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Aleluia, irmãos. Iemanjá resiste!




A notícia circulou recentemente: segundo o censo do IBGE realizado em 2022, há muito mais templos religiosos que instituições de saúde e educação reunidos! Há 264 mil estabelecimentos de ensino e 247 mil entidades de saúde, que somados, não alcançam quase 580 mil espaços dedicados a orações e reflexões metafísicas  – em todas as religiões. Isso demonstra que a fé remove montanhas e também outros centros de participação social.


Somados os cristãos – católicos e protestantes – somos mais de 90% da população, mesmo que nem todos sejam praticantes, ou seja, sigam rigidamente a doutrina. Muitos são fervorosos, adotam seus valores acima de tudo, tornando o conceito de Estado Laico difícil de ser seguido, pois misturam princípios da lei com preceitos bíblicos. Daí podemos intuir que a cultura cristã impera e tende a se expandir mais e mais. Se realizarmos uma rápida enquete, todo mundo tem um chegado, parente ou amigo, que seja convertido em alguma denominação evangélica. E ainda querem isenção de impostos!


No mesmo dia que essa informação foi divulgada, acontecia a tradicionalíssima Festa de Iemanjá, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, festejo centenário. Todo ano, milhares de pessoas vão oferecer presentes a Ela, fazem pedidos, agradecem realizações, brincam, bebem e curtem. Essa celebração, verdade seja dita, já se inicia no fim da tarde do dia 1, se estendendo pela madrugada e durante todo dia 2 de fevereiro. Posso garantir que é uma senhora festança, muito animada e proveitosa, com rosas no mar e ondas na areia. No dia anterior, ocorre os rituais de entrega do Presente a Oxum, no Dique do Tororó. Presente na água doce, presente na água salgada, e toda cidade brilha.


E é isso o mais interessante: como o censo mostrou, somos um país sacro, muito mais voltado para o salvacionismo, no entanto, esse dia é dedicado a uma entidade afro-brasileira, capaz de reunir gente de todos os lugares (muitos turistas nos visitam para reverenciar a orixá), de todos os cantos, com devoção, confraternizando catraias e iates que lado-a-lado acompanham o cortejo marítimo que leva seus presentes ao meio do oceano. Com tantos templos, espalhados por aí, o Rio Vermelho concentra uma resistência cerimonial não-cristã, talvez única no mundo! Sim, temos grandes festas hindus na Índia, multidões em Meca, Yom Kippur dos judeus... Mas me diz aí: onde irá encontrar tal solenidade onde sagrado, manifestações culturais, danças e preces se mesclam num festejo onde se clama por uma divindade com uma latinha na mão? É regional, é mundial!


A Festa de Iemanjá é uma resistência mística, num país onde os chamados evangélicos vem se infiltrando nas instituições, nos setores corporativos, nos diversos ramos da economia e da República, moldando moralmente nossa vida. Entretanto, nossa gastronomia, modos de andar, linguajar, música, gingado, não escondem as origens.  Ela não se enfraquece! Todo ano, dia 2 de fevereiro é dia de festa no mar! Todos louvando Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaína, Iemanjá! E viva a Rainha do Mar!


FONTE:


IMAGEM: Metro1

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