Curatela é afeto. Afete-se!



Em uma casa distante da cidade, residia uma senhora de ancas avantajadas, sorriso largo e coração puro chamada Leopoldina ou Dona Dina para os vizinhos.


Dona Dina morava sozinha e era ajudada na realização das tarefas domésticas por uma cozinheira e uma diarista, as quais também lhe faziam companhia, o que diminuía a sua solidão.


A nossa personagem foi uma criança taxada como estranha, pois conversava com as paredes, dizia que via sombras nos armários e que alguém a perseguia. Os seus pais, então, a levaram para alguns líderes religiosos e médicos quando descobriram que Dininha tinha Esquizofrenia Paranóide. Eles se desesperaram, lutaram contra, não queriam aceitar, até que resolveram se conformar e cuidar da filha.


Os anos passaram... Dininha se tornou a nossa querida Dona Dina, uma senhora gentil, boazinha e meio bobinha, que morava na Rua da Alegria.


E era assim que Dona Dina era vista.


Porém, meus girassóis, na realidade Dona Dina era uma coitada que recebia três pensões dos seus pais, mas usufruía de quase nada. Os seus filhos administravam o dinheiro e achavam que tinham direito a uma espécie de remuneração por isso, então davam uma vida “meia-boca” para a mãe e gastavam o restante com farras e mulheres.

Dona Dina precisava de ajuda e precisava rápido!"


Ela precisava ser curatelada, precisava de uma alma amiga que enxergasse o tamanho da sua vulnerabilidade e denunciasse o absurdo no qual ela estava inserida.


Dona Dina, meus girassóis, não era boazinha e feliz. Ela era frágil mentalmente e nós não podemos romantizar as vulnerabilidades alheias. Você conhece alguma Dona Dina? Essa que vos estou narrando é minha cliente (lógico, portanto, que o nome é fictício). A minha Dona Dina estava em uma grande enrascada, por causa da ausência de sensibilidade dos que em tese deveria cuidá-la com amor (sentimento tão em desuso hoje).


Vocês sabem como a situação da minha Dona Dina chegou aos meus ouvidos?


A sobrinha dela entrou em contato comigo para informar que a nossa Dona Dina era proprietária de uma casa – herança do marido -, que estava alugada, contudo o inquilino não pagava há quase 10 anos, ou seja, quase uma usucapião. Prestei-lhe a consultoria informando que o caminho jurídico seria o despejo, mas que imobiliário não era a minha área de atuação, portanto lhe indicaria um profissional da minha confiança.


Conversa vai, conversa vem e a sobrinha de Dona Dina comenta sobre o seu estado mental (até então desconhecido por mim) e me diz que ela não era curatelada.


Bom... Informei, portanto, que entraria com a ação de curatela previamente ao despejo, pois se tratava de um assunto dentro da minha área de atuação e que deveria ser resolvido antes por questões processuais.


Quando entrei em contato com um dos filhos de nossa Dona Dina, ouvi dele que ele não tinha interesse em ingressar com a curatela, pois não quer prestar contas dos bens da mãe, afirmando que “essa casa vai sair muito caro, Doutora”.


“ESSA CASA VAI ME SAIR MUITO CARO, DOUTORA!”


Entrei em contato com a sobrinha da minha Dona Dina e ela me informou que não tinha conhecimento acerca da situação, mas que o seu pai (irmão de Dona Dina) aceitaria ser o seu curador.


Estou ingressando, meus girassóis, no meu quarto ano exercendo a advocacia e vos digo que o pior bandido é o que vive dentro da família, porque a sua maldade é invisível para os outros membros ou estes preferem não se envolver, o que mata a vítima de alguma forma.


Será que a sobrinha da nossa querida Dona Dina não desconfiava de nada mesmo? Ou o seu pai? Sabendo dos primos e sobrinhos que tinham, que não trabalhavam nem estudavam...Será?


Usei estas linhas para escrever um verdadeiro desabafo!


Quantas Dona Dina você conhece? Quantas?

Não se cale.

Não romantize a dor do Outro.

Não é fofura.

É doença. É esquecimento.

É uma vítima da própria família.


Curatela é questão de dignidade para essas pessoas, afinal elas precisam de alguém para possibilitar o exercício mínimo de autonomia, né?


Um beijo, meus girassóis!


Link da imagem: http://imagens.usp.br/?attachment_id=23570

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