ADEUS SAUDOSA RESTINGA: O Impacto Ambiental na Área do Antigo Centro de Convenções

No último dia 20 de julho de 2026, a área de 116 mil metros quadrados onde está situada as ruínas do antigo Centro de Convenções foi arrematada por mais 138 milhões de reais. Compreendendo os bairros de STIEP, Armação, e Costa Azul, o perímetro foi adquirido pela Pilar Incorporação e Construção Imobiliária, que é administrada pela Enseada do Castelo Empreendimentos Imobiliários, tendo como cotista o ex-prefeito e atual candidato a governador do estado Antônio Carlos Magalhães Neto. Os novos donos devem cumprir o prazo de 16 meses para desmontar aquele monte de concreto e ferro oxidado que ainda existe por lá.
A venda excluiu uma Área de Preservação Permanente (APP) nas proximidades do terreno, que não poderá ser atingida sob nenhuma hipótese. Acontece que nada é tão simples quando envolve proteção ambiental e associações de moradores dos bairros vizinhos estão preocupados com essas supostas garantias de que a área não será afetada. 87% dessa APP está degradada, segundo documentos, e não há no edital de especificação da compra nada que responsabilize o comprador a realizar um plano de recuperação dessa zona.
Recentemente, tive acesso a uma informação “instagramada” onde o deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) visita a região e faz a denúncia de que o governo do estado teria “rasgado” o acordo em manter toda a APP de fora e incluiu na venda 33 mil metros quadrados de restinga - bioma responsável por manter dunas e vegetações que permitem equilíbio ambiental nas regiões costeiras. Ou seja, se essa zona ecossistêmica não se mantiver intocável, o risco de aumento da temperatura, alagamentos, e outros danos ambientais é grande, caso prédios de luxo venham a ser construídos no local, o que é quase certeza que será. Ainda há risco da fauna local, se não desaparecer, ficar encurralada, invadindo áreas residenciais.
Sempre digo que, em questões climáticas, Salvador ainda é uma cidade abençoada, sem grandes amplitudes térmicas, umidade razoável, chuvas torrenciais em quantidades menores que em outras capitais, e uma orla marítima que está longe de estar totalmente edificada. No entanto, o que vemos são comerciais de empreendimentos de luxo em áreas cobiçadissimas da orla, com pavimentos altos, podendo causar barreiras para circulação de ventos nas demais localidades do município. Em um estudo do projeto Observatório do Calor, foi registrado duas temperaturas díspares em dois bairros pesquisados. Enquanto Pituaçu, com seu amplo parque e vales com alguma preservação, registrava 28°, em PeriPeri, no Subúrbio, os termômetros marcavam 34°! É uma mostra de como o avanço da verticalização influi diretamente em várias partes da cidade (e olha que PeriPeri é um bairro praieiro, hein?!). São 6° de diferença numa distãncia de poucos quilômetros entre os dois logradouros. Isso é gravíssimo! Já mencionei essa parafernália em texto (MINHA TORRE,MINHA VIDA:A VENDA DE ÁREAS AMBIENTAIS EM SALVADOR PARA A ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA).
Algo a ser analisado é a aquisição do terreno por parte de uma empresa que tem como administradora um grupo ligado a ACM Neto, candidato ao governo, o que mostra a clara aproximação de um postulante ao cargo de governador ter proximidade a grandes empresários, indicando que um possível governante pode estar à frente de uma especulação imobiliária desenfreada que ele deveria combater! O Vale Encantado, em Patamares, corre o risco de ter parte de sua Mata Atlântica devastada por projetos da construção civil. Sabe-se do interesse da prefeitura em levar o carnaval de Salvador justamente para essas áreas da orla, entre a Boca do Rio e Patamares, locais que estão sendo monitorados pelas empreiteiras. O risco de termos uma orla copacabanizada nos próximos anos é alto!
O lamentável de tudo isso é uma população que ignora esses fatos e não tem idéia do inferno que Salvador se tornará se toda a área de restinga, dunas, e matas sofrerem intervenções urbanísticas drásticas nessas regiões citadas. Nem 5% dos moradores devem ter ideia disso. Ainda não consegui detectar nenhum movimento social ou ecológico se preocupando com esse bioma afetado na região do antigo Centro de Convenções, nem qualquer autoridade, órgão de imprensa, influencers, intelectuais, ou artistas que venham sistematicamente denunciar o que está havendo. Isso não deve ser prioridade apenas de políticos representativos. Numa cidade com tantos problemas estruturais, sanitários, de mobilidade, violência urbana e social, o problema ambiental parece menor. Ledo engano.
FONTE:
IMAGEM: Bahia.ba


Me lembro que teve uma campanha contra o desmatamento na região do BRT. Sem contar o dematamento da Paralela. A cidade aqueceu demais.
Para mim, além da questão ambiental que é urgente, inclusive fico triste com essa gentrificação da orla sem um projeto ambiental. A região de Janguaribe está feia.
A perda do centro de convenções é uma lástima culturalmente, triste pelas obras de Bel Borba, deveriam preservar as paredes. O atual parece um shopping.