ANÁLISE DO DISCURSO POLÍTICO: Educação, cultura e cidadania entre os povos originários
- Autor(a) Convidado

- 22 de jul.
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*Eduardo Vago Pereira
Tratando da entrevista que o professor, escritor e doutor em educação Daniel Munduruku ofereceu ao programa CNN Nosso Mundo da emissora CNN Brasil, podemos perceber um pouco da experiência indígena brasileira e seu lugar nos tempos recentes, marcada pela vulnerabilidade na pandemia da COVID-19, discurso explícito contra seus direitos partido do governo Bolsonaro e seus apoiantes, bem como invasões das TIs (Terras Indígenas) e outras formas de atrito que desembocam em violência contra os povos autóctones. A entrevista foi divulgada primeiramente no canal televisivo da CNN Brasil no dia 21 de maio de 2021, embora seu acesso tenha sido possível para não-assinantes via internet (a emissora mantém uma plataforma no YouTube). A CNN Nosso Mundo é um programa com formato de debate e a cada edição traz um especialista de determinado assunto para ser destrinchado pela equipe entrevistadora, de modo a estender o alcance de opiniões relevantes sobre temas que vão da saúde à educação, da pesquisa às traduções.
Quanto à origem de Daniel, é importante lembrar que o autor integra o povo Munduruku, nativo principalmente do Vale dos Tapajós no Pará. Conhecidos como guerreiros pelos seus vizinhos de longa data e como arredios pelos não-índios, sua submissão ao projeto colonial só se deu ao final do século XVIII, após muitos confrontos com os portugueses, se seguindo com a imposição dos missionários católicos e da economia das “drogas do sertão”. O contato foi se tornando mais intenso nos dois séculos seguintes com as invasões de suas terras na ascensão da “economia da borracha” e a diversificação das denominações missionárias. Vale lembrar, no entanto, que as tradições Munduruku, desde a língua até a pajelança e as narrativas continuam marcantes no cotidiano de grande parte de sua população, ganhando formas de se manter em meio a perspectivas distintas, com sua perpetuação física são defendidos através da participação política, mais recentemente notável durante a questão Belo Monte em 2013. Na entrevista, Daniel Munduruku abre espaço para a espiritualidade, a educação e as relações interraciais, numa conexão discursiva que passa pela construção de identidade e etnia, pela significação da territorialidade e o estruturalismo, necessários, para enxergar a cultura (nesse caso, a comunicação entre ideias) como um veículo da compreensão.
“Rita Wu: hoje em dia agente têm falado muito da importância, né, de ouvir as pessoas que passam pelos processos e não só as que comentam [...] Como deve ser nosso lugar de escuta e nosso lugar de ação num momento em que os indígenas estão tão ameaçados e trazem consequências para todos?"
Daniel Munduruku: É um tema importante de abordar, com certeza. Até alguns anos atrás, agente (os índios) não tinha muito lugar para poder colocar nossa voz em evidência. Esse espaço foi uma conquista, não nos foi dado [...] foi uma conquista que levou que as populações pudessem de fato participar do processo brasileiro de uma forma mais qualificada [...] aprendendo a se comunicar com a sociedade brasileira. Quando a gente fala do lugar de fala, a gente está dizendo também que estas populações estão aprendendo a abordar temas que podem ajudar o Brasil a pensar sobre si mesmo.
Luciana Barreto: Deixa eu (sic) entrar um pouco em seu Universo pessoal. Como o (Daniel) Munduruku soube dialogar na Academia com saberes etnocêntricos (...) o que a Academia
ensina para você e a Academia te ensina?
Daniel Munduruku: Então, eu não fui para a Academia simplesmente porque quis, eu fui sendo levado, de certa maneira [...} eu sou um ser do presente [...]eu ia absorvendo essas oportunidades e me transformando, porque fui descobrindo que conhecimento [...] serve para nos humanizar. Quanto mais conhecimento (se) tem, mais a gente se humaniza, mas aí depende de como você utiliza o conhecimento que tem [...] fui aprendendo (em minha cultura) que cada passo que dou à frente tenho que olhar para traz. Tenho que reverenciar o processo de todos os antepassados que me fez e me permite estar aqui. [...] O mérito não é meu, é de uma cultura que vai me dando uma oportunidade de olhar o mundo a partir dessa perspectiva e eu vou observando isso para dar a minha contribuição de que o Brasil olhe para si mesmo e faça esse movimento, portanto, de retorno às Origens.” (MUNDURUKU; Daniel. CNN Nosso Mundo #18).
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Tendo sido recebido pela apresentadora Luciana Barreto e se conduzido verbalmente a partir das perguntas de Lia Bock, Thaís Herédia e Rita Wu, percebe-se que Daniel trouxe à entrevista temas caros não apenas ao povo Munduruku no qual é incluso, mas também a diversos outros povos. É perceptível que o discurso do entrevistado, sendo passado em português e incluso em um veículo de comunicação televisiva, se dirige sobretudo a um público não-índigena, no qual experiências heterodoxas à sociedade nacional passam a ser melhor compreendidas pela última e quando Daniel Munduruku faz uso do termo “índio”, não limita as perspectivas evocadas pelo termo a um único recorte social, mas se atenta aos desafios que enfrentam e questionamentos que trazem em sua condição autóctone, não sendo por acaso que seu debate parte primeiro dos estereótipos que caem sobre os ameríndios. O questionamento simbólico tanto dos povos originários como antônimos à globalização (afastados da realidade além de suas comunidades) quanto dos conceitos assimilacionistas (como se a única forma de alcançarem o bem-estar e a inclusão fosse o abandono de uma identidade) se faz necessário para reconhecer seus integrantes como indivíduos tão cheios de possibilidades quanto qualquer outro, ao mesmo tempo que carregam uma trajetória de reivindicação decisiva para afirmar sua presença na sociedade.
“Lia Bock: você inaugurou um tipo de literatura, né, que leva essa ancestralidade para os livros, que ajuda essas histórias a atingir mais pessoas. Isso é muito poderoso, quando a gente lembra que são histórias orais e que talvez estejam se perdendo de alguma maneira. Você acha que seria importante vermos essas histórias ocupando outros lugares como escolas, novelas, quadrinhos, games, outros lugares para que ela fosse difundida? Acha que isso ajudaria de alguma maneira?"
Daniel Munduruku: com certeza. Eu costumo dizer que escrevo por puro egoísmo [...] para não esquecer as histórias que ouvi [...] e tenho a sorte de que muita gente que lê acaba se inspirando, acaba conseguindo captar alguma coisa, alguma sabedoria que está contida nas palavras, mas para além disso, eu olho que há sim um movimento dentro dos próprios indígenas, os mais jovens, de dominar a linguagem da tecnologia para fazer com que essas vozes também repercutam na sociedade, usando esses outros equipamentos, esses outros instrumentos. A gente tem visto com certa alegria e contundência até agora, uma busca de trazer também os saberes ancestrais, o imaginário brasileiro para as telas. Isso é importante mas ainda é pouca coisa [...] a tendência é trazer mais à tona, penso eu porque o Brasil está começando a olhar pra si mesmo e buscar sua própria identidade, que está contida na ancestralidade indígena”. (MUNDURUKU; Daniel. CNN Nosso Mundo #18).”
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No momento em que é arguido sobre sua literatura, as possibilidades da linguagem são trazidas por Daniel Munduruku quando ele se declara influenciado pelas tradições que “guarda” para si através dos livros, ao mesmo tempo que as transmite, permitindo um alcance nem sempre permitido pelo discurso oral, gerando aquilo que, em suas palavras, é uma oportunidade de melhorar o mundo e divulgar as diferentes cosmologias dos povos indígenas através de uma sabedoria adquirida, tarefa à qual, na crença do autor, se aperfeiçoaria através do contato com novas tecnologias, efetivado sobretudo por gerações recentes e engajadas nessa transmissão.
No que diz respeito ao papel da(s) cultura(s), Daniel Munduruku preconiza quando fala da necessidade de olhar a si mesmo, a própria história e o próprio presente. Direcionado à população brasileira no sentido abrangente do termo, se refere ao diálogo, à conectividade do conhecimento, sabendo que a cultura, mesmo sendo independente da língua para existir, “corre em paralelo” com ela. Essa pauta tem certa relação com o pensamento lévi-straussiano, o qual enxerga a língua como portadora de significado, se tornando reconhecida como patrimônio à medida que conserva os valores atribuídos às palavras e os permite se transformar com o passar das épocas e das relações entre falantes, dentro e fora dessa cultura.
As possibilidades da interculturalidade são levantadas mais uma vez quando Daniel traz o mito do Brasil monocultural para a bancada entrevistadora, alegando que embora os índigenas tenham aprendido muito com o restante da sociedade, esta pouco se esforça em fazer o mesmo com eles, mesmo recentemente. Silva César (2006) já tocava nessa discussão ao relatar sua experiência na aldeia pataxó da Coroa Vermelha, bem como as implicações identitárias que a língua tem ao lado da terra e da cultura como uma forma de recuperar as raízes na busca pela afirmação de um povo ou comunidade, se opondo ao processo históricob de glotofagia (apagamento de línguas de um território em favor da dominante, expressando tendências nacionalistas e mesmo etnocêntricas).
Mesmo não contando com o aparato oficial e explícito de governos passados à exemplo da administração do Marquês de Pombal (responsável por banir as línguas autóctones e “crioulas” da América Portuguesa) e o Estado Novo de Vargas (especialmente punitivista em relação às línguas estrangeiras trazidas pelos imigrantes), a glotofagia se perpetua no Brasil através da negação de espaço para as línguas minoritárias, expressa pela falta de representação que encontram na educação formal e veículos de comunicação, lhe negando espaço para perpetuar aquilo que traz na forma de conhecimento, narrativas e todo o capital simbólico (CÉSAR, 2006, p.58). O abandono da língua materna é muitas vezes a solução encontrada para garantir a sobrevivência de muitas pessoas que se veem ameaçadas em seu território e precisam se fazer entendidas como estudante, profissional ou indivíduo jurídico, dada a quase impossibilidade de se afastar perante o Estado-nação, por mais monolíngue que venha a ser (FRANCHETTO, 2020).
Pode-se dizer que o discurso escolhido se associa ao tema de vivência indígena no quesito de identidade, educação e participação política devido ao seu formato de entrevista. Apesar da língua falada ser o português em todas as ocasiões e demonstrar a hegemonia dessa identidade linguística nos meios de comunicação do Brasil, não deixa de refletir a capacidade do discurso autóctone se adaptar para dialogar com um público amplo que compõe a maioria evidente dos falantes e ouvintes do país, do mesmo modo que a receptividade da bancada entrevistadora evidencia certa abertura de possibilidades que chegam quando se aceita outras perspectivas num ambiente de “universalidade” (ou mesmo de hegemonia) como uma emissora de grande porte. Embora não tenha sido possível acompanhar a reação dos telespectadores da entrevista em tempo real, pôde-se perceber uma tendência no histórico de comentários que demonstra abertura e compreensão, havendo elogios à perspectiva apresentada e às possibilidades existenciais que Daniel Munduruku levantou. A escolha desse convidado para compor um episódio na CNN Nosso Mundo, portanto, trouxe à filial brasileira de uma emissora internacional a oportunidade de abordar o conhecimento ameríndio num ambiente no qual este ainda não ocupa regularmente.
Quando enunciou o discurso sobre interracialidade e conhecimento, Daniel Munduruku demonstrou a relevância de sua experiência e trouxe mais uma vez sua capacidade de diálogo com o mundo não-índio. O papel de embaixador tanto dos Munduruku quanto da experiência autóctone brasileira é comprovado por sua trajetória, sabendo que ainda na infância, precisou se mudar para a periferia da capital paraense para estudar. Daniel relata que muito preconceito e descrédito já caíram sobre si devido à sua origem, conseguindo (re)descobrir o valor desta primeiramente com os conselhos de seu avô e mais tarde, com sua aproximação da prática pedagógica e da literatura infantil, o encaminhando a um processo que contribuiu em muito para incutir uma compreensão respeitosa da vivência indígena.
Nesse contexto, é válido lembrar que a autoidentificação indígena na atualidade compõe uma forma de enfrentamento partida dos povos (CICCARONE & RAMOS; 2020) os quais defendem suas perspectivas e modos de vida a fim de ultrapassar a negação política, a qual se manifestou nos diversos discursos que a história dos Estados registra. A recorrente incompreensão do índio e a significação de sua figura como alguém a ser resgatado pela “civilização” ou mesmo de um estorvo a ser eliminado pode ser contornada quando as perspectivas das populações originárias demarcarem terreno também no mundo das ideias, se fazendo presentes nos meios de comunicação.
As eventuais dificuldades com esse discurso vieram do formato de entrevista, fazendo com que o discurso proferido, por mais certeiro e informativo que fosse, tivesse que lidar constantemente com a necessidade de dinâmica com a bancada entrevistadora. Por mais que tenham servido de introdutor importante para pontos mais específicos da experiência de Daniel, as perguntas feitas entrecortaram as falas do interlocutor principal e impediram uma naturalidade, uma pessoalidade maior que é frequente em métodos biográficos, documentários ou relatos da etnografia.
A expressão da ancestralidade partindo da língua também foi uma chance de compreender melhor o discurso narrativo em muitos povos do Brasil, o respeitando pela capacidade de trazer conhecimento e de refletir no modo de vida das comunidades que compartilham esse capital simbólico, de modo que aqueles que a compõem (em que pese o contato com outras culturas) possam estar “com um pé na aldeia e outro no mundo” conforme é trazido por Janete Neves em seu trabalho “Escola Indígena Pataxó da Jaqueira em Porto Seguro”(2017), o qual descreve uma escola indígena bem-sucedida nas práticas de bilinguismo, cultivo de saberes e afirmação comunitária (p.101), além de se destacar pelo ecoturismo, a Reserva da Jaqueira é uma referência importante para o povo Pataxó.
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*Eduardo Vago Pereira nasceu em 2000. Morou nas cidades baianas de Mundo Novo e Feira de Santana, atualmente morando em Salvador. É graduado em Ciências Sociais pela UFBA e mestrando-pesquisador em Antropologia pela mesma universidade. Inicialmente, pesquisou com ênfase em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, mas atualmente, pesquisa principalmente na Antropologia das Populações Indígenas e dos Povos Originários, com foco na educação e interculturalidade. Seu Trabalho de Conclusão de Curso teve como tema "Educação escolar indígena: uma descrição da educação escolar diferenciada entre os povos indígenas da Bahia a partir do caso Pataxó". O projeto de mestrado, tendo como tema de pesquisa a Licenciatura Intercultural Indígena na UFBA (LINTER-UFBA) e o seu processo de formação de professores da educação diferenciada indígena. Também escreve literatura, tendo publicado poesias e contos através dos livros Corpo Sem Freio e Outras Impressões (2022) e A República dos Dois Povos (2026).

Referências:
ALBERT, Bruce. Ouro canibal e a queda do céu. Uma crítica xamânica da economia política da natureza (Yanomami). In. ALBERT, B. & RAMOS, A. Pacificando o Branco. São Paulo, ed. UNESP, 2000.
CÉSAR, A. L. S. Algumas questões a propósito de línguas e construção de identidades étnicas. Revista de Estudos Linguísticos, n, v. 35. 2006.
CICCARONE, Celeste. RAMOS, Danilo Paiva. Etnocídio bolsonarista: estudo sobre os crimes contra pessoas e povos indígenas pós Comissão nacional da Verdade. In. TELES, E. & Quinalha, E. Espectros da Ditadura. São Paulo, Autonomia, 2020.
FRANCHETTO, B. Língua(s): cosmopolíticas, micropolíticas, macropolíticas. Campos, v. 21, n.1, 2020.
Grupo Editorial Global. Daniel Munduruku. Disponível em:
Instituto Socio Ambiental. Carta dos Munduruku ao governo explicita conhecimentos milenares e afirma demandas. 8 de jun. 2013.
Instituto Socio Ambiental. Povo Munduruku. 2014.Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Munduruku. Acessado em jun. 2021.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Linguística e antropologia. In: Antropologia estrutural. São Paulo: Cosac Naify, Tradução de: Beatriz Perrone-Moisés. Título original: Linguistics and Anthropology.
NEVES, Janete. “Escola Indígena Pataxó da Jaqueira em Porto Seguro BA: uma análise da organização estrutural e sua influência na aprendizagem” In: Revista Científica de Iniciación a la Investigación. Vol 2. N.2 (Pag. 93-107). 2017.
TASSINARI, Antonella Maria Imperatriz. “Sociedades Indígenas: Introdução ao tema de diversidade cultural” In: SILVA, Aracy Lopes da; GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. “A Temática Indígena na Escola”. Cap. 16. MEC – MARI – UNESCO. Brasília. 1999.

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