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A ATROFIA LITERÁRIA: QUANDO NEGROS SÓ ESCREVEM SOBRE NEGROS, MULHERES SOBRE MULHERES, ETC.




Enquanto homens cis hetero brancos escrevem sobre todos os assuntos do universo, da poesia até a poeira das estrelas, passando pela configuração das rochas e o ritmo das ondas, os grupos minoritários parecem ainda tímidos, diria até presos e sufocados nas fronteiras de suas próprias experiências. Se eu sou negro, eu preciso mesmo passar o resto da minha vida escrevendo, falando e lendo apenas sobre a bagagem do meu corpo, como se fosse uma maldição que se arrasta a cada passo? Se o homem cis hetero branco transcende a própria identidade, nem mesmo se reconhecendo como tal, por que não conseguimos algo parecido, por que nosso corpo cheio de vivências é tão pesado e sufocante? Segundo a escritora britânica Virginia Woolf esse compromisso identitário, quase sempre fundamental e politicamente eficaz, pode também acabar sendo uma grande armadilha, um tipo de prisão, muitas vezes até uma gaiola desconfortável impossível de fugir.


Segundo Woolf, em seu clássico “O Valor do Riso”, em um ensaio específico chamado “mulheres e ficção”, o ápice do progresso feminista é o momento em que mulheres finalmente poderiam ter a chance de falar sobre qualquer coisa, não apenas tratando a escrita como um sintoma de um corpo em agonia. Embora esse traço terapêutico seja fundamental, deve ser visto apenas como uma ponte, algo provisório. De acordo com Woolf, escrever constantemente sobre homens e patriarcado, ainda que seja um gesto critico, e até indispensável, continua prendendo a mulher ao objeto que tanto critica. Imagine um inimigo que você não para de pensar. Não importa o que aconteça, lá está ele. Por mais que você pense na figura com ódio e desprezo, por mais que você a rejeite, ela continua ocupando seu tempo, tomando seu corpo e definindo suas ações. De uma forma curiosa, Virginia Woolf levanta a possibilidade de que a luta contra o patriarcado possa ser patriarcal, ao menos na forma como limita as possibilidades das mulheres a um conjunto de temas específicos, reduzindo corpos complexos a pacotinhos identitários. Ao descrever qual seria o ápice do progresso feminista, ela responde:


A grande mudança que se alastrou pela escrita das mulheres, ao que parece, foi uma mudança de atitude. A mulher escritora deixou de ser amarga. Deixou de se indignar. Quando ela escreve, não está mais protestando e defendendo uma causa. Aproximamo-nos de uma época, se é que já não a atingimos, em que haverá pouca ou nenhuma influência externa para perturbar sua escrita. Ela será capaz de se concentrar em sua visão, sem distrações que venham de fora. O afastamento que esteve outrora ao alcance do gênio e da originalidade [ou seja, do homem cis branco e hetero] só agora está chegando ao alcance da mulher comum. Por isso um romance médio de mulher é muito mais autêntico e muito mais interessante hoje do que há cem ou mesmo há cinquenta anos (WOOLF, 2014, p. 174)

Sem dúvida, esse momento de crítica ao mundo patriarcal, o que Woolf chama de “instante amargo”, é necessário enquanto resistência, mas apenas como um ponto de partida e não um fim em si mesmo. Caso contrário, o próprio objeto de nosso ódio domina nossa vida e define nossa própria identidade, consumindo cada gota de energia dentro de nós. Somos sempre “anti” ou “contra” alguém, nunca algo em si mesmo. Somos sempre o OUTRO, definidos enquanto oposição, em uma dialética negativa insistente, sem sequer um aroma distante de alguma síntese básica. Se fosse usada como uma ferramenta provisória e pontual, nada mais do que um instrumento bem direcionado, a resistência seria muito bem-vinda, mas com o tempo parece que se transformou em algo mais substantivo, essencialista e, portanto, perigoso, um tipo de caverna que limita as possibilidades políticas.


Se uma mulher (negro ou qualquer outra minoria) passa sua vida inteira limitada ao seu nicho identitário, não conseguindo ir além das prisões da sua própria subjetividade, existe aqui algo de errado, algo que precisa ser revisto, ao menos segundo Virginia Woolf. Esse corpo identitário deveria ser uma morada provisória e não uma prisão perpétua; um período de férias e não de mudança definitiva; um percurso e não o destino final. Se os homens cis brancos e heteros lá fora tem todo o universo objetivo disponível para si, por que nós devemos permanecer em cercadinhos bem delimitados pelo resto das nossas vidas? Talvez um dia “o romance deixará de ser o lugar onde as emoções pessoais são despejadas para se tornar, mais do que hoje, uma obra de arte como qualquer outra, com seus recursos e limitações exploradas” (WOOLF, 2014, p. 177). Ou seja, em invés de um puro espaço de queixas e ressentimentos, a arte pode ser o campo aberto dentro de infinitas possibilidades criativas, de uma síntese no horizonte. Não queremos apenas negros escrevendo sobre racismo, mas negros escrevendo sobre moléculas, física quântica, o movimento das ondas, dragões e fadas, fórmulas químicas e guerras, planetas inexplorados e viagens no tempo. Queremos minorias que transcendam os limites de seus cercadinhos identitários e se conectem com algo mais humano. Parafraseando Greta Gerwig, em seu novo filme Barbie, "minha história não é feminista, mas humanista", o que significa temas mais universais, temas que ultrapassam as próprias fronteiras do identitarismo. Como sempre escrevo em meus textos, as lutas identitárias devem ser trampolins, pontos de partida, ferramentas, ou até armas de combate, mas NUNCA casas sólidas e confortáveis, muito menos condomínios fechados ou cavernas convenientes. Seria como confundir um tempero de comida com a própria comida: sem dúvida, precisamos desse coentro simbólico (MULHER, GAY, NEGRO, PROLETÁRIO, SUL-AMERICANO, OBESO, IDOSO, DEFICIENTE, NORDESTINO, ETC), mas apenas na medida em que potencializa o sabor da nossa feijoada.




Referências

WOOLF, Virginia. O Valor do Riso. São Paulo: Cosac Naify, 2014.




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