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"DESLIGA ESSA DESGRAÇA!" A TRAGÉDIA SOCIAL DO SOM ALTO EM SALVADOR.




Essa eu ouvi numa rádio local: um grupo de turistas mineiros haviam acabado de chegar em um bar da orla e pediram um cardápio variado. Vinhos, cervejas, refrigerantes, alguns tipos de comida, entradas, enfim, parecia que a gastança ia ser boa. De repente, foi ligado um som em altíssimo volume na parte exterior do estabelecimento. Os turistas se incomodaram e chamaram o gerente do local para tomar providências sobre aquela parafernália auditiva. Foram informados que nada podiam fazer, já que o barulho era externo. Resultado: cancelaram tudo e foram embora. Coube ao bar ficar no prejuízo, deixando de atender numerosos consumidores. A conta, pelos pedidos, passaria e muito das centenas de reais, caso algum abnegado não ligasse seu som em via pública, numa altura hecatombica.


Muitos podem considerar que o gerente “deu mole”, deixando de chamar a polícia pra resolver aquela situação. Acredito que não era novidade aquele barulho naquela região e muito provavelmente os funcionários do local já tiveram sérios entreveros por conta disso, preferindo correr o risco de perder clientes que enfrentar sabe-se lá quantos valentões metidos naquela zuadeira. Essa é a realidade de muita gente em Salvador, que já foi apontada como a cidade mais barulhenta do país, segundo a OMS. Atualmente pode ter perdido esse posto, mas todo soteropolitano sabe o sofrimento que é conviver com som alto. Em 2017, escrevi o artigo “Baixe essa m...”: o drama da poluição sonora em Salvador”, onde relatava o transtorno de conviver numa cidade onde os altos decibéis solapam a qualidade de vida de milhares de pessoas. Esse artigo é praticamente um volume II do que foi publicado há 6 anos.


Dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SEDUR) mostram que foram recebidas 92 mil denúncias de poluição sonora na capital baiana durante todo ano de 2022. Os registros foram decorrentes de barulho produzido por bares, residências e veículos particulares. Apesar de vistorias, ações educativas do órgão, e apreensões, a realidade é que um enorme número de pessoas convive diariamente com zoeira quase que permanente. Denúncias de som alto subiram quase dez vezes em sete anos. Já convivi com isso. Por várias vezes, foi impossível assistir televisão ou ouvir sua própria música. Conheci vários sucessos de época através do som do vizinho. Quando vou à praia, isso fica bem evidente. Um liga uma caixa de som do lado, outro do outro, na rua um carro de som ligado, e ainda o som do barraqueiro. Enfim, você nem consegue identificar o que é que está tocando, tamanha é a maçaroca que arromba nossos tímpanos!


Durante a pandemia, pipocaram paredões pela cidade (também já escrevi sobre isso) e os relatos de verdadeiras raves de rua que duravam dias se alastraram. Nosso povo trabalhador tem que passar por tanto infortúnio e nem o direito de descansar possuem. Quem vai mexer com os “patrocinadores” dessa festança? Se você pensa que “basta apenas” chamar a polícia ou o SUCOM pra terminar a festa, saiba que sábado que vem, tem mais! Familias já mudaram de bairro por conta dessa tragédia social. Há brigas, agressões, e muitos fiscais já foram ameaçados de morte ao “atrapalharem” o bem-estar de quem se acha no direito de botar seu aparelho sonoro na altura que quiser. Som alto e medo caminham juntos. “A poluição sonora é um vetor de violência”, afirmou uma funcionária da SEDUR. Reitero, como falei no primeiro artigo, lá em 2017. Há uma questão de superioridade social impregnada em muitos sujeitos, muitas vezes carregando fichas longas de periculosidade. Reclame aí, vá! Se fosse tão fácil resolver, como o caso que contei no primeiro parágrafo, não havia uma boca de fumo na cidade, pois “é só denunciar”.


Não é uma questão apenas de segurança pública, mas cultural, ou seja, possuímos uma trajetória histórica de festas, batucadas, lavagens, e demais celebrações, que cada um pegou o jeito de fazer sua própria festa de largo particular. É certo que nossos concidadãos pobres têm restritas alternativas de equipamentos culturais e com isso cria suas próprias praças domésticas. Mesmo assim, não adianta melhorar a infraestrutura urbana se não melhorarmos a infraestrutura de nossas consciências.


Além da potente caixa de bluetooth da vizinhança ou do bar ao lado, estão mais frequentes os barulhos de tiros em nossa cidade. Briga de facções e balas voando de um lado pra outro já atrapalham há tempos o sono de muita gente. Somos a capital do desemprego, do carnaval (outra fonte incrível de zoada), capital do estado mais violento, e uma das pole positions do barulho. É muito prêmio Nobel às avessas pra gente se orgulhar... Honestamente, considero que esse drama urbano está muito longe de ter uma solução.


Sextou! Muita gente se divertindo por aí. Enquanto isso, mais uma sexta-feira significa a chegada de um fim de semana pra estourar ouvidos, em vários bairros de Salvador. Barril.


FONTE:






IMAGEM: Jusbrasil.com

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