A saga do Não que virou Sim

Não.

Não, não.

Não, obrigada.

Não posso.

Não quero.

Não vou.

Nananinanão!


O Não estava se sentindo marginalizado. Por que?

Ah, porque as pessoas diziam que ele era muito chato, intransigente, egoísta e arredio. Muitas pessoas não gostavam dele, era um fato.


Alguns que o recebiam achavam desagradável. Por causa dele as respostas eram negativas e certas coisas impedidas.


Quem o dava, – quando dava – dava como se estivesse entregando algo terrível ao outro, um sinal de que não estava achando importante o convite, o pedido, a decisão, a opinião alheia.


Muitas pessoas corriam dele, do Não, coitado! Principalmente quem sentia vontade de oferecê-lo, mas pensava que não devia. E ele ia cada mais esmorecendo.

“Sou um inútil!” - pensava o pobre Não.


Era preferível ter nascido um Sim. Ah, o Sim! Ele sim era querido e esperado. Uma ótima recepção o aguardava assim que passava da boca de uma pessoa ao ouvido da outra.


Vislumbrava ser um Sim, tão leve e redondo. Não queria mais viver desse jeito, estigmatizado, deixado de lado, evitado, temido.


Então, um belo dia, o Não encontrou alguém que o transformou num Sim. Esse alguém não suportava usar o Não e resolveu que mesmo precisando fazer isso desesperadamente, iria dizer sempre Sim.


Engoliu o Não e lá, dentro de si, fez a transformação, mesmo que dolorosa. O que saiu de sua garganta foi um frondoso Sim. Dessa forma estaria agradando e tudo correria bem.


“Ah, que feliz estou! Não serei mais Não, agora sou um Sim, acabou meu constrangimento.” - pensou o Não.


O que o antigo Não não sabia era que seria cada vez mais sofrido para essa pessoa que o transmutou permanecer com um Sim a seu lado o tempo todo.


O que ela pensou ser um alívio, aos poucos, foi se tornando fardo. Dar um Sim a todo momento a estava deixando insatisfeita, estressada, sobrecarregada. Era um sacrifício atrás do outro, por causa do Sim. Ela não conseguia mais fazer nada que queria, não se priorizava nunca.


Até que, por fim, não aguentou mais e terminou por engolir aquele Sim de forma raivosa e decidiu torná-lo novamente um Não.


Teve que fazê-lo.


O Não estava desapontado. “E agora? Voltarei a ser temido, ignorado, estou perdido de novo, não tem mais jeito pra mim”.


Mas quão surpreso ele ficou quando, após ser proferido, sentiu que trouxe alívio, satisfação, contentamento para sua locutora.


"Como pode?" Perguntava-se intrigado.


Pois foi aí que ele ouviu a mais bela resposta: Não, você foi o meu Sim!


“Eu, um Sim? Não entendo! Não me sinto diferente. Ainda sou o mesmo Não de sempre.”


- Você foi um Sim pra mim – reafirmou ela.


O Não continuava bem confuso com aquele papo.


- Você foi o primeiro Sim que eu dei a mim mesma durante um longo tempo. Entendeu agora? – indagou a moça.


Então o Não compreendeu que ele não seria necessariamente sempre a mesma coisa, que tinha um pouco de Sim dentro dele. Um Sim para o desejo de Não poder, Não querer, Não fazer, Não, nananinanão!


Um Sim para a própria vontade, para suas prioridades, para validar o que se quer.


Nesse dia o Não virou um Sim legítimo para quem o deu e se sentiu orgulhoso de ser um Não, pois percebeu que pode ser benéfico e necessário, em muitos momentos.


Moral dessa pequena história: você não precisa ter medo de dar um não em relação a algo que não possa ou não queira fazer.


Muitas pessoas se autossacrificam ou se subjugam nas situações, por algumas razões. As mais comuns são: não querer magoar, desagradar aos outros; não ser visto como egoísta ou como uma pessoa ruim; medo de ser rejeitado; achar que deve colocar os outros sempre à frente, que é o certo a se fazer; pensar que deixará de ser importante a partir do ponto que se negar a alguma coisa. E existem outras.


Dizer um não pode gerar emoções de culpa e medo, a depender de cada pessoa que tem essa dificuldade. É comum querer fugir disso, mas saiba que dizer sim sempre pode te levar à muito mais que um simples aborrecimento, chegando a um pico de estresse e até mesmo à depressão.


Esse tipo de atitude, a longo prazo, vai provocar uma insatisfação imensa, pois você se coloca em último lugar e não atende às suas necessidades, decisões, desejos.


Haverão situações que não tem como dizer um sim, e isso é legítimo. A insatisfação momentânea do outro vai dar lugar à uma maior satisfação sua.


Nós receberemos vários "nãos" pelo caminho e está tudo bem nisso, assim como será normal (e até bom) entregar alguns às outras pessoas.


De tal forma que o seu Não se tornará um Sim, para você.



Imagem:

https://www.lagracia.com.br/o-dia-em-que-eu-disse-nao-para-a-minha-chefe/

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