As redes sociais como divã? Procure ajuda de um profissional!


Aquele odor que você só solta quando está só, ou entre pessoas mais íntimas que, em geral, ou concordam com você ou são incapazes de recrimina-lo, não deveria ser exalado, metaforicamente falando, no espaço da rua, o que inclui a vida virtual. Certamente a combinação de um incômodo pessoal que tem impacto na sociabilidade é bastante perigoso se levado às esferas mais amplas. Mas, se é para expressar algo consigo, do subsolo mais fedorento, é melhor procurar uma terapia. As redes sociais não são um divã; pelo contrário, elas são a nova Ágora, goste-se ou não de quem as frequenta, goste-se ou não do que é permitido por lá.


As pessoas perderam a vergonha, o decoro, o bom senso. Se antes era vergonhoso, indecoroso ou asqueroso revelar ser homofóbico, racista, sexista, gordofóbico, e outras tantas formas de discriminação, hoje a internet se tornou a terra fértil para disseminar todo o ódio e ressentimento dos que se sentem aborrecidos com um mundo mais inclusivo e plural, num processo de radicalização da democracia liberal. Os párias morais sentem-se à vontade para destilar todo tipo de veneno, desejosos de fazer a roda girar para trás.


Suas opiniões, seu desprezo ao bom senso ou ao politicamente correto não devem ser pauta pública. Pois, se você acha que não vai receber desagravos ou desprezo geral, está muito enganado: a nova Ágora tem papel de polícia, acusador e juiz, e não perdoa ninguém. Você não pode errar, não pode falar o que pensa só porque o está incomodando. Aliás até pode, desde que seja aceitável pelo público e esteja em consonância com as regras do jogo.


Nem sempre a maioria é desprezível. No Brasil, pelo menos no campo dos costumes, percebo que o engajamento maior na internet é por pautas inclusivas - de conservadores à esquerda moderada, e isso é bom. Mas há também uma banda podre reacionária, extremista, desumana e em desacordo com a construção de pontes; preferem novos muros, mesmo que estejam em dissonância com as leis.


Quando falamos de inclusão, precisamos entender contextos socio-históricos. Não entender isso pode ser mais do que uma mera questão de ignorância - o que, infelizmente, ainda é bastante comum - mas, sim, um sinal de instabilidade psíquico-emocional, algo mal resolvido, sintoma de um corpo doente, psicanaliticamente falando. Um corpo que nega as novas configurações da realidade. Por exemplo, propagar por aí que deve haver dia da consciência branca ou dia do orgulho hetero, não entendendo quem é oprimido e alijado de direitos historicamente, pode ser um alerta de que o corpo precisa ser chacoalhado de verdade.


“Ah, Rangel, as pessoas não podem errar de vez em quando ou expressar o que sentem?” Poder podem, mas o problema é que não se deve tolerar o que você chama de erro ou sentimento espontâneo, como se fossem um mal menor, sem sofrer algum tipo de coerção. Por isso, a pessoa que fala o que vem à cabeça pode sofrer a severa punição moral e legal. Não se pode aceitar uma sociedade sem ordem, sem algum pacto civilizatório, pois é isso que proporciona uma base para a liberdade. Sem ordem, meus caros e caras, reina o império da subjetividade, o mesmo que a estupidez humana.


Ao meu ver, não há mais espaço a essa linguagem de discriminação, ódio, mentiras, distorção da realidade, negacionismos, ataque aos valores democráticos. Precisamos de uma régua na esfera pública, porque senão prevalece a terra do vale tudo em nome da liberdade de expressão, vulgarmente utilizada.