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ESSA CONVERSA PODERIA SER SOBRE O BBB, MAS NÃO É.





A base estrutural do racismo na sociedade brasileira, assim como muitas outras construções teóricas constituídas pelo trabalho sério de movimentos negros, vem sendo banalizada, servindo de argumento para a não responsabilização de agressores. A elaboração tática tem sido a seguinte: se o racismo é estrutural, ele assume o status cultural que é integrado pelas pessoas de uma forma não consciente, logo não há uma intencionalidade violenta no comportamento racista.


A oportuna ignorância é apresentada como causa para a expressão do racismo, portanto não ocorre um crime, mas o escape daquilo que nem era sabido que existia.  Essa conversa não é sobre o BBB, mas poderia ser, porque em mais uma das edições, o racismo se torna pauta de discussões acaloradas entre espectadores e especialistas em reality.


Resumidamente o BBB trata-se de um programa, onde pessoas passam por um período confinadas, observadas 24 horas por telespectadores através de câmeras estrategicamente distribuídas pelo ambiente e, se não desrespeitarem regras estabelecidas previamente, poderão seguir livres em convivência em busca do prêmio milionário. Contudo acredito que o maior problema para os participantes é justamente a livre convivência. No programa, fora a fama que alguns participantes carregam como bagagem para estabelecer distinções, a tentativa é ofertar igualdade de oportunidades para os diferentes. E é aí é que o caldo entorna.


Historicamente as nossas relações foram pautadas na crença de que as diferenças nos afastam e não nos unem. Lélia Gonzalez em Racismo e sexismo na cultura brasileira afirma que há condições que são impingidas às pessoas negras como, por exemplo, a irracionalidade e a criminalidade.

 

A gente percebe nesse papo de racismo é que todo mundo acha natural negro viver na miséria, porque ele tem umas qualidades: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice etc. É natural que seja perseguido pela polícia, pois não gosta de trabalho. Se não trabalha, é malandro, se é malandro é ladrão. Logo tem que ser preso. (Gonzalez, 1984)

 

 

Essa percepção demarca o lugar de quem define e o lugar de quem é definido e a movimentação de um desses pares exige que o outro também se mova, desorganizando um saber constituído que fundamenta a ordem social. Qualquer representação fora da localização naturalizada do desviante ou é excepcionalizada, ou é negada através de expressões como, por exemplo: “Ele é mal, sinto algo ruim nele.”


A excepcionalização e a negação passam despercebidas no cotidiano sem holofotes, mas em um reality não, pois a atração é o que é ordinário, é a expressão pública das percepções que se tem dos “outros” que, até então, só era manifestada na segurança do privado, resguardada de julgamentos e penalidades.


Dentro de um reality os participantes, inicialmente, se sentem e se mostram como pessoas legais, mas performar um acolhimento do diferente por dias seguidos cansa e a contenção começa a ser percebida, ela desorienta e provoca dor. É preciso desenvolver uma percepção lógica para estar no jogo, desenvolver estratégias, avaliar táticas, constituir alianças para que duelo entre o “nós” e os “outros” possa acontecer.


Os assemelhados constituem o “nós”, aqueles que se interseccionam em pontos comuns, enquanto os outros são os maus e indignos que podem ter qualquer face, mas se ela for preta, ocorrerá uma dissonância cognitiva, ou seja, o que é pensado sobre os “outros” não estará em consonância com a forma de agir esperada pelos juízes sociais, ou, pelo menos, por alguns deles.

O tempo de convivência facilita a intimidade e o cotidiano rebaixa a hipervigilância por estar sendo sempre observado, estabilizando uma coerência entre o pensamento e a ação, perdendo-se assim a consciência de um possível julgamento.


Dentro do reality os enfrentamentos e todas as medidas assumidas são justificadas como uma necessidade do jogo. Mas o que fazer quando o jogo acabar? Quando ocorre um caso de racismo surgem os pedidos de desculpas àqueles que por um acaso se sentirem ofendidos, como se o racismo não fosse um problema social, mas sim uma questão particular das pessoas negras.


Mas um reality é um hiato na vida de pessoas. É preciso que agressores raciais sejam convocados a assumir a responsabilidade pelo antes e o depois de uma atitude racista, ou as ações violentas de desumanização continuarão a ser justificadas como ingenuidade, sem o peso da intencionalidade e serão repetidas e erroneamente tipificadas a favor da manutenção de opressões históricas que têm aniquilado os diferentes.


O racismo não é uma construção isolada e sim uma norma social que orienta a compreensão de mundo de muitos sujeitos. Através da violência racial se usurpa de um grupo social a livre existência, pois a perspectiva universalizada do saber é compreendida como central e incontestável, lançando para a margem percepções divergentes.


Pedidos de desculpas e deturpações de conceitos teóricos estão sendo utilizadas como álibis por pessoas racistas que desejam continuar incólumes de penalizações. Mas é preciso problematizar a desonestidade, se a prática existe é porque a legitimidade do conhecimento do “outro” é negada, a cosmopercepção africana, por exemplo, não adentra as escolas efetivamente, a história e a cultura de povos margeados são folclorizados, corpos quando não hipersexualizados são ojerizados por seus traços característicos.


Enquanto o racismo continuar a ser lido como uma demanda exclusiva da população negra, a sociedade continuará a não se responsabilizar por ações violentas que calam, desumanizam e matam.


FONTE:


GONZALEZ, Lélia. Racismo, sexismo na cultura brasileira. 1984

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Ótimo texto

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Muito bom!

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