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DEPRESSÃO DE NATAL: VALEU NATALINA




Se o final de ano fosse uma pessoa com certeza seria um anjo disfarçado de demônio. Aquela pessoa bem tóxica e manipuladora que fala mal do seu corpo e depois te beija dizendo que você cheira muito bem. 


Essa é uma época bem polarizada, existem aquelas pessoas que amam e aguardam ansiosamente pelo dia de comprar o traje que vão usar; e aquelas que quando dezembro chega o inferno astral se inicia. 


SEMPRE FIZ PARTE DO SEGUNDO GRUPO ou até mesmo o campo neutro dos que não se importam e também não odeiam, afinal, é apenas um dia como outro qualquer, quem atribui significado somos nós. 


Entretanto, é difícil pensar por essa perspectiva uma vez que [quase] todos ao nosso redor estão investindo energia e dinheiro para viver o melhor dos dias. Quase que como uma necessidade de estar bem nos 48 do segundo tempo de um jogo que foi péssimo. 


E sim, essa é uma afirmativa e não uma hipótese. Sobretudo pelo fato de nitidamente conseguir visualizar que não há uma alma sequer que esteja totalmente bem durante esses tempos. As intensas discussões sobre saúde mental dos adolescentes, dos trabalhadores, das cuidadoras e dos idosos estão aí para comprovar esse ponto, mas, apesar disso, eu sei que você conhece alguém que não passa nada bem nesse fim de ano (ou até mesmo você). 


Particularmente, não consigo compreender totalmente por qual motivo eu deveria passear horas em locais lotados e com preços exorbitantes, procurando presentes para pessoas que eu amo, especificamente no natal, se eu posso fazer isso em qualquer outro momento. 


Parece que esse efeito manada, muito bem administrado pelo consumismo, na realidade não gera tanta satisfação assim. Considerando que, o estresse financeiro e a obrigatoriedade de conviver com parentes e colegas que odiamos durante todo o resto do ano, afeta nossa saúde mental e não deveria valer o esforço. 


No meio de tanto, ainda existe o fato de que a ideologia do fim é meio assustadora. A gente começa a correr para conseguir dar conta de todas as demandas; faz hora extra pra deixar tudo encaminhado no trabalho antes de tirar férias; sofre com as avaliações de fim de ano/semestre; retorna para o ritual das metas e se dá conta de que queria ter feito mais do que realmente fez (sendo que na maioria das vezes nem tínhamos condições para mais do que o suficiente).  


Toda essa grande pressão está somada com as expectativas que temos referente ao futuro e sobre o que vamos fazer, onde vamos estar e o que vamos conquistar no ano que se achega. 


E o papel das mídias é exatamente vender uma imagem de festividade e felicidade intrínseca a essa época do ano, como se estar em família fosse obra do divino e não desejar isso pode levar à exclusão social naquela micro-sociedade-familiar. 


Por que então ceder a determinados rituais massacrantes? Justamente pelo medo da rejeição e solidão em um período hipocritamente harmonioso e feliz. 

No final do dia (e do ano) estamos lá, fodidos como durante o ano inteiro, sem um puto no bolso (já que gastamos tudo com presentes e decorações), cheios de ramo na cabeça e açúcar no sangue, tendo que lidar com a culpa do exagero e/ou a solidão dos excluídos[1]. Realmente, quanta felicidade. 


Mas, uma coisa é importante de ser admitida, o bom quando o natal passa é que se aproxima a melhor época do ano: o glorioso carnaval.  

Valeu natalina. 


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Nota: 

[1] Os serviços de saúde mental continuam disponíveis durante as festividades. Se você se sentir mal ou vulnerável, converse com alguém da sua confiança e, se necessário, não sinta vergonha de procurar um profissional de saúde mental. O Centro de Valorização da Vida (CVV) funciona 24 horas por telefone (basta discar 188) e no seguinte horário por chat: Dom – 17h à 01h, Seg a Qui – 09h à 01h, Sex – 15h às 23h, Sáb – 16h à 01h. (https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/depressao-de-fim-de-ano-e-normal-ficar-triste-durante-as-festas/)

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