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E SE FOSSE SEU AMIGO/PARENTE? SOBRE EXPOSIÇÃO, VERGONHA E VULNERABILIDADE.



O cara com comportamentos abusivos com a ficante/namorada. (Gabriel Fop e Bruna Griphao no BBB 23).


O pai que se separa no meio do puerpério do segundo filho da esposa porque quer “se encontrar”. (Luis Navarro e Ivi Pizzott).


Mulher do jogador de futebol que se irrita com o jeito das pessoas nordestinas. (Drica Barbosa e Léo Campos)


Quando vemos esses casos na internet, rapidamente sabemos identificar o que está errado e deixamos isso bem claro em posts, comentários e compartilhamentos. Para alguns, isso é feito por pura raiva, outros, querem alertar sobre o assunto e outros mais, querem que a sociedade mude para melhor.


Eu passei pelos 3 estágios acima e decidi ficar com a última opção. Mas, como contribuir para essa discussão em vista a uma mudança real? A internet, e até o Tadeu Schmidt, já deram o primeiro passo: a exposição. De agora em diante, essas pessoas estão imersas a todo tipo de resposta da sociedade, mas, infelizmente, nenhuma delas será capaz de ajudá-las a mudar de fato.


É importante a gente admitir que as três situações retratam macroestruturas: machismo e xenofobia e, por isso, se a pessoa estiver no lugar de privilégio desse emaranhado sólido, vai ser muito difícil perceber sua ação/comportamento/discurso machista, ofensivo, racista ou xenofóbico.


Uma das características do privilégio é a cegueira de certas preocupações. Pense comigo: você acha que Gabriel do BBB falou que daria "cotoveladas na boca” sabendo que seria recriminado pelo Brasil inteiro, que o estava assistindo? Ou, que o ator Luis Navarro, ao desabafar seus motivos para a separação, sabia que isso afetaria sua reputação e carreira como ator? E que Drica Barbosa, ao gravar seus stories de incômodo sobre os trejeitos nordestinos, estava ciente que despertaria a revolta dos moradores da própria cidade onde está?


Seres humanos não foram feitos para se exporem à toa. Quando falamos ou fazemos qualquer coisa em público (e agora, na internet), pensamos que estamos em um lugar seguro para tal. Os três citados estavam se sentindo seguros em suas ações e discursos porque os privilégios o fazem cegos dos lugares de opressão e, especialmente, do seu lugar de opressor/a.


A exposição acontece! Considero que os três, pela tal cegueira, nem imaginavam que isso aconteceria, por isso, a consequência é viverem um sentimento enorme de vulnerabilidade por estarem expostos às opiniões de um país inteiro.


Em nome de um bem maior, eu quero que você faça um exercício e lembre comigo algumas situações em que você se sentiu vulnerável, especialmente por uma situação externa. Aquela vez que você fez bullying com o colega por seu sotaque baiano e recebeu um sermão sobre xenofobia. Ou no dia que fez uma pergunta a uma pessoa em uma loja e descobriu que ela não trabalhava lá e que você só cogitou isso porque ela era negra e estava com uma roupa semelhante a um uniforme.


Continue o exercício e lembre de diversas situações em que você foi o opressor/a e caiu nas armadilhas das macroestruturas de opressão. Tenho certeza que, ao ter sua vulnerabilidade exposta dessa forma, o primeiro e inevitável sentimento foi a (terrível) vergonha.


Vergonha é uma sensação difícil, dolorosa e profunda. Mexe no nosso ego, no nosso sentido de existir socialmente. É um peso que, se não for dialogado, a gente esconde no âmago de nosso ser e cristalizamos em máscaras sociais, um mecanismo que usamos para tentar nos proteger de novas exposições.


Para não ter que sentir aquela vergonha de novo, a gente finge o que for necessário - até arrependimento. E, se formos pegos, ficamos mais envergonhados e o ciclo não pára. Essas observações eu aprendi com a pesquisadora Brené Brown que passou mais de vinte anos estudando a vergonha e a vulnerabilidade e, no seu livro, “A Coragem de ser Imperfeito”, explica, em linguagem simples, como é importante falarmos sobre isso. A autora explica:


“Vergonha é uma dor real. A importância da aceitação social e do vínculo com as pessoas é reforçada por nossa química cerebral, e o sofrimento que resulta dessa rejeição social e dessa falta de conexão é genuíno.”(p. 54)

A única forma de interromper essa roda de tortura dos nossos próprios sentimentos é encontrar um espaço saudável e seguro para ser vulnerável. Falar dessa vergonha abertamente e sem julgamentos diminui o poder dela sobre nós e de suas máscaras sociais. E quem vai nos dar isso? Eu acredito que os microambientes como a família/amigos/profissional de saúde mental, qualquer lugar onde podemos depositar nossa confiança, sabendo que com aquela(s) pessoa(s) a gente pode falar dessa dor da vergonha, desse estranhamento de ser pego em uma situação desagradável e ser exposto por isso.


Eu olho para os três personagens desses casos e imagino ludicamente seus rostos envergonhados e assustados, escondidos no canto de seus âmagos, sem coragem para levantar a cabeça ou olhar para o que aconteceu e o que eles mesmos fizeram. Se não houver um movimento interno muito forte, ou alguém externo, com respeito e compaixão sincero para dar a mão, esses sujeitos nunca vão entender o que realmente aconteceu, nem vão se melhorar ou diminuir seu impacto opressor aos corpos oprimidos dentro da macroestrutura.


Quando digo tudo isso espero que o leitor/a entenda que não estou tentando diminuir o que fizeram ou isentá-los de suas responsabilidades, mas precisamos admitir que a força das discussões na internet nos ensinou a ter falas combativas contra “avatares” da internet, afinal, você conhece o Gabriel Fop? Se não, quando você o reprime, você não fala com ele de verdade, mas a simbologia dele na internet.


O perigo desse tipo de comportamento é perdermos o foco na causa do problemas, que vem de estruturas maiores, e também de aumentarmos a ideia de que as questões opressoras acontecem apenas fora da nossa bolha e são cometidos por “vilãs e vilões", estranhos e desconhecidos da nossa vida.


A pegadinha das grandes opressões é que todos estão nelas, incluindo as pessoas que amamos e queremos bem e, quando elas se tornam instrumentos opressores e são expostas, precisamos achar um caminho para ampará-las, sem negar o erro que foi cometido, mas sabendo acolher os sentimentos difíceis que acontecem pós-exposição.


Um adendo importante: para que você possa cuidar, acolher e ajudar aquele que oprime, é importante que você não seja a oprimida na dinâmica em questão. Se você está dentro, não terá autonomia para entender a vulnerabilidade do outro ao mesmo tempo que o convoca a assumir a responsabilidade pelo ato impróprio.


O propósito deste texto foi fazer um exercício de estarmos atentos sobre como podemos contribuir nesses processos de reconstrução da sociedade. A internet e seus reclames têm seu papel relevante, mas enquanto não nos movimentarmos dentro de nossos microambientes, entendendo o poder da vergonha e a importância do acolhimento da vulnerabilidade, veremos poucas mudanças reais nos comportamentos opressores.



FONTE:





BROWN, Brené. A coragem de ser imperfeito. Rio de Janeiro: Sextante, 2013.


Fonte das imagens:





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