COMO UNIR UM PAÍS DE ANJOS E DEMÔNIOS?




AVISO

Se você acredita que o eleitor de Bolsonaro é o estereótipo do seu feed de notícias (branco, fascista e classe média) ou se você acredita que o eleitor de Lula é o estereótipo do seu feed de notícias (comunista, depravado e ateu), por favor não leia esse ensaio. Os argumentos aqui levantados podem trazer náuseas, dores de cabeça e tontura. Seu corpo e seus algoritmos do Twitter, Facebook e Instagram estão em risco. O autor desse ensaio não se responsabiliza pelos danos existenciais que possam ocorrer.



Essa eleição pegou fogo, não foi? Rezas, gritos, choros e xingamentos aqueceram o sangue de cada um nesse imenso país, numa batalha de proporções épicas, como é evidente na cobertura internacional que recebeu ao longo do ano. Não sei se você notou, mas os olhos do mundo pairavam sobre você... sobre nós, brasileiros. As apostas eram altas, os custos também. Apesar do caráter inédito dessas eleições, algo se manteve, um tipo de padrão curioso, ou melhor, perigoso. O objetivo desse ensaio é rastrear esse tipo de continuidade, embora reconhecendo ao mesmo tempo o lado inédito do cenário político contemporâneo, com sua nova direita nos bastidores. Como já deve ter ficado claro, essas linhas são apenas um pequeno aperitivo, sem dúvida muito picante, ou até um pouco amargo, como é de se esperar de um Cientista Social. Por isso, convido você a uma rápida degustação.


Quando olhamos lá no passado, desde a década de 80 com sua ressaca pós-ditadura, existe um tipo de ritmo previsível, uma mesma matriz de linguagem insistente, além de muito perigosa. Parece que caminhamos mais uma vez na esteira de um completo empobrecimento da esfera pública. Nessa disputa eleitoral de 2022, tudo se resumiu a simples acusações morais, incluindo aqui todos os candidatos do primeiro turno. Frases como: “seu monstro”, “seu capeta”, “seu ladrão”, “seu mentiroso”, “satanista”, “canibal”, “genocida”, “comunista”, “gado”, fizeram parte do palco eleitoreiro. Seguindo uma metáfora cinematográfica, eu confesso a você que esperava algo mais, algo como “A Casa do Dragão” (HBO), com um cenário anti-heróico, complexo e cheios de níveis e surpresas. Infelizmente, o que eu consegui foi “Os Anéis do Poder” (Prime Video), uma retórica dualista, temperada numa batalha clássica entre forças do bem contra forças do mal. Assuntos muito complexos como “fome”, “segurança pública” e “educação” foram todos moralizados, o que significa reduzidos ao extremo da caricatura, como se espera do jogo populista. Políticos recebiam críticas não pela ineficiência, ou pela irresponsabilidade, mas porque “não gostavam do povo”, “mentiam para o povo”, “não tinham coração” ou “eram malvados”. Retomando mais uma vez a metáfora cinematográfica, ao invés de “jogos dos tronos”, no sentido de um campo complexo e até incerto de negociações e lutas, nos venderam a imagem de que o problema era “Sauron”, uma criatura das trevas, sádica e má, assim como seus “orcs”, criaturas sombrias, estúpidas e cruéis.


Segundo Lula, antes de 2022 tudo era diferente, os debates eram mais civilizados, criativos e maduros, quase como se o sonho do sujeito liberal fosse verdade: indivíduos racionais, todos eles argumentando de um jeito bem comportado, tudo isso em um campo contido e enriquecedor de experiências. Mas será mesmo? No Brasil, por exemplo, as coisas nunca foram tão coloridas assim. Quando voltamos os olhos ao passado, seguindo o próprio Lula em sua jornada ruma à presidência, principalmente em seus duelos na década de 80 e 90 com Collor e Fernando Henrique Cardoso, temos o mesmo cenário de acusações morais: “você não gosta do povo”, “não gosta de pobre”, “você mente”, “está sendo manipulado pelas elites”, etc. Sem dúvida, hoje as coisas são mais extremas, por conta da chegada da nova direita, e os perigos que traz como consequência, mas a matriz da nossa esfera pública nunca mudou, nem por um breve instante. Michael Sandel, na década 90, já alertava sobre o esvaziamento dessa esfera, transformada no que chamou de “ideological food fight”, uma batalha rasa, agressiva, repleta de argumentos ad hominem, onde a única meta é aniquilar completamente o outro, o MAL. A longo prazo, segundo ele, isso cria apenas um cenário atrativo aos extremos, um campo nem um pouco saudável. Diante da eleição entre Trump e Biden em 2020, muito parecido com essa de agora entre Bolsonaro e Lula, inclusive com a mesma carga inédita de entusiasmo entre as partes, Sandel lamentou o nível do debate, percebendo a ausência de alguma coisa, de algum detalhe.


Claro que diante dos argumentos levantados até aqui, você poderia contra-argumentar: “Mas Thiago... essa eleição foi diferente, porque tivemos, de verdade, alguém mal”. Pois é, vamos a um exemplo rápido... Partindo do princípio que Bolsonaro é maligno, e não apenas perigosamente irresponsável, ressentido e despreparado (categoria distinta - pragmática), vamos à seguinte pergunta: “se eu tirasse Bolsonaro do primeiro turno, e mantivesse apenas os outros candidatos, o cenário mudaria? E a resposta é: “Não!!!!”. Por algum motivo, todas as outras opções (com exceção da minha, claro!!!) também eram moralmente suspeitas (Tebet odeia indígena e trabalha com os malvados do agro negócio contra os pobres, Ciro é um mentiroso, egoísta e cínico, etc, etc). No debate presidencial do primeiro turno, o que percebemos? Todos xingando todos, todos dizendo que todos mentem, além de milhares de argumentos ad hominem. Observem o quanto esse cenário não é um detalhe pontual, de agora, mas uma estrutura de linguagem sempre atuante nas democracias liberais, não apenas brasileira. Nas disputas do governo da Bahia, por exemplo, o ritmo foi o mesmo: as acusações morais eram sempre as protagonistas. E vou até mais longe... ao longo dos anos, eleições de centros acadêmicos, sindicatos e prefeituras seguiram a mesma fórmula.


Mas o que tudo isso significa? Por que o critério moral não apenas existe na política, mas se tornou sua condição inevitável de possibilidade? Seria ela a nossa única arma retórica? Por que essa estrutura de linguagem parece inevitável, uma constante em todas as democracias liberais do globo? Você já assistiu as confusões na casa dos comuns na Inglaterra, a sua completa bagunça, inclusive recentemente com a rápida saída de Lisa Truss? Segundo o sociólogo Bruno Latour, as regras de jogo foram misturadas; parece que a matriz religiosa invadiu o campo político sem qualquer permissão, sendo o populismo um efeito disso tudo, o que ele chama de “erro categórico”. A linguagem populista moraliza cada centímetro do mundo, quase como um mecanismo de defesa diante de circunstâncias complexas e angustiantes. Metaforicamente falando, isso significa que ninguém deseja assistir “A Casa do Dragão” pelo custo existencial em jogo, preferindo algo mais confortável, previsível e simplificado. Vilões e heróis são mais “digeríveis” do que “anti-heróis”, como o próprio Dostoiévski, criador do termo, imaginou em seu livro “memórias do subsolo”.


Embora Lula tenha vencido, embora eu tenha ficado feliz e até esperançoso com a vitória do meu candidato, fico também pensando comigo mesmo se algo não foi perdido no caminho, se não enfraquecemos mais ainda uma esfera pública já muito fragmentada. As eleições de 2022, na minha opinião, mostram com uma evidência assustadora o declínio das democracias liberais, o quanto a política se empobreceu, um traço rastreável desde a década 90.


É preciso lembrar ao leitor dessas páginas algo muito importante: esse não é um texto acusatório, muito menos pessimista. Eu acredito 100% no potencial de Lula, e na sua capacidade enquanto político. Ao longo dos dois mandatos, é impossível negar o seu papel na política brasileira e até mesmo mundial. Mas, como um cientista estudioso do comportamento humano, muito além de um simples tiozinho das redes sociais, preciso fazer algumas perguntas meio constrangedoras. Por isso, peço desculpas caso os seguintes questionamentos tragam algum traço de dissonância cognitiva: “a forma como lutamos, e as ferramentas de combate usadas no processo, foram as melhores? Você se orgulha de todos os seus comentários, palavrões, compartilhamentos, likes e queixas ao longo desses quatro anos? Existe algo que você, talvez, mudaria, algum detalhe exagerado? Enfim, você se arrepende de alguma coisa?" Sem dúvida, diante dessas minhas perguntas irritantes você pode dizer: “Mas Thiago, não importa as armas de combate ou as estratégias retóricas em jogo, porque nós vencemos e esse é o ponto principal. O fim justifica os meios”. Lamento, mas discordo. Ainda que Lula tenha vencido, ainda que ele transforme a vida de todos os brasileiros (e não tenho dúvida disso), sua clássica estratégia populista apenas intensifica uma democracia liberal já desgastada, tornando a política, mais uma vez, apenas um espaço raso de acusações morais, conspirações, e de um empobrecimento completo do debate público.


Como disse antes, ainda que Lula afirme o quanto no passado os debates eram mais “democráticos”, nunca foi tão simples assim. O "ideological food fight" é uma tendência não só do Brasil, não só dos EUA, mas de todas as democracias liberais do planeta ao longo das décadas. Algo não está bem, estruturalmente falando. De qualquer forma, fica aqui a pergunta: “Vencemos, ótimo, mas a que custo?”. Se você acredita que os fins justificam os meios, e o importante é Lula melhorar as condições do país, tudo bem, eu entendo. Mas eu acredito que nossas ferramentas de combate, na sua maioria, foram lamentáveis, precárias, problemáticas, e provavelmente vão deixar marcas profundas em nossa esfera pública. Talvez eu seja idealista demais, talvez eu esteja esperando muito dos outros, ou até de mim mesmo. Talvez seja assim que as coisas são e é um fato inescapável. Talvez eu precise apenas acolher o momento, agradecendo o resultado positivo do meu candidato... Mas, como diria Michael Sandel, não custa sonhar com um mundo onde o debate público seja melhor, mais rico, mais complexo, mais criativo e, principalmente, mais saudável. Um cenário onde o critério seja pragmático, dentro de debates complexos e imprevisíveis, repleto de negociações e dores de cabeça, ao invés de uma batalha religiosa contra as forças do mal.


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