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DESBRAVANDO A ACADEMIA: A FORÇA TRANSFORMADORA DAS COMUNIDADES CIENTÍFICAS





Conforme mergulhamos em relatos pessoais, conseguimos apreender as vivências daqueles que estão ingressando no mundo acadêmico, percebendo as adversidades e triunfos que caracterizam a vida de tais pesquisadores. Nesta jornada individual, concentramo-nos no presente, ao mesmo tempo em que traçamos planos para o futuro, desenvolvendo estratégias para lidar com os desafios recorrentes no âmbito acadêmico, seja na pesquisa ou no ensino. Com isso em mente, decidi compartilhar um pouco da minha experiência direta como mestrando na academia.


Navegando por essa viagem, um clamor ressoa alto entre os corredores acadêmicos: a luta contra o abandono. Pesquisadores/as, mestrandos/as, doutorandos/as, todos/as relatam uma necessidade comum de orientação mais constante e direta. Eles/as revelam a dor da solidão, uma dor que pesa sobre a saúde mental e impede o progresso do projeto de pesquisa desde sua concepção até a etapa final de defesa e depósito. Esse sentimento permeia todos os níveis, desde a graduação até os graus mais altos de aprendizado e pesquisa.


Em meio a este panorama, surge uma proposta. Uma alternativa que emerge das profundezas do meu compromisso com as ciências sociais e das experiências que estou colecionando ao longo da minha jornada acadêmica. Uma alternativa que celebra a sociabilidade, não apenas como um meio de escapar da solidão, mas também como uma maneira de enriquecer nossa percepção da realidade e estimular a construção do conhecimento. Aqui, falo do prazer e dos benefícios de realizar pesquisas no âmago de comunidades científicas efervescentes, que são vibrantes, engajadas e dispostas a compartilhar ideias e conhecimentos.


Sou testemunha desse fenômeno. Como graduando, participei de um projeto PIBIC sob a orientação de um professor/pesquisador na área da ciência política. Embora este projeto tenha oferecido algumas oportunidades para interações, a experiência no mestrado elevou esta interação a um novo patamar. Fui levado a um ambiente onde pude ver a importância da pesquisa coletiva, percebi que não estava mais sozinho, mas sim parte de uma comunidade científica viva.


No entanto, a jornada não é livre de obstáculos. Mesmo em meio à efervescência da comunidade científica, percebi as limitações impostas pela realidade prática. Professores/as são também pesquisadore/as, sobrecarregados/as pelas demandas de ensino e pesquisa. Isso frequentemente resulta em atenção diluída e prioridades divergentes, um fenômeno que experimentei pessoalmente.


Quando entrei no mestrado, apresentei um projeto inovador que tinha pouco precedente no Brasil. Ainda assim, percebi que meu orientador tinha outras prioridades. Mesmo que ele estivesse disposto a apoiar minha pesquisa, percebi que ele estava mais concentrado em outras áreas que estavam mais alinhadas com seus próprios interesses de pesquisa, o que é totalmente compreensível.


Essa experiência me fez refletir sobre as divisões sutis na academia, entre pesquisas que estavam alinhadas com as linhas de pesquisa existentes e as chamadas pesquisas "avulsas", aquelas que, embora interessantes, não estavam diretamente alinhadas com as prioridades do/a orientador/a. Confrontado com essa dualidade, decidi que buscar o apoio de uma comunidade científica é o caminho que quero seguir.


Reconhecendo a necessidade de alinhamento com a pesquisa de orientação e com a comunidade acadêmica em geral, reflito sobre a importância de ser parte de uma comunidade científica vibrante e ativa. Nesta busca, acredito firmemente que a pesquisa acadêmica não deve ser uma jornada solitária, mas um processo compartilhado que é melhor realizado em uma comunidade, ou que, pelo menos o processo pode ser menos doloroso se for realizado assim.


Então, aquelas pessoas envolvidas em pesquisas avulsas enfrentavam dificuldades para escrever e discutir seus trabalhos. Notei um certo descontentamento entre elas, que se sentiam isoladas por motivos compreensíveis. E embora não seja o foco deste texto, é importante destacar que há problemas estruturais que contribuem para essa situação, como a falta de recursos. Não estou, de modo algum, sugerindo que essas pesquisas sejam menos importantes; estou apenas compartilhando minha experiência e observações.


Em contraste, havia outro grupo de pesquisadores/as cujos projetos estavam alinhados com a pesquisa de seus orientadores. Este era o grupo que fazia parte do que é conhecido como "Projeto Guarda Chuva" da orientação. Esses/as pesquisadores/as pareciam ter uma interação mais intensa com seus/as orientadores/as, um diálogo mais vivo. Eles/as participavam mais ativamente de eventos e, embora haja críticas a esse processo que sabemos ser difícil, percebi que recebiam maior apoio.


Ao observar tudo isso, decidi conversar com meu orientador e expressar meu desejo de fazer parte de seu projeto Guarda Chuva. Esse desejo não se baseava apenas no que eu tinha observado; eu também estava interessado no tema de pesquisa dele. Além disso, percebi que participar desse projeto poderia me oferecer vantagens como maior sociabilidade, mais atenção do orientador, e a possibilidade de ter meu trabalho lido por mais pessoas - um aspecto de grande valor para mim. Sabemos que muitas pesquisas são realizadas no Brasil e que a maior parte das produções acadêmicas se dá na forma de artigos derivados de dissertações e teses. No entanto, para mim, é muito frustrante pensar na quantidade de esforço investido e, às vezes, não alcançar o impacto esperado.


Entendi que, fazendo parte de uma comunidade científica, eu teria a oportunidade de ler o trabalho dos meus/minhas colegas e ser lido e citado por eles/as. Vi uma vantagem clara nisso, algo que considero de grande importância. Portanto, decidi fazer essa mudança e tem sido uma experiência transformadora.


Ainda hoje, ao conversar com alguns/as amigos/as, percebo o quanto minha experiência difere da deles. Embora meu orientador não tenha tanto tempo disponível, o que é comum em muitas orientações, temos mais encontros do que antes. Ele me apresentou a outros pesquisadores/as da América Latina, pois nosso projeto aborda essa região. Sinto-me mais acolhido agora. Tive uma banca de defesa de projeto muito engajada, que demonstrou ter realmente lido meu trabalho. Participamos dos mesmos grupos de pesquisa e sinto-me muito mais inserido no mundo da pesquisa, que pode ser difícil para aqueles/as de nós que não têm essa tradição familiar.


Em meio a tudo isso, recordo o que meu orientador na graduação me disse. Normalmente, nas universidades, encontramos pessoas que são apaixonadas por um tema e dedicam a vida a ele. É incrível, mas nem sempre esse é o caminho que precisamos ou queremos seguir. Enquanto eu lidava com esse dilema, meu orientador me disse: "Marcos, mais do que se tornar um especialista em um tema, você está se formando para ser um pesquisador. E como pesquisador, você deve estar preparado para usar as ferramentas necessárias para realizar uma pesquisa. Não se trata apenas de se especializar em um tema, apesar dos benefícios que isso pode trazer. É sobre se perceber como pesquisador e estar preparado para fazer pesquisas. Assim, se surgir a oportunidade de você ser contratado para fazer uma pesquisa sobre qualquer coisa, você deve estar preparado para isso. Você está se formando para ser um pesquisador, não um especialista."


Isso foi fundamental para a decisão que tomei recentemente. Eu tinha um projeto no qual acreditava profundamente e o considerava muito interessante, mas percebi que não tinha muitas oportunidades nem alcance com ele, especialmente se continuasse a usá-lo como tema da minha dissertação. Assim, decidi abdicar dele. Ainda farei um artigo sobre o assunto, mas o tema da minha dissertação, alinhada com a orientação do meu mestrado, mudou. E estou aqui compartilhando com vocês o que percebi de valioso nesta experiência, que tem sido extremamente importante para a minha saúde mental e para a minha produção acadêmica.


Estou escrevendo este texto para dizer a vocês que temos a capacidade de mitigar a solidão, um aspecto tão frequentemente comentado em nossa área, durante o processo de realização de uma pesquisa. Podemos fazer isso, por exemplo, ao participar de comunidades científicas como a que mencionei. Essas comunidades oferecem a possibilidade de termos um impacto maior se participarmos delas.


Quero deixar claro que, em nenhum momento, estou desvalorizando as pesquisas "avulsas" ou "diferentes". Esses tipos de pesquisa podem ser igualmente, ou até mais, impactantes do que as realizadas em comunidades científicas. Não estou aqui para diminuir a importância de nenhum trabalho. Reconheço que uma crítica comum às comunidades científicas é que elas podem parecer limitantes para aqueles que valorizam a originalidade ou uma identidade específica. Como pesquisador, estou ciente de todas as questões relacionadas a isso.


Por isso estou apenas compartilhando a minha experiência, não como a única ou a "correta", mas talvez como uma referência útil para estudantes e para aqueles que estão decidindo investir em uma carreira acadêmica. Essa experiência tem sido tão enriquecedora para mim que pretendo replicá-la em minha jornada de doutorado. Pretendo estar alinhado com o que minha orientação atual e futura estão produzindo, pois vejo o valor de participar de uma comunidade científica vibrante e estar em contato desde o início com outros/as mestrandos/as, doutorandos/as e ter a oportunidade de ser lido por um público amplo.


O simples fato de minha pesquisa ser relevante para o trabalho de outros, de ter o compromisso de participar de reuniões regulares de orientação não apenas com meu orientador, mas também com outros/as doutores/as e demais pesquisadores/as que fazem parte desta comunidade científica, e de estar envolvido em um processo de construção coletiva dentro do mundo acadêmico, é algo que valorizo muito.


Assim, o que eu quero dizer é que participar de comunidades científicas atuantes pode ser extremamente benéfico, inclusive nas ciências sociais. Por meio de depoimentos de vários colegas, percebi o quanto esse processo pode ser solitário e, por ser solitário, potencialmente debilitante para a nossa saúde mental. Participar de uma comunidade científica pode oferecer um caminho alternativo e enriquecedor para se viver a experiência acadêmica.


Referências da imagem: Freepik.


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