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EXISTEM PESSOAS TRANS EM SOCIEDADES INDÍGENAS?




Como qualquer detalhe do universo humano, “gênero” é uma palavra complexa, escorregadia, com vários tipos de contornos, dependendo de sua linhagem teórica (pós-estrutural, marxista, novo-materialista, etc). Sem dúvida, enquanto conceito ele pode ser rastreado desde a década de 60 e 70, com os movimentos sociais da época e seus debates pós-estruturantes, mas, enquanto experiência, sempre fez parte dos humanos. Embora com diferentes predicados, e traços, variando conforme certa cultura, em geral o gênero sempre foi uma instituição coletiva, estabelecida por rituais milenares e sólidos, legitimado por instâncias inquestionáveis, como divindades e forças místicas. Mas, nas democracias liberais, local onde o indivíduo ganhou uma importância absoluta, o gênero, além de outras categorias, como verdade, beleza, certo ou errado, foram todas privatizadas, vagando por um mundo contingente, incerto. Isso significa que em nossas democracias cabe a cada individuo definir os parâmetros de gênero, devendo as instituições respeitarem a determinação daquilo que a psicanalista Élisabeth Roudinesco chamou de “Eu Soberano”. Na prática, todas as cores do enorme arco-íris LGBTQIAP+ giram em torno do empoderamento do indivíduo, uma centralidade de suas escolhas e perfis, assim como a suspeita de qualquer pretensão “universal”, “eterna”, “sagrada” ou “mágica”. Isso significa que “ser mulher”, por exemplo, não é mais legitimada por instituições ancestrais, ritos de passagem sólidos e enraizados, mas por uma “auto-percepção”. Ou seja, eu sou mulher porque eu “me sinto assim”, “porque é o meu corpo”. Esse fenômeno é muito recente, sendo difícil de perceber em outros tempos e culturas, apesar da insistência de muitos lá fora, como acontece com aqueles antropólogos mais rousseaunianos, mais nostálgicos. Por isso, fica aqui a pergunta: é possível mesmo aplicar o rótulo “trans” fora dos limites das democracias liberais?


Claro que diante desses meus comentários, você poderia facilmente contra-argumentar...


“Mas, Thiago, eu soube do famoso “dois-espiritos”, indivíduos que ultrapassam as fronteiras de gênero em sociedades tradicionais, como acontece com os Navajos na América do Norte. Nessa sociedade, observamos o Nádleehi, figura que transita por categorias de gênero. Ele não pode ser considerado “trans?”


Minha resposta é “Não”, da mesma forma que termos como feminismo, movimento negro, além de outros tantos espalhados por aí, não devem ser removidos de seus arranjos históricos, nesse caso, as democracias liberais, a desconstrução de instituições seculares e, principalmente, a centralidade do indivíduo. No caso do sujeito “dois-espiritos”, ele não pode ser visto como pessoa trans por três razões simples: 1) ele participa de uma instituição coletiva, resultado de processos místicos ou mágicos, ao contrário de uma pessoa trans que é definida por um gesto subjetivo, de auto-afirmação, 2) o gênero não é considerado um processo frágil, flexível, muito menos um produto de construções sociais, mas uma instância sólida e milenear. Por isso, ele não se encontra aberto a questionamentos, ou remodelagens, como acontece aqui em nosso território, 3) essa experiência é restrita a uma classe específica de pessoas, em geral os shamãs, figuras que possuem poderes especiais. Em outras palavras, uma “experiência trans” não é o simples ato de atravessar fronteiras de gênero (isso é muito vago), mas sim certas premissas nos bastidores desse gesto, como, por exemplo, os seus contornos políticos, econômicos e históricos de fundo.


Como já escrevi em outros ensaios, só existem movimentos sociais, da mesma forma que demandas por diversidade e todas suas implicações críticas e progressistas, em um mundo precário, descentrado, um espaço onde instituições clássicas são vistas como simples produtos humanos, contingentes e, logo, modificáveis. Aplicar valores liberais em sociedades originárias, tendência crescente nas ciências humanas, em especial na antropologia, é um anacronismo perigoso. Muitos ignoram que não apenas o racismo, a homofobia e o machismo têm contornos históricos, mas também os valores que nos ajudam a questionar esses próprios obstáculos. Em outras palavras, não é apenas a exceção que deve ser explicada (o machista), mas também a regra, o parâmetro de análise e crítica (feminismo). Eles não brotaram do solo, não caíram do céu, mas foram produzidos dentro de certas condições históricas, econômicas e até epistêmicas de possibilidade. Em outras palavras, o movimento LGBTQIAP+, o movimento negro, o movimento feminista, o movimento das gordas, dos autistas, e de trilhões de outros arranjos identitários apenas surgem nas brechas de um mundo desencantado, em um mundo onde critérios não são mais místicos, mágicos, transcendentes, mas sim precários, ou seja, humano demasiado humano.


Referência da imagem:

https://www.esquerdadiario.com.br/Poesias-TRANS-A-arte-da-resistencia-I

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