top of page

BEIJA-FLOR: uma crônica




* Por Polly Moraes


Você me ligou. Estava tomando açaí sozinha enquanto pensava em possibilidades para reformar meu vestido amarelo que vou usar na festa de halloween. No momento exato, ouvia Moonlight, de Grace VanderWaal. Pode parecer pura coincidência, mas eu te apresentei essa cantora mirim em meados de 2020 e você não parava de escutar ela. Eu cheguei a enjoar, mas você não. Quando sua ligação de voz apareceu, meu cérebro congelou. Claro que a influência foi da colher cheia de açaí que eu havia acabado de colocar na boca. Antes que eu pudesse atender, você desligou. Fiquei pensando se você havia desistido.


Acontece que uns dois dias atrás eu havia mandado mensagem dizendo que precisava de você. Mesmo com todas as suas visualizações sem resposta. Claro que eu não sabia se você tinha visualizado ou não, afinal, eu desativei esse gatilho virtual a muito tempo. Mas no fundo eu tinha uma leve sensação de que você não queria me responder. Mas aquela mensagem, Jota A, de que eu estava precisando de você… talvez tenha te tocado, não é? Eu sou orgulhosa. Jamais admitirei que estou precisando de alguém. Tenho dificuldade de pedir ajuda diretamente, tenho medo de receber uma negação de algo que eu realmente acho necessário.


Você me ligou novamente, menos de um minuto depois. Dessa vez, era chamada de vídeo. Você queria me ver, ou queria mostrar a si. Queria mostrar que não estava em casa, Jota A? Que está ocupada demais para falar comigo ou perguntar como eu estou? Mantive a seriedade ao te ver. Não senti vontade de sorrir. Meu coração apertou. Você falou que seu celular estava quebrado, que não conseguia ouvir áudios sem fone, que estava muito corrida e não conseguia parar para nada. Falou que ainda está magoada. Eu perguntei por que você não está falando comigo. “Mas você está bem, não está?”, você perguntou. Estou. Foi automático. Não poderia verbalizar todos os meus sentimentos dos últimos dias naquele momento. Você não poderia ter me ligado num momento mais oportuno?


Temo que você tenha me ligado quando não estivesse perto de ninguém. Com o objetivo de não demonstrar fraqueza. Jota A, o que é ser fraca para você? Estar longe de quem se ama e sorrir forçadamente para todos que lhe fazem uma piada? Ter pesadelos e acordar assustada e perceber que não pode pedir ajuda? Jota A, tem coisas que só você poderia entender, mas eu não tenho mais a mesma abertura para te contar. Fiquei te olhando enquanto o silêncio tomou conta de nossa chamada. “Você não tem nada para me dizer?”, você perguntou. Ah, eu tenho muito a te dizer. Mas será que você está disposta a ouvir?


“Se é isso, eu vou desligar. Tenho que fazer algumas coisas aqui, tô na correria”. Concordei. O que mais eu podia fazer? Esperei essa ligação pelos últimos dois meses e agora preferia não a ter recebido. Criei expectativas de que você diria que me ama, que você falaria que está com saudade. Levei em consideração o fato de que talvez, só talvez, Jota A, fosse sua vez de demonstrar algo por mim. Nos últimos dias eu tenho tentado. Tentado fazer o jogo do contente. Olhar em volta e reparar nas pequenas coisas. Você sabia que um besouro consegue planar? Sim, ficar parado no ar por alguns segundos antes de voltar a se locomover. Como beija-flores. Eu não consigo entender como um besouro consegue ter a mesma técnica de voo que um beija-flor. Será que o coração dos besouros também bate não sei quantas vezes por segundo?


Fico me perguntando se o seu coração bateu como o de um beija-flor. Se em algum momento você teria capacidade de planar no ar ao pensar em mim, Jota A. Que nosso amor uma pela outra pudesse encher nossa alma de alegria a ponto de não sentirmos nossos pés no chão. Eu me culpo por não conseguir falar com você como gostaria de ter falado. Me culpo por não ter tido a capacidade de verbalizar tudo que estou escrevendo agora. Hoje eu não estou bem. Na verdade, eu não sei o que é estar bem desde quinta-feira passada.


Você perguntou se eu estava tomando meu remédio. Eu disse que sim. Mas o que é uma dose diária de serotonina se eu preciso me esforçar para ver clareza na vida? E é tão cansativo, Jota A, ter que me esforçar o tempo inteiro para não chorar. Se eu paro para raciocinar sobre assuntos que não são aleatórios, eu me afundo em pensamentos conturbados, cheios de curvas e ladeiras íngremes. É cansativo desviar dos caminhos mais difíceis, quando na verdade eu preciso enfrentá-los, apesar de não estar pronta para tal.


Quando você desligou, ainda havia açaí no copo exagerado de 500ml. Pus os óculos escuros, mesmo estando na sombra, pois senti o fundo dos meus tímpanos coçarem. Você sabia que sempre que eu chorar e não controlar as lágrimas, meus ouvidos me incomodam? Já reparei essa característica mais de uma vez e quase sempre ela me alerta do perigo. Você já tomou açaí chorando, Jota A? Parece que fica mais gelado, pois seu rosto esquenta, as lágrimas escorrem, seu nariz entope e lhe falta ar. Não queira presenciar essa sensação.


Apesar da crise depressiva dessa semana, houve acontecimentos muito importantes. Eu fiz uma apresentação sobre meu primeiro romance publicado. Não havia muita plateia, não era meu público-alvo. Durante o dia, eu decidi parar de tentar observar os detalhes para evitar lágrimas e tristeza. Não foi uma boa ideia, diga-se de passagem. Eu comecei a chorar e não consegui parar. Percebi que eu deveria voltar a tentar. Voltar a tentar por mim, sabe, Jota A? Eu respirei fundo, sequei as lágrimas e voltei a tentar. E eu ainda estou tentando. Estou tentando a todo instante. Não posso dar espaço para ser engolida por essa sensação que ainda é menor que eu.


Eu não quero dar detalhes maiores, mas meu pai era o único da plateia. Ele estava sentado entre cadeiras vazias, usando uma camisa amarela de algodão. Quando eu o vi, eu sorri. Jota A, eu não ligo para público, ele estava lá. Ele sente orgulho de mim. Ele estava lá. Isso foi mais que o suficiente para eu saber que estou fazendo algo bom.


Com amor, Polly.

________________________________________________________________________________


*Polly Morares é Jornalista, comunicóloga e escritora. Instagram: @apollypur




82 visualizações4 comentários

4 commenti

Valutazione 0 stelle su 5.
Non ci sono ancora valutazioni

Aggiungi una valutazione
Valutazione 5 stelle su 5.

😍😍

Mi piace

João Maciel
João Maciel
03 ago 2023
Valutazione 5 stelle su 5.

Esse texto me lembra relacionamento com meu pai...

Perfeito!

Mi piace

stefannysts
stefannysts
03 ago 2023

Perfeito!

Mi piace

Priscilla Sobral
Priscilla Sobral
02 ago 2023
Valutazione 5 stelle su 5.

Gostei bastante do conto. Fiquei querendo mais. Como tbm sofro de depressão foi legal ouvir os pensamentos da personagem. Parabéns.

Mi piace
bottom of page