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ENTRE TELAS E ESTRATÉGIAS: Conhecendo a sociologia da captura da atenção




Na busca por um tema interessante para esse texto de hoje, me vi imerso em reflexões sobre as inúmeras temáticas que poderiam intrigar os leitores desta coluna. Surgiu então a ideia de criar um grupo no WhatsApp, uma espécie de "refúgio de ideias", onde, curiosamente, sou o único membro. Neste espaço pessoal, anotei uma variedade de tópicos que capturaram minha atenção, embora o desafio de transformá-los em palavras tenha se revelado tedioso.


Entre as possibilidades, uma sensação de desânimo inicial me envolveu diante da diversidade de assuntos que, embora instigantes, pareciam fugir ao meu controle criativo, afinal são muitas ideias dispersas e pouca capacidade de foco e atenção. Em um momento de pausa reflexiva, percebi a importância de escolher uma temática mais alinhada com minha vivência cotidiana.


Foi então que, imerso nesse processo, meu pensamento se tornou uma trilha sonora involuntária, repleta de músicas presentes nas redes sociais, nos vídeos virais do TikTok e nas histórias do Instagram. Esta confusão mental me conduziu à ideia central: explorar o fenômeno do excesso de informação e a crescente desatenção que permeia nossa sociedade, um tema que ecoa constantemente em nossas conversas contemporâneas.


São diversas possibilidades de recortes sobre essa temática. Vivemos em uma era saturada de informações, onde milhões de reais são investidos na batalha pela nossa atenção nas redes sociais. Recentemente, tenho observado de perto o conteúdo produzido por indivíduos que buscam vender produtos online, uma área que pretendo explorar em textos futuros. O que me fascina é a precisão técnica com que esses profissionais empregam diversos estudos de marketing e vendas para operar nas redes sociais.


Hoje em dia, há uma espécie de ciência por trás do processo de cativar a atenção das pessoas nos primeiros três segundos de um vídeo. Este é um cenário curioso que revela a direção para a qual nos dirigimos. O cenário atual envolve a existência de cursos e formações dedicados à produção de conteúdo e à habilidade de prender a atenção do espectador. O objetivo final é criar um ciclo onde as pessoas permaneçam nas redes sociais, assistam a vídeos e, consequentemente, alimentem o algoritmo que amplifica esse conteúdo para uma audiência mais ampla.


Esses segundos iniciais de vídeos de redes sociais tornaram-se uma commodity valiosa, meticulosamente estudada, analisada e planejada. Os primeiros segundos são a tentativa deliberada de evitar que você deslize a tela, um esforço meticuloso para prender sua atenção e direcioná-la para o catálogo de produtos à venda.


E assim, nesse caos de pensamentos, a minha ideia inicial para este artigo foi se modificando. Ao decidir abordar a influência do excesso de estímulos nas redes sociais, dei uma espiada em alguns artigos acadêmicos que exploram essa temática. Já havia lido previamente o notório livro sobre a "sociedade do cansaço", escrito por Byung-Chul Han, um conceito que ressoa fortemente no zeitgeist atual.


Este livro, que discute a nossa era de estímulos incessantes, problematiza como a positividade constante acaba tendo um efeito negativo em nossas vidas. Vivemos em um ambiente saturado de vídeos envolventes de 15 segundos, músicas cativantes no mesmo intervalo e discursos motivacionais que prometem transformar vidas. A obra explora como esse constante influxo de estímulos positivos contribui para um excesso de positividade, que por sua vez pode resultar em quebras de expectativa e, consequentemente, uma espécie de fadiga.


A verdade é que o sucesso dessa enxurrada informativa, de certa forma, proporciona oportunidades para o controle e modulação dos conteúdos com os quais nos deparamos, influenciando sutilmente nossos comportamentos. Essa reflexão mais cética adiciona uma camada necessária à compreensão desse fenômeno contemporâneo.


Contudo, essa única referência não foi o bastante para satisfazer minha momentânea curiosidade. Em minha busca contínua, deparei-me com um artigo que despertou meu interesse: "Para uma sociologia da captura da atenção...", elaborado por Pedro Rodrigues Costa. Aprofundando minha investigação, deparei-me com um texto provocante que me apresentou a intrigante ideia de uma "sociologia da captura de atenção". Mas afinal, o que representa a sociologia da captura da atenção? Essa indagação tornou-se o ponto central de meu interesse. Essa perspectiva revelou-se particularmente curiosa, pois, ao revisitar as obras clássicas da Sociologia, percebo que todas compartilham, de certa forma, um objetivo comum: desvendar que ideias estão mobilizando a ação de grupos.


Ao explorar as obras fundamentais, como as de Durkheim e Weber, identifica-se um ponto comum: a análise das influências que moldam comportamentos de uma determinada maneira em detrimento de outra. Durkheim, por exemplo, aborda a noção de consciência coletiva, enquanto Weber explora aspectos cruciais de um ethos que modula comportamentos. Essas reflexões têm como pano de fundo a compreensão de como essas ideias são formuladas e compartilhadas em larga escala.


A análise desses clássicos ressoa de maneira provocativa com a pergunta subjacente: como essas ideias conseguem ser partilhadas por uma gama tão vasta de pessoas, a ponto de não apenas moldarem consciências individuais, mas também gerarem consciências coletivas? Apesar da aparente fragmentação e diversidade de nossa sociedade contemporânea, é importante reconhecer que ainda existem padrões comportamentais atuais sendo produzidos nesse momento e a formação de grupos que contribuem para a dinâmica complexa de nossa realidade social. Redes sociais virtuais populares como o Tiktok produzem virais que gente do mundo todo acabam se comportando da mesma forma, fazendo a mesma dancinha e escutando a mesma música.

Ao traçarmos nossa trajetória histórica, percebemos a ascensão da importância do visual, desde os primórdios do cinema até os dias atuais, culminando na era do TikTok. Esta ênfase visual tem sido não apenas explorada, mas também estimulada em nossa sociedade de maneiras notáveis. Assim, se o visual ganha essa notoriedade, passando da sociedade da leitura para a sociedade do visual, essa atenção passa a ser disputada.


É vital reconhecer que a atenção, nesse contexto, é uma ferramenta. Uma ferramenta que não existe em um vácuo político, pois pode ser direcionada, construída e utilizada para diversos propósitos. Esta dimensão não apenas reflete a multiplicidade de usos da atenção na sociedade, mas também destaca seu papel como produtora de realidades. A atenção, assim como qualquer outra ferramenta, pode ser concebida como um elemento ativo na construção de narrativas, na definição de produtos e, em última instância, na formação da própria realidade social.


Eu afirmaria que isso não é apenas algo, mas, na verdade, um processo contínuo alinhado ao que tem sido explorado desde o início. Estamos analisando quais são as ideias que continuam a moldar a sociedade. No entanto, a grande indagação recai sobre a sociedade contemporânea, trazendo à tona o cenário em que nossa atenção é cada vez mais objeto de disputa. A perspectiva de uma sociologia da atenção surge como algo que faz sentido diante desse panorama, mesmo que não seja necessariamente inventar a roda, mas tem um foco e e inovações metodológicas que valem a pena serem testados.


Pedro destaca de forma convincente alguns elementos essenciais ao introduzir a noção da Tríade de sujeitos, telas e captologia. Essa interconexão entre os três elementos principais constitui a estrutura fundamental na busca pela captação da atenção na sociedade contemporânea. A “novidade" mencionada refere-se à complexa interação entre sujeitos, telas e captologia, elementos que não apenas moldam, mas também são moldados pelas interações humanas mediadas pelas tecnologias. De maneira mais simplificada, temos os sujeitos ativos na interação com os conteúdos apresentados nas telas, que desempenham um papel crucial na captura da atenção, dada sua onipresença na vida moderna.


A captologia, uma junção de "captura" e "tecnologia", apresenta-se como um estudo voltado para a aplicação de tecnologia na captura da atenção e na influência do comportamento humano. Esse campo envolve a utilização de elementos como algoritmos, design de interface e psicologia comportamental, entre outros, com o intuito de criar estímulos que prendam a atenção de maneira personalizada. Por exemplo, o Instagram não só muda seu algoritmo de acordo com o que você curte e comenta, mas de acordo com o tempo de tela que você fica vendo uma postagem ou vídeo, o foco é sua atenção. A complexidade dessa problemática é particularmente instigante, uma vez que essa abordagem é aplicada em diversas áreas que permeiam as telas, desde o capitalismo de plataformas até os aplicativos, e até mesmo na esfera política contemporânea, com seus vídeos virais e estratégias de venda de produtos. Tudo parece convergir para essa tentativa constante de captura de atenção.


Então, um contexto onde o discurso sobre a captura de atenção é totalmente central e, de certa forma, moldado, oferece uma interpretação moderna da sociedade, conforme proposto pelo autor. Outra perspectiva interessante é a ideia de que não estamos mais vivendo sob consciências coletivas. Chegamos a um ponto em que podemos discutir sobre a contingência coletiva, uma abordagem que se alinha com a teoria de Gabriel Tarde. Enquanto Durkheim, por exemplo, aborda a consciência coletiva como um conjunto estável de crenças, valores e normas compartilhados por membros de uma sociedade, fornecendo coesão e força às instituições e práticas sociais tradicionais, a teoria de Tarde oferece um contraponto.


Segundo a perspectiva de Tarde, a contingência coletiva introduz uma dinâmica mais fluida e mutável nas relações sociais. Isso implica que essas relações não são mais predestinadas, mas dependem de circunstâncias imprevistas e eventos casuais. Em vez de uma visão estática, surge uma compreensão mais flexível das interações sociais. Essa mudança sugere uma transição na teoria sociológica para algo mais fluído, influenciado por eventos imprevisíveis. Isso evidencia a presença da invisibilidade e complexidade nos fenômenos sociais. Ao se alinhar à teoria de Gabriel Tarde, o autor sugere a necessidade de adotar uma abordagem mais dinâmica para compreender essas mudanças. E faz total sentido pois a atenção na contemporaneidade, com esse excesso de informações e enxurradas de notícias que tem uma durabilidade curta em nossas vidas faz com que tudo pareça mais efêmero e menos durável.


Encerrando, e talvez provocando, o autor explora extensivamente a ideia da imitação. Esta temática ganha relevância quando observamos as três esferas mencionadas anteriormente, que funcionam, de fato, como instâncias de imitação. O TikTok, por exemplo, é reconhecido como uma rede social sem autoria, onde a imitação e replicação são as forças motrizes que a impulsionam, e é exatamente essa dinâmica que alguns apontam como chave para o seu sucesso. É como se as redes sociais virtuais, anteriormente vistas como espaço de diversidade, estivessem mostrando o contrário, modulação de comportamentos a larga escala.


A análise do autor destaca que a sociologia da atenção não aborda apenas as imitações de comportamento, mas também as imitações na reprodução de objetos sociais e culturais. Isso é especialmente pertinente em períodos específicos, como o da pandemia da Covid-19, que é o foco do autor. Ele apresenta exemplos desse período, demonstrando como as limitações nas telas naquele momento específico são parte integrante da dinâmica social contemporânea.


Essa abordagem esclarece os famosos gatilhos das dinâmicas sociais contemporâneas. Ao examinar como certas ideias e práticas se propagam, limitam-se e, por vezes, são contestadas na sociedade, o autor destaca a relevância do estudo sobre a imitação e sua associação crucial com as telas. Essa perspectiva oferece uma compreensão aprofundada das dinâmicas sociais, revelando como certas ideias e práticas se difundem, moldando a cultura de maneiras complexas e muitas vezes inesperadas.


Diante desse intrincado panorama entre telas e estratégias na sociedade contemporânea, emerge a Sociologia da Captura da Atenção como uma lente perspicaz para compreender a dinâmica complexa que permeia nossas interações digitais. Ao explorar o papel vital das telas, dos sujeitos e da captologia, somos confrontados com a inegável influência desses elementos na forma como consumimos informação, nos relacionamos e construímos realidades sociais. A imitação, destacada como força motriz em plataformas como o TikTok, revela-se como um fenômeno mais amplo, moldando não apenas comportamentos, mas também a reprodução de objetos sociais e culturais. Nesse contexto, a atenção torna-se uma ferramenta valiosa, disputada e moldada em um cenário onde a contingência coletiva, conforme proposta por Gabriel Tarde, acrescenta uma camada de fluidez às interações sociais. Em meio ao caos de estímulos, o estudo da Sociologia da Captura da Atenção desvela-se como um convite à reflexão sobre como as ideias moldam e perpetuam as complexas teias da sociedade contemporânea, proporcionando um olhar crítico e inovador sobre o incessante jogo entre telas, estratégias e atenção.


FONTE:


Han, Byung-Chul Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2015. Acesse aqui: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5000148/mod_resource/content/1/Sociedade%20do%20cansa%C3%A7o.pdf.


Costa, Pedro Rodrigues. Para uma sociologia da captura da atenção: reflexões a partir da pandemia da Covid-19. Análise Social, 246, lviii (1.º), 2023, 96-121. Acesse aqui: http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/n246_a06.pdf.


imagem: Freepik

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