Dia das mães ou dia da maternidade?





O que torna mulheres mães é a tal da maternidade. No entanto, será que mãe é apenas aquela que gera em sua barriga um bebê? Toda mulher que passou pela experiência da gestação assume a identidade social de mãe, mas será somente isto que permite que um ser humano experimente a maternidade? A maternidade vai além da experiência de gerar ou não crianças, ultrapassando um aspecto meramente biológico, pois a própria linguagem é construída socialmente e culturalmente, portanto precisamos entender o que significa o termo "maternidade" e o seu conceito.


Maternidade, materno, mãe estão relacionados a um conjunto de arquétipos que segundo o analista da psicologia junguiana, Carl Gustav Jung; aluno de Sigmund Freud, e cientista que desenvolve a psicologia analítica; são experiências simbólicas advinda de séculos de cultura, que formam imagens mentais e constroem os significados dos termos que usamos atualmente.


Esses arquétipos podem ser positivos ou negativos, tantas vezes apresentados como a mãe, a avó, a cuidadora, que alimenta e protege, quanto a madrasta, a bruxa, a devoradora, como aquela que consome o filho, se alimenta dele, a cobra, dentre outros. Associado aos símbolos da terra, da água, da grande mãe virgem nas religiões ou das Deusas guerreiras, defensoras, protetoras, acolhedoras e cuidadoras, a mãe e a maternidade podem ser tanto experiências biológicas individuais e experiências mentais passado por gerações e por nosso arquivo inconsciente/subconsciente.


A mãe é um símbolo e um arquétipos mais do que uma experiência individual, é um conjunto de simbologias coletivas que se passaram de geração a geração e pode ser uma experiência vivenciada psiquicamente e não apenas biologicamente. Isso ocorre facilmente quando uma criança tem uma experiência negativa com a mãe biológica, mas sente que deveria não ter, pois existe uma cobrança não só cultural, religiosa, mas psíquica de seu poder criador. Isso se dá pela experiência psíquica coletiva e não real, individual. Essa força nos faz repetir padrões e discursos sociais sem questionar suas origens e contradições, forçando a todos, em uma data especial do ano, tratar todas as mulheres e mães com sacralidade e reconhecimento, para em seguida deixar que a sociedade as leve para as sombras. Se esta experiência materna vai além da biológica e se torna uma força psíquica capaz de nos acolher e de nos gerar acolhimento mesmo sem ter tido experiências individuais, concluímos que, portanto, é possível ser mãe sem nunca ter gerado a vida de uma criança e exercer a maternidade através de qualquer criatura ou espécie de vida material ou imaterial.


Que absurdo! É o termo que usamos quando estamos com preguiça mental de estudar. Prática bem comum em um país cujo o nível de iletrados é assustador e a qualidade de leitura crítica, pior ainda, permitindo a propagação de fake news, teorias da conspiração e dando lugares de poder político de manipulação oratória a religiosos, sociopatas e até mesmo psicopatas. Onde nossa sombra saúde as sombras dos demais e ironicamente e contraditoriamente tudo isto em busca da luz, só se for a pedra reluzente chamada de "ouro" bem experimentada pelo seu vizinho "poder de opressão''. Bem vindo ao senhor dos Anéis onde não há Frodo nem Gandalf para nos salvar, apenas povoado por Gollum 's, o meu amado Brasil.


A percepção de que a maternidade é apenas relacionada a mulheres cis que engravidam (geralmente ausentando a responsabilidade do homem que contribuiu e é co-autor da criatura), é limitada por pessoas conservadoras que absorvem conhecimentos de forma reducioniata e não desejam expandir-se a novos horizontes, classificando-os como deturpações naturais. O engraçado que o que se considera "natural" nada mais é que uma construção limitada da sua percepção mental. Não concordar ou não se sentir confortável perante outras experiências é uma expansão egóica de si mesmo, pois composto o mundo por um coletivo, por qual motivo impôr nossa experiência e conhecimento individual como central e único válido? Lutando tanto e vorazmente para silenciar e desvalidar outras vozes e experiências?


Se a maternidade é uma experiência psíquica ela pode ser vivenciada de diversas maneiras. Assim como a maternidade biológica não determina a experiência das mães, a psíquica não se limita. Assim como uma mãe pode dar a luz a um filho e não experimentar a prática da abdicação, do cuidado, da doação e de outros aspectos positivos maternais assim uma pessoa que não a experimentou biologicamente pode fazê-lo. Não diminuindo a validade das mães que geram e criam também seus filhos, devemos questionar a norma criada socialmente que determina-a como única experiência válida. Sabemos que o interesse é outro! A norma é sustentada por vários discursos, e um deles é a manutenção da raça humana. Este discurso é contraditório, pois se diz defender a vida exigindo sob pressão social que mulheres engravidem, mas contribuem com a manutenção das guerras, do tráfico, da fome e da miséria que geram doenças. Ademais, sabemos que para gerar vidas humanas existe a inseminação artificial e muitas outras práticas, fora que não estamos sob risco de desaparição por falta de crianças, mas sim, por falta de cuidado uns com os outros.


Seria então apenas uma forma de implicar a mulher em uma função meramente específica da maternidade, sobrecarregando-as em suas outras funções, para mantê-las sob controle, em cativeiros, sob dominação masculina camufladas por belos discursos do estereótipo apenas benéfico e divino da maternidade biológica? Estariam as outras formas de maternidade pondo em risco a dominação sexista sobre o corpo das mulheres?


Observem que limitar a experiência materna ao biológico nos leva a muitas outras ramificações de análises e questionamentos.


A experiência da maternidade sadia pode ser exercida por uma avó, por uma tia, por uma irmã mais velha, por uma desconhecida, por uma mãe adotiva, ou por qualquer outra cuidadora. A mãe pode ser quem gera, mas a maternidade é dada a quem a experimenta. Muitas mulheres experienciam a maternidade além das relações entre gerador e geradora, assumindo posturas do arquétipo do cuidado, da proteção, do acolhimento, do amor, do sacrifício, da entrega, da alimentação de várias formas.


Por este ponto de vista, a maternidade pode ser exercida por mães de pets, mães de plantas, mães adotivas, mães cis e trans, mães da terra, da água, mães da ciência, dos livros, das artes, mães das crianças diversas, mães temporárias, mães homens. A experiência da maternidade não se reduz a um corpo nem ao seu biológico. Experimentar a maternidade não está limitado as dores das contrações do parto, nem a amamentação, nem aos cuidados com iniciais com bebê, onde o sacrifício é vivido intensamente, sem desqualificar esta tarefa tão árdua que deve ser compartilhada com o parceiro(a) corresponsável pela vida de outro ser, pois ninguém gera uma criança se masturbando, é uma prática de dois, óvulo e espermatozóide. A verdadeira natureza e a verdadeira forma natural é que ambos se responsabilizem pela gestação e criação. Mas pelo visto as ideologias e teorias que defendem o biológico e o natural só se interessam pelas perspectivas que os privilegiam.


Reduzir ao biológico é o que os dominadores de mentes fazem. Os limitadores da expansão da consciência, os fomentadores do ódio, da rejeição, da negação do diferente, da autolimitação e punição da criatividade e da transgressão interna de si mesmos. O conservadorismo é uma autopunição sádica construído pelo medo da instabilidade e da mudança. Incapaz de entender que podemos ser não conservadores e termos nossas escolhas respeitadas e defendidas. Que não deixaremos de viver conforme queremos e desejamos, por aceitar que outros tenham essa escolha. Que ser frágil somos, se a vida de outra pessoa interfere tanto em como vivo a minha? Se reconhecer materno estando em uma maternidade padrão não se desfaz ao reconhecer outras maternidades não padronizadas.


Portanto eu defendo que não se comemore os dias das mães, aspecto limitado ao biológico que por muitas vezes é negativo e contraditório, mas ao dia da maternidade, sobretudo a saudável, nutritiva e não devoradora. Defendo um dia de louvor aos aspectos maternais geradores de bons frutos. Reconhecendo estes aspectos nas mulheres independente de terem gerado ou não outras vidas com o parceiro(a). Reconhecendo-os, também na grande mãe , o planeta Terra, na água, nas árvores, na terra que possui este aspecto nutritivo, cuidador e provedor. Que possamos reconhecer, agradecer e louvar os aspectos do feminino positivo que existe em todos nós. Um dia que não seja apenas dia "das mães " mas dia de louvar os aspectos da maternidade nutritiva que existe em todos os seres humanos, de todos os gêneros, que existe em todos os animais e em toda forma de vida. Que não sejamos mesquinhos na briga de quem sofre mais ou menos, nem na busca por equivalência de quem ama mais, pois certamente perderemos, pois o Universo é a prova viva do amor, da maternidade positiva e do arquétipo saudável da mãe divina.


Que nesse dia todas as formas de maternidade se unam, que mulheres diversas em suas diversidades de gênero se unam, sem pesar dores e sofrimento e ficando na queixa, mas reconhecendo as dores e sofrimentos de cada uma, respeitando, validando, dando as mãos e agradecendo por poder experimentar dos arquétipos do materno.


Desejo que homens acolham em si suas maternidades, nesse mundo sexista que os separam de suas mães, das outras mulheres e de seus aspectos femininos e maternos. Que eles se reconheçam onde estão, que respeitem nosso sofrimento, validando-os e que contribuam juntamente com nossos aspectos da maternidade nutritiva, a nutrirmos juntos a nossa mãe Terra. Pois somos criaturas, gerados pela grande mãe que nos deu a vida. Podemos juntos criarmos um ambiente com mais proteção, mais cuidado, mais acolhimento, mais sacrifício, mais solidário, mais amoroso e que ao invés de focar nas perdas e nos ganhos alheios de maneira mesquinha, respeitemos e acolhemos o que temos de bom para plantarmos sementes novas, pois as árvores estão morrendo e não estamos replantando. Cabe a nós, individualmente, a responsabilidade de evoluirmos, estudarmos, avançarmos e desfazer preconceitos, ódios, rigidez, vergonhas…


Fazendo minha parte e você? Vai esperar que os bois que se suicidam determinem sua jornada? Cabe a você a escolha de continuar sendo limitado, mas nunca a de limitar o mundo.


Link da imagem: https://psiqueobjetiva.wordpress.com/tag/arquetipos/



34 visualizações2 comentários