ANDAR NA PEDRA: O Impressionante Documentário Sobre o Raimundos
- Carlos Henrique Cardoso

- 1 de mai.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias

No último mês de março estreou no Globoplay o documentário “Andar na Pedra - A História dos Raimundos”, sobre a famosa banda surgida em Brasília e que cativou grande público. São cinco episódios - com cerca de uma hora de duração cada um - retratando a trajetória do grupo. Não há nada de inovador no formato, é uma produção com tudo que há nesse gênero: relatos dos principais envolvidos, confidências, imagens de arquivo, depoimentos de quem conviveu com eles, etc. Porém, chama atenção o tanto de acontecimentos em tão pouco tempo de estrada. Entre 1994, quando lançaram o primeiro disco, até a saída do vocalista, em 2001, parece que a banda tinha mais de 20 anos de carreira.
Começaram muito novinhos ainda, em 1987, moleques, após a aproximação entre os vizinhos Rodolfo (vocais) e Digão (guitarra). Brasília já era a capital do rock nacional, tinha exportado Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Legião Urbana, e Plebe Rude pro país todo. Com a cena punk ainda bombando, a banda começou a ganhar forma, com a entrada de Canisso (baixo) e Fred (bateria), formação clássica. Daí, as raízes nordestinas se entrelaçaram com o rock pesado e o chamado “forrócore” catapultou o conjunto em seu disco homônimo. Foi só sucesso. Constantemente apareciam no programa de Xuxa, Gugu, e congêneres. De fato, eram bastante originais.
A partir do segundo disco, “Lavô tá Novo”, os problemas começaram. Não é novidade que atritos acontecem em qualquer banda, e são motivos principais de suas dissoluções, portanto, com os Raimundos não foi diferente. Drogas e brigas se acumularam. Mas também um tanto de tragédias, como a morte do irmão de Digão num acidente de carro e a catástrofe de um show em Santos, onde oito jovens morreram devido a falhas estruturais, erros da organização, e superlotação. Souberam se recuperar e com o disco “Só no Forévis” alcançaram o auge. O documentário soube catalisar esses altos e baixos e os membros da banda mostraram que possuem memória afiada.
Vem então o quarto capítulo, dedicado a saída de Rodolfo, o que consistiu numa história mirabolante. O vocalista conta emocionado sua conversão ao cristianismo e é uma passagem intrigante e impressionante sobre os fatos narrados por ele. Após o conturbado desligamento, a banda se reinventou várias vezes e persiste até hoje. Lembro de um especial da MTV com eles, quando apenas Digão permanecia como membro original, viajando de van e discutindo com recepcionista de hotel sobre condições de hospedagem, o que sugere uma abrupta queda de conceito. Sumiram da mídia nesse período e até hoje muita gente acha que o grupo nem existe mais. Por sinal, foram eles que abriram o show do Guns N’ Roses na Fonte Nova.
Gostava dos Raimundos quando eles surgiram, o primeiro disco deles era muito bom, fui até em show na Concha Acústica. Porém, o tempo passou e fui me desconectando e quando Rodolfo saiu eu mal ouvia suas músicas. Vislumbrando as canções do grupo, nota-se que as letras eram sexistas pra caramba, algumas bem pesadas, como “MM’S” do primeiro CD:
Se você não entendeu olhe só como é que eu faço
Eu te levo para a moita sem fazer estardalhaço
Quando você menos espera eu arranco-lhe o cabaço
E se você olhar em volta só vai encontrar os pedaços
Parece a descrição de um estupro! No documentário fica claro que Rodolfo e Digão eram dois “filhinhos de papai”, da classe média brasiliense, que se juntavam a outros playboys “pra zoar”. As letras tinham essa pegada classista, de quem aproveita a vida e curte sem estar nem aí pra problemas futuros. Talvez isso tenha me feito desapegar da banda. Tinham músicas legais sim, como "I Saw You Saying(That You Say That You Saw)" e "Reggae do Manêro". Algumas outras eram chatas pra cacete, como “Selim” e "Pequena Raimunda". Outras viraram clássicos como "Mulher de Fases". Essa última, aliás, é até considerada por alguns jornalistas especializados que aparecem no documentário como “perfeita”, ao lado de “Eu Quero É Ver o Ôco”. Exagero ou não, é inegável que a banda tinha autenticidade, peso na medida certa, e são resilientes, tanto que existem até hoje. Um trecho de uma música do primeiro disco é categórico quanto a isso: “é por isso que o Raimundos nunca vai se acabar”.
O documentário expõe outras coisas, como o cenário dos anos 1990 - bastante permissivo para falar de qualquer coisa. Foi a década da banheira do Gugu, das danças pra lá de sensuais do É O Tchan, publicidade de cigarro em tudo que é canto, Cine Privé na Band, comerciais de telexexo, uma esbórnia. Uma época na qual podia se ouvir “Esporrei na Manivela” no rádio!
Entrei no trem, esporrei na manivela
Cobrador filha da puta me jogou pela janela
Caí de quatro com o caralho arregalado
E uma velha muito escrota me mandou pro delegado
O delegado tinha cara de viado e me mandou tomar no cu
Tomei no cu, mas tomei no cu errado
Quando eu menos percebi, era o cu do delegado
Outra abordagem interessante é questionar como mencionar em futuros documentários, com bandas que surgiram após o colapso da indústria fonográfica, uma discografia contundente? Ouvir música para as novas gerações me parece um exercício fragmentado, uma coleção de músicas sem uma contextualização, e lançamentos esporádicos e diluídos de novos trabalhos. Como criar uma trajetória pulsante, sem fazer com que polêmicas extras não polarizem a carreira de diversos artistas que despontaram nos últimos 15 anos? Só indagações que faço após estar aqui apresentando o percurso musical de um grande nome de uma gravadora imponente.
Recomendo demais a audiência do documentário, ainda mais que aparecem os áudios do baixista Canisso, que faleceu durante a realização do documentário. A viúva dele, Adriana, mostra ser personagem marcante para o itinerário do grupo. Pois bem, antes do lançamento da película, ela acusou Digão de interromper os repasses financeiros da banda a qual ela passou a ter direitos, após o falecimento do marido. Essa notícia fortalece ainda mais as inúmeras rusgas que aparecem no documentário, mostrando que amizade e negócio quando se encontram quase nunca terminam bem.

FONTE:
IMAGENS: Teoria Geek e Pipoca Moderna

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