A liberdade incômoda: o corpo gordo como réu virtual!


* Por Catarina Alcantara


Para iniciarmos esse texto é de extrema importância que as pessoas entendam que o corpo humano pertence a natureza como uma junção de objetos, sentimentos, técnicas e tudo que faz parte da formação material e imaterial do mesmo. A ideia do corpo perfeito, é refletida na sociedade em que ele habita, e é dessas opiniões da sociedade, por muitas vezes cruéis, que tiramos os temidos e excludentes padrões que circundam e assombram vários grupos sociais.


Com total conhecimento de causa, eu , Catarina Alcantara, modelo plus size, e ativista, posso afirmar que as lutas dos corpos que não se moldam às padronagens da sociedade é grande, diária e árdua. Sentir-se excluído, triste e inconformado é na verdade o segredo da movimentação do mercado que inclui academias, moda, cirurgias, alimentação, remédios, aparelhos, etc. A sociedade vende para essas mentes devastadas e cansadas que é melhor se ter possibilidade de se permanecer vivo, belo e jovem, e então como num passe de mágica a magreza se sobressai como um valor exageradamente alto.


O engraçado de tudo isso, é que o discurso preconceituoso vem ocultado no discurso de valorização da saúde e revestido de argumentos apresentados com fundamentos na medicina. E as vivências diárias que homens e mulheres têm com seus corpos, onde são reduzidos constantemente as suas aparências, são invadidas por pessoas e opiniões que não buscam ajudar em absolutamente nada e sim enfiar uma “grande” representação de força e beleza natural dentro de uma garrafa que tem em seu rótulo o nome PADRÃO.


A própria preocupação com a saúde de quem é gordo se torna gordofobia, uma vez que se assume que aquele sujeito tem problemas de saúde só por estar acima do peso, enquanto pessoas magras não são abordadas e questionadas a respeito. O mais atual e mais gritante exemplo disso é essa onda vem tomando conta da internet, dando vários “caldos” nas digitais influencers gordas, como Thais Carla, Preta Gil, Leticia Muniz, etc. Canais de ativismo cibernético tendo como protagonistas mulheres que se propõem a mostrar seus corpos gordos de maneira positiva são absurdamente atacados por uma inundação de ofensas e opiniões de haters que se acham juízes virtuais.


Ao invés de julgamentos e conclusões limitadas, é preciso que a sociedade enxergue que seja na internet ou na vida real o que se apresentam ali são homens e mulheres que em algum momento sofreram com seus corpos, que não fazem parte desse padrão estético e que tentam diariamente se libertar dessas exigências. Ainda que alguns e algumas não se declarem ativistas, também buscam empoderar-se e estar no mundo de maneira distinta ao que já esteve quando subjugado e humilhado.


“A partir da dificuldade em aceitar o próprio corpo como ele é, começam a surgir reflexões sobre a possibilidade de ter autonomia e aceitar o corpo como resistência, dentro a essas ações, do micro ao macro, começam a surgir inúmeros movimentos de pessoas que acreditam que seus corpos são livres e que, ao invés de ficarem sofrendo, invisíveis e excluídas em seus sofás, lutam pela aceitação e, assim, transformam seus corpos em corpos políticos, revolucionários e felizes”, afirma Malu Jimenez, feminista e ativista de diversas causas sociais. Foucault também esclarece que o corpo foi descoberto como objeto e assim se tornou alvo do poder e que ele ganha atenção quando é percebido como algo manipulado, modelado, treinado e obediente.


Por isso, o movimento que se forma diante dos nossos olhos, todos os dias, ajuda através da auto-reflexão, e auxilia uma incrível transformação sobre a maneira como alguém se percebe. Assim, o mundo virtual traz à tona e para o mundo real, o empoderamento, os desabafos e identificações, alimentando a força necessária para a batalha dessas pessoas na vida cotidiana. Força, fé e foco, podem até ser piegas mas são extremamente necessários para absorver e multiplicar a sororidade com si mesmos, com seu próprio templo e com o mundo.



* Jornalista baiana. Modelo plus size.Instagram : @catarinasalcantara


Link da imagem: https://wondersize.blog/top-5-modelos-gordas-body-positive-para-inspirar/



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