ENTRE O MÉTODO E O ESPANTO: A filosofia como amor inquieto à sabedoria

A afirmação de que a filosofia "não é amor à sabedoria, pois diz respeito ao método" revela uma compreensão restrita e, de certo modo, diminui o campo filosófico. Ao priorizar o aspecto metodológico, desconsidera-se o núcleo pulsante que deu origem à própria filosofia: o thaumázein, o espanto, que instiga o desejo de saber. O termo "filosofia" vem do grego philos (amor) e sophia (sabedoria), e esse etimologia não é mero ornamento linguístico, pois ela expressa uma disposição existencial fundamental diante do mistério do ser, do mundo e da vida. Reduzir filosofia a um conjunto de métodos seria como dizer que a poesia é apenas métrica, ignorando o lirismo que a anima. É preciso também salientar que amar aqui, não se restringe à dimensão romântica do amor, mas a uma ação, pois amar é verbo.
Partimos assim para Platão, um dos pilares do pensamento ocidental, que é exemplar nesse sentido. Em diálogos como o Banquete, ele nos revela que o amor à sabedoria nasce do desejo, da falta, da busca incessante por aquilo que está além do imediato e do dado. O filósofo, em sua acepção mais radical, é aquele que reconhece que não sabe, mas por isso mesmo se lança numa travessia em direção ao saber. Para Platão, a filosofia é erótica: não é ciência acabada, mas tensão entre o ignorar e o aspirar ao saber. O método dialético que ele propõe, de perguntas e respostas, de aporias e clarificações, está a serviço dessa busca apaixonada, e não a substitui.
No mundo contemporâneo, Emmanuel Levinas retoma esse espírito originário da filosofia ao deslocar o eixo da razão para a ética como primeira filosofia. Em sua crítica à ontologia tradicional, Levinas propõe uma filosofia que se funda na responsabilidade pelo outro, em um chamado que ultrapassa o cálculo racional e os sistemas fechados de pensamento. Para ele, o rosto do outro me interpela antes de qualquer método, e é nesse encontro que a filosofia (re)começa, não como técnica, mas como inquietação ética e abertura ao infinito. Saliente-se que esse (re)começar é sempre um começar de novo e de modo novo. Levinas, ao colocar a alteridade como base do pensamento, recupera a dimensão amorosa e ética da sabedoria, rompendo com qualquer pretensão de neutralidade metodológica.

Dizer que filosofia "método" é confundir instrumento com finalidade. Métodos são meios; necessários, mas não suficientes. A filosofia autêntica não nasce da técnica, mas do desejo de compreender o que somos, o que é o mundo, o que é o bem, o justo, o belo. O método, quando isolado, pode até tornar-se um simulacro da filosofia: produz discursos coerentes, mas desvinculados da vida.
Portanto, a filosofia é, sim, amor à sabedoria, não no sentido de posse, mas no de busca. Um amor inquieto, insatisfeito, sempre em movimento. E isso tanto Platão quanto Levinas, separados por mais de dois milênios, atestam com clareza: sem amor, não há filosofia: só técnica.
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Referências:
PLATÃO. O Banquete. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001.
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito: Ensaio sobre a exterioridade. Tradução de José Renato Maluf. Lisboa: Edições 70, 2008.


Tratar a filosofia como "amor inquieto" resgata a sua dimensão vital. Em um tempo que valoriza excessivamente os métodos, defender a filosofia como desejo a responsabilidade ética é um ato necessário.
Filosofar ato de refletir de forma crítica, racional, os conhecimentos e a realidade. Se anulamos a filosofia, acabamos anulando a existência do ser que está em constante evolução.
Todo e qualquer campo de estudo, faz se necessário o ato de amor. É clichê dizer que sem o amor outras coisas são pequenas. Amor a filosofia ultrapasso todos os campos racionais e emotivos. A inquietude que leva o homem a lugares onde os pensamentos viajam.
Edmilson Pinho
no texto releva que metodos sao meios necessarios mas nao o suficiente a filosofia autentica nao nasce da tecnica mas dos desejo de compreender o que somos o que e omundo e nosso lugar no mundo o que e o bem a justica ou seja o que e justo e o que e belo .O filosofo ,em sua acepcao mais radical e qquele que reconhece que nao sabe , mas por isso mesmo se lança nume travessia em direcao ao saber ou seja sempre em busca de mais conhecimento sendo um eterno pesquisador
"Reduzir filosofia a um conjunto de métodos seria como dizer que a poesia é apenas métrica, ignorando o lirismo que a anima", esse trecho me remete à poesia de Priscilla quando canta "...seria como se essa bossa tivesse apenas uma nota, não dá pra ser...". O conjunto de notas - ou de palavras - gera harmonia, mas reduzir um conceito apenas às partes individuais que o copõem não é suficiente para uma ampla percepção intuitiva. Adiciono Heidegger à comparação entre filosofia e poesia: "na mesma dimensão da filosofia e de seu modo de pensar está apenas a poesia. Entretanto, pensar e poetar não são, por sua vez, coisas iguais". Sobre a busca constante pela sabedoria, cito Heráclito em Tapeçarias: "pois é…
Filosofar é…
Estar disposto a refletir, perguntar e buscar compreender a vida mesmo sabendo que nem sempre teremos respostas prontas.
Entendi também que a filosofia é como uma busca constante pelo conhecimento, que nos mantém inquietos, curiosos e abertos a novas descobertos.