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AQUI A VISTA É DE GRAÇA E NÃO PRECISA DE WI-FI


Legenda: de um lado o pântano, do outro o mar. Em algum lugar entre Sítio do Conde e Poças.

No início de janeiro de 2024 tive o privilégio de conhecer um pouco mais da beleza do Litoral Norte da Bahia, viajei com meu companheiro para o Conde, Sítio do Conde, Poças, Barra do Itariri, Siribinha e Cavalo Russo.  


Embora more em Salvador, não tenho tanto contato com a natureza e, diga-se de passagem, a capital baiana tem perdido cada dia mais sua característica de verde e azul, isso porque os restos de Mata Atlântica estão sendo substituídos por concreto, frutos ― podres ― de obras estaduais e municipais para a construção de BRT, de viadutos e grandes empreendimentos, a maioria privados ou arrendados a empresas privadas. Enquanto isso, a cidade só esquenta e a natureza morre.


Nessa viagem, apreciei a vegetação do mangue, tomei banhos em água salobra, entrei em contato com a Mata Atlântica ― sem cimento ― o mar e o rio. O que me trouxe uma espécie de paz quase que transcendental, cheguei a comentar: “parece que fui transportada para um outro mundo” e, realmente essa era a sensação depois de sair de um ano caótico de trabalho árduo e de massa quente, de ar e de gente, que se estabelece em Salvador.


Além do deleite físico e espiritual que a experiencia me proporcionou, também me fez refletir sobre a nossa relação com a natureza. Estava em locais paradisíacos e o que mais presenciei foram pessoas demasiadamente preocupadas com suas latinhas de cerveja e suas JBLs (caixas de som estrondosas), do que de fato com o ambiente em que estavam.  


Vi locais deslumbrantes, verdadeiras reservas naturais, sendo entulhados por garrafas pet e outros dejetos deixados por humanos, sem contar os viciados em selfies e em registrar momentos sem vivenciá-los, só em busca de likes na falsa realidade digital. Recentemente, Karla Fontoura escreveu sobre a temática aqui no Soteroprosa, na qual questiona a importância de viver o momento e não somente registrá-lo. Recomendo a leitura, pois as ideias dialogam com o que exponho nesse texto.


O contexto que presenciei nesses locais me fez refletir que, talvez, estejamos tão inseridos nesse modus operandi de homem máquina e selva de pedra, de consumismo e de rede social que nos esquecemos do que realmente importa. A Terra importa, a natureza importa, quantos verdes e marrons existem na mata? Quantos tons de azul estão no mar? Não sabemos mais apreciar a natureza, só queremos recalcar a realidade até esquecermos que estamos vivos. Queremos um decalque de real, enquanto fingimos estar um reality show. Selfies, selfies, selfies. Estamos enlouquecendo como sociedade?


Compartilho das palavras de Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista, filosofo, poeta e Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), em A vida não é útil:


Estamos viciados em modernidade. A maior parte das invenções é uma tentativa de nós, humanos, nos projetarmos em matéria para além de nossos corpos. Isso nos dá sensação de poder, de permanência, a ilusão de que vamos continuar existindo. A modernidade tem esses artifícios. A ideia da fotografia, por exemplo, que não é tão recente: projetar uma imagem para além daquele instante em que você está vivo é uma coisa fantástica. E assim ficamos presos em uma espécie de looping sem sentido. Isso é uma droga incrível, muito mais perigosa que as que o sistema proíbe por aí. Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da Terra. Com todas as evidências, as geleiras derretendo, os oceanos cheios de lixo, as listas de espécies em extinção aumentando, será que a única maneira de mostrar para os negacionistas que a Terra é um organismo vivo é esquartejá-la? Picá-la em pedaços e mostrar: ‘Olha, ela é viva’? É de uma estupidez absurda. (Krenak, 2020, p.17-18)

Pensando nas palavras de Krenak, não seriamos todos nós um pouco de negacionistas da Terra? Já que não cuidamos dela e estamos deixando-a morrer? Estamos perdendo o prazer de admirá-la.  Durante a viagem paramos em um local na estrada em que de um lado se encontrava um pântano e do outro o mar, registrado na foto de capa e em um reel, um pequeno vídeo, que está na página do Instagram do Soteroprosa.


Nessa viagem tive o prazer de apreciar vistas deslumbrantes, dessas que dariam uma fotografia mágica, e uma lembrança eterna da sensação de paz e gratidão, de finalmente estar em comunhão com a Terra. Um dos poucos registros que fiz foi esse da estrada, deu essa foto de capa. Mas o que questiono aqui é, será que se as pessoas vissem esse local em uma rede social não ficariam deslumbradas? Então, por que não fazem isso na realidade, fora das telas? Estamos tão adictos em tecnologia que esquecemos do que realmente importa para sobrevivermos: água, ar e comida de qualidade ― de preferência orgânica, sem agrotóxicos e sem corantes.


Infelizmente, a maioria das pessoas que estão em um lugar paradisíaco, seja Salvador, Conde, Rio de Janeiro, Caribe, ou qualquer outro que exale uma natureza absurdamente linda,  principalmente se for um local praiano, aparentemente só querem saber da futilidade e do entretenimento, do celular, do som e do álcool. Claro, praia é diversão e cada um curte a vida como bem entende, porém esse comportamento, seja ele cultural e/ou estrutural, possivelmente, é global e, com certeza, totalmente nocivo ao planeta e aos seres humanos como espécie. Porém a natureza se regenera, já a espécie humana provavelmente será extinta.


Não apreciar a terra, o mar, o vento, as árvores, as montanhas, as pedras, os animais, demostra mais um sintoma do quanto estamos desconectados com a nossa natureza animal e com o planeta. Agradeço aos povos originários, aos quilombolas e aqueles que percebem a Terra como um organismo vivo por nos relembrarmos da nossa ancestralidade e da necessidade de sobrevivência do humano pela preservação da natureza, sem ela, nada somos. Assim, se não tivermos comida e água, ou se só tivermos comida e água contaminadas, dinheiro será número em uma tela e ninguém comerá cédula. Morreremos sem apreciar a vista e pagando em dez vezes no cartão.

 

Referências:

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. 1 e.d.


Foto de capa: arquivo pessoal de Jacqueline Gama.

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