe de muitos filhos, que faz registros regulares da sua vida materna há anos. Sua filha mais velha tem quase oito anos de idade e, desde o parto, há muito material criado sobre a infância dessa menina e postado na internet. Eu assistia despretensiosamente o conteúdo que mostrava a garota brincando com uma pedra argila, quando a mãe-blogueira comenta: “Filha, lembra quando você era bem pequenininha, com uns três anos de idade, e fizemos vasinhos de argila?”.


Com um olhar meu perdido ela acena, dizendo que lembra. A mãe percebe o seu movimento acanhado e comenta: “Você lembra mesmo ou lembra do vídeo gravado desse dia?” (a edição corta para a cena da pequena no vídeo em questão, fazendo um belo vasinho de plantas). Volta à cena para a menina e ela responde: “Eu lembro do vídeo.” Aquilo mexeu comigo. Ela não precisava lembrar daquele momento da sua infância, porém, ao menos poderia lembrar como sua mãe ou seu pai contaram sobre esse dia, da sujeira que a casa ficou, de como ela gostou da brincadeira e quantos vasinhos fez. Ela apenas lembrou do vídeo.


Não tenho a menor intenção de entrar no ensejo social predominante que dita a nossa forma de maternar. Como mãe que busca minha própria autonomia ao criar meu filho e viver minha dinâmica materna, essa questão do excesso de registros tem me feito pensar. Eu vivo muitas dificuldades no papel injusto de ser mãe, mas, percebo também, certas belezas. Uma delas, a qual me digno a celebrar, é esse lugar de contar histórias. Mesmo na dureza da maternidade da minha própria mãe, havia esse lugar aconchegante de eu me sentar ao seu lado e ouvir como eu era um bebê obediente, tranquilo, soneca, que nasceu com olhos claros, verdes, que depois ficaram castanhos. Ela também apontava para uma das poucas fotos da época e mostrava meu cabelo super liso e fininho, que nenhuma “xuxinha” ficava na cabeça. Todas as tentativas de me “decorar” eram frustradas por esse pouquinho de cabelo - e eu ria dessas histórias, encantada pelas memórias da minha mãe.


Acho que minha proposta nesse texto é aclamar esse lugar de contar narrativas, memórias aos nossos filhos e/ou aqueles a quem cuidamos. Isso pode acontecer de várias formas, inclusive com os registros de fotos e vídeos. Eu, particularmente, estou tentando imprimir fotos que tiramos ao longo do ano e as penduro no quarto do meu filho. O arquivamento no computador ou na nuvem realmente facilita a nossa vida e possibilita uma boa quantidade, antes improvável, de fotos e vídeos de várias fases da vida. Só que acho raro uma criança pedir para ver fotos do computador ou celular. Esses seres ainda são bem corporais quando o assunto é se conectar, por isso, acho que a impressão de fotos faz mais sentido.


Inclusive, quando eu estava escrevendo esse texto, meu pequeno estava parado no quarto, contemplando diversos eventos da sua vida através de suas fotos comigo, com a família e com amigos. Perguntei por que ele estava tão parado e o pequeno respondeu: “Estou olhando para o passado, mãe”. Fiquei feliz em vê-lo contemplar esse momento e considero que posso continuar registrando os caminhos desse ser que acompanho, seja pelas lentes de um smartphone, seja pelas memórias que acumulo todos dias nessa convivência mãe e filho.




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