Cringe eu, cringe ela, cringe você

Provavelmente você deve ter topado por todas as redes sociais com o termo Cringe essa semana.


Confesso que quando vi os memes nunca tinha ouvido falar de tal vocábulo (mais um motivo para ser Cringe – segundo os entendidos).


A palavra de origem inglesa seria uma gíria utilizada pela Geração Z (nascida entre o final dos anos 90 e 2010) para se referir às pessoas que passam por situações desconfortáveis e constrangedoras. Ela denomina algo vergonhoso, cafona - a famosa “vergonha alheia".


Inclusive há um gênero da comédia chamado de "Cringe Comedy". Um tipo de humor que provoca desconforto e vergonha no espectador. Alguns exemplos dessas produções que usam e abusam do cringe para fazer as pessoa darem boas risadas são "The Office", "Parks and Recreation", "Fleabag". E gente, eu não sei de vocês, mas eu adoro esse tipo de seriado!


Enfim, eu realmente me diverti com os memes e me identifiquei. Mais uma das várias trends pra nos trazer uma certa leveza, em tempos tão angustiantes como o que vivemos.


Porém, posteriormente, comecei a me perguntar o porquê de nós (e quando digo Nós me refiro a todo mundo mesmo) termos essa necessidade de construir rótulos, categorizar tudo, até a si mesmas.


Se identificar com tribos , comunidade, grupos, castas, guetos, enfim, como quer você prefira, não é algo novo. Isso existe desde que o mundo é mundo. Mas a questão é quando a categoria passa de identificação para identidade.


Essa semana fiz uma enquete simples em minha página profissional no Instagram sobre categorizar comportamento dessa forma e a maioria das minhas seguidoras escolheu a alternativa “É muito rótulo, gente!”. Sei que é uma amostra pequena, mas traduz algo que provavelmente uma parte de vocês esteja sentindo com esse assunto.


Se rotular ou rotular outras pessoas é um comportamento que pode se tornar constante e perigoso. Perigoso no sentido de saúde mental mesmo, para além da questões sociais, nas quais nem entrarei no mérito nesse texto.


Quando você rotula a si mesma ou a outrem, pode estabelecer que aquela característica faz parte do seu eu e, portanto, seria imutável. “Sou preguiçosa”, “Sou grossa", “Sou fraca", “Sou ansiosa", "Sou cringe", etc.


Na verdade as coisas são bem mais fluídas dentro de nós, mas não percebemos. A maioria das vezes vamos estar de algum jeito ou sentindo algo, teremos alguma atitude, mas isso não necessariamente vai definir que somos aquilo.


Por exemplo, você pode estar ansiosa ou sofrer de ansiedade, e todavia, não ser ansiosa.


Fiquei aqui pensando com meus botões sobre esse significado de Cringe. Percebo que a questão do “mico", uma vergonhazinha da geração anterior, seus gostos, linguagem e comportamentos sempre existiu, e associar isso ao que "não é mais jovem" seria uma das consequências.


Com certeza em algum momento da minha adolescência eu senti isso em relação às pessoas que não eram da mesma idade que eu, em certas situações. Isto porque não era com o que eu me identificava na época, apesar de gostar de várias coisas antigas, como Beatles.


Quando se está nessa fase, o grupo é algo de extrema importância e criamos ou nos adequamos a um modos operandi deste.


Acredito que com o domínio tão forte das redes sociais isso fique mais intenso ainda. O adolescente tem uma certa tendência a rejeitar o que não lhe é familiar, ou familiar ao seu grupo. E atualmente a adolescência se estende para muito além dos 18 anos (a chamada adultescência), mas isso pode ser uma pauta de outro artigo.


O ponto é que ser jovem é algo bem relativo, não acha? O que vai definir que alguém é jovem? Posso ter 13 anos e possuir um padrão de pensar extremamente inflexível. Ao passo que existem pessoas que passaram dos 60 e carregam formas de viver e de pensar muito leves e maleáveis (conheço vários exemplos).


Então porque alguém não será mais jovem ou passará por uma “vergonha alheia” por escutar rock, Sandy & Junior, ser fã de Friends, gostar de café, falar "boleto" ou usar emoji do “chorinho" em suas mensagens de texto?


Certas coisas são atemporais! E não degustar ou se abrir pra isso é se trancar numa caixa, rotular, limitar suas experiências de vida.


E essas certas coisas são tão afetivas!

Me peguei ativando tantas memórias gostosas com esses posts da semana, sabe?


Após essa reflexão, percebi que gosto muito de ser dessa geração - classificada como Millennial - e ter memórias únicas, assim como a Gen Z e outras tantas que virão terão as suas e, um belo dia, também certamente serão classificadas como vergonhosas ou old fashion. Um dia todo mundo vai estar cringe, e tudo bem!


A vida é feita de ciclos, o mundo e a história também, e cabe a nós aproveitar o melhor deles, e estar feliz da forma que somos. Um brinde ao Cringe, e que venham as próximas categorias, com às quais podemos nos identificar, mas nas quais não precisamos nos encaixotar.


Imagem:

https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/the-office-steve-carell-acha-que-um-retorno-da-serie-nao-seria-bem-aceito/


Fonte:

https://querobolsa.com.br/revista/o-que-e-cringe

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