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A PONTE SALVADOR-ITAPARICA: Uma Ligação Entre Profundos Impactos e Possíveis Benefícios





No último dia 18 de maio atracou no Porto da capital baiana um navio vindo da China, contendo os primeiros materiais que farão parte do início da construção da Ponte Salvador-Itaparica. As 800 toneladas de equipamentos - vigas, estruturas metálicas, parafusos, e outras peças - irão ser remanejadas para canteiros situados nas cidades de Maragojipe e Vera Cruz, para a montagem de uma espécie de “ponte provisória” que dará suporte para a constituição da verdadeira ponte, a começar obras já agora no mês de junho, criando postos de trabalho, capacitação de operários, e fomento da economia nos dois municípios onde se darão o projeto. O custo do equipamento é orçado em 17 milhões de reais. Toda essa operação será gerenciada por um consórcio chinês, em parceria com o governo do Estado. outros navios chineses devem chegar ao longo do processo, desembarcando mais materiais. A inauguração do elevado está prevista para 2031. Agora é pra valer. Depois de muito bafafá, o parangolé vai rolar mesmo.

 

A discussão sobre a construção de uma ligação rodoviária entre Salvador e a ilha de Itaparica não é nova. Acredito que isso sempre esteve presente nas ideias de nossos antepassados. No entanto,apenas em 1967 surgiu uma proposta concreta sobre isso, através do arquiteto Sérgio Bernardes, presente no Plano Diretor do Centro Industrial de Aratu (CIA) , prevendo anéis viários e uma ponte ligando Salvador à Ilha. O planejamento inicial era o escoamento de tudo que era produzido no complexo industrial. Lembrando que nessa época ainda não existia o sistema Ferry Boat,que só fou inaugurado em 1972, aumentando consideravelmente o fluxo de passageiros para a Ilha. Anteriormente,haviam pequenos navios operando aquele trecho (como o João das Botas,o Maragojipe,e o Vapor de Cachoeira). Com a demanda crescente, a Ilha se tornou point de veranistas, até hoje em dia.

 

A primeira vez que ouvi falar sobre uma possível ponte,eu era menino, talvez uns 10 anos, através de um político que não recordo o nome (nem o google…). Anos depois, atuando como assistente técnico em um grupo de pesquisas na faculdade - que estudava impactos socioambientais nas comunidades tradicionais que habitavam os municípios do entorno da Baía de Todos os Santos - me deparei com um projeto alternativo à ponte, sugerindo um anel viário que contornaria os municípios do entorno da Baía, ampliando rotas e vias e dinamizando o trânsito entre a capital e o interior. Os formuladores eram totalmente contrários à construção da ponte, projeto que estava cada vez mais em voga, por via do então governador Jaques Wagner, que apresentava discurso favorável a materialização do antigo desejo de instalação desse eixo de ligação, com apoio de seu então secretário da Casa Civil Rui Costa. Como sabemos,Rui levou a cabo o assunto quando assumiu o governo do estado e estuturou todo o processo.

 

Desde que a questão tomou forma de fato, surgiram muitas críticas. Sobre a favelização da Ilha, impactos ambientais irreversíveis, especulação imobiliária agressiva, etc. O escritor itaparicano João Ubaldo Ribeiro era a voz mais ilustre contra o empreendimento. Outros artistas e intelectuais aderiram à sua revolta. Agora surge também ameaça aos terreiros de candomblé. Discussões estão sendo feitas sobre possíveis desapropriações. E eu? Qual é a minha opinião sobre isso? Sou contra ou favorável?

 

Não é algo simples de determinar “sou totalmente contra” ou “sou a favor”. Não é do meu feitio esbravejar que tudo contido nessa ideia é um total desastre. Há muitas complexidades e posso dizer que tenho posicionamento um tanto ambíguo, porém inclinado a ver mais problemas que soluções. Vi alguns gráficos sobre o projeto como um todo e participei de debates, onde até foi cogitada minha participação como antropólogo. Minha primeira crítica é à escolha da entidade responsável pelo planejamento urbano e mobilidade das áreas de integração da ponte, o Instituto Jaime Lerner, do Paraná, cujos representantes não possuiam nenhuma identificação com o território, nem trajetórias de pertencimento, para gerir algo de tal envergadura. O plano de desenvolvimento praticamente “não tem dendê”. O projeto prevê uma série de viadutos, inclusive na região de São Joaquim, o que muito provavelmente causará uma poluição visual daquelas.

 

O destino final da ponte passará muito próximo da Feira de São Joaquim, o que provocará danos paisagísticos, fluxo intenso de veículos, e até mesmo elevação da sensação térmica para feirantes e visitantes, dado a quantidade de concreto nas imediações. O impacto pra mim fica evidente e não estou ainda ciente dos planos de mitigação de prováveis consequências de toda essa empreitada.

 

Porém, há benefícios inegáveis, como a facilitação dos deslocamentos, principalmente para pequenos comerciantes, fornecedores, e turistas, que dependem de um sistema de transporte marítimo defasado e obsoleto, ou seja, é possível um incremento tanto econômico, quanto logístico. Quanto a essa questão, sou favorável á desintegração do sistema ferry boat e constituição de modais náuticos que circulem pela costa soteropolitana, o que ampliaria uma utilização mais panorâmica da cidade e da Baía. Pode haver ainda valorização de alguns terrenos pertencentes a pessoas da comunidade itaparicana que necessitariam de proteção do poder público para regularização dessas propriedades, afim de não serem engolidos por selvagens investidores. Essa é a parte mais delicada, pois a história mostra quem sempre sai por cima em tratativas imobiliárias de peso. Porém, é possível uma normalização mais cuidadosa, afinal são cinco anos que podem ser muito bem ser aproveitados pelos regentes do estado. Outra grande preocupação é com desmatamentos para construção de resorts. Quanto a isso, a sociedade precisa estar atenta.

 

Os impactos negativos, porém, ainda estão mais visíveis e eminentes, mas é hora de encarar a situação de frente. A ponte vai acontecer. Se não houver proveito político por alguns (muita gente querendo aparecer, mas sem estipular políticas de abrandamento), poderá haver sim sérias discussões sobre possibilidade de ganhos para os habitantes da Ilha. Pretendo ainda me inteirar e me aprofundar ainda mais sobre o projeto, podendo voltar a falar sobre isso em outra oportunidade.



FONTE:






Slide 1 - Plano Diretor Gestão Ponte Salvador - Itaparica




IMAGEM: Site Oficial do Governo da Bahia

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