QUANTOS TIPOS DE FEMINISMO VOCÊ CONHECE?




Ao ouvir uma palavra aleatória, como Casa e Árvore, qual sua reação imediata? Provavelmente você associa esses ruídos sonoros com um certo significado de fundo. Da mesma forma, se eu escuto palavras como feminismo ou mulher, também as conecto com algum tipo de pacotinho semiótico, quase sempre guardado nas profundezas da minha memória ou nos limites da minha própria experiência. Esse vínculo entre corpo e linguagem, entre suor e escrita, é meio que inevitável, até mesmo necessário. O problema começa quando minha experiência se confunde com o mundo de uma forma imediata, sólida, como se não tivessem brechas. Nesse cenário, o mundo se torna uma extensão de minhas cadeias associativas, nada mais do que uma brincadeira narcisista que não reconhece na linguagem nada além de si mesmo.


O grupo “feminilidadecristabrasil”, no instagram, publicou no dia 06 de março uma postagem (logo abaixo) criticando o que chamou de “feminismo”, ao mesmo tempo que sugeria uma interpretação “cristã” do mesmo assunto. Ao colocar todas as feministas em um único pacote, o post não compreende sua diversidade, assim como perde até mesmo a chance de fazer críticas mais construtivas e eficazes. Esse tipo de simplificação pode ser encontrada até mesmo na própria esquerda, principalmente aquela que navega por programas de TV e filmes hollywoodianos, a tão conhecida esquerda liberal. O mundo é apresentado como se existissem apenas dois grandes blocos de ideias e nada mais: Segundo a direita temos Feministas X Cristianismo e segundo a esquerda temos a clássica batalha entre Feministas X Machistas. Apesar das diferenças, ambas as vertentes compram uma estrutura dual, uma bifurcação, apenas alterando predicados e contornos provisórios. Seria essa a única forma de compreender o jogo político?


No campo dos estudos de gênero, envolvendo aqui suas pesquisas, análises e publicações, é muito óbvio que o feminismo não é um conceito, uma ideia, muito menos um significante que indica um significado inevitável, mas um campo complexo e imenso de estudos, premissas e reflexões. O pragmatismo da vida cotidiana, e da própria política de certa forma, quase sempre esquece desse horizonte mais complexo, descentrado, instrumentalizando ao mesmo tempo tudo o que encontra pelo caminho, principalmente em momentos de crise. Embora esse gesto simplificador seja natural, e até necessário, existem custos enormes quando a única linguagem disponível em nosso repertório é a pragmática, esquecendo de incluir outras modalidades linguísticas, como aquela do próprio universo científico e de pesquisa.


Na tentativa de superar as limitações de um excesso de pragmatismo no jogo político, assim como no próprio campo acadêmico, vamos iniciar nova investigação com a postagem feita pela página “feminilidadecristabrasil”:


Maldito feminismo que mente descaradamente para todas as mulheres insistindo na insanidade que somos oprimidas ou subestimadas quando nos dizerem que nosso lugar é no lar. Nosso lar não é prisão, é nosso forte. Nosso lar é nosso abrigo, é nossa torre. Quando eu vejo o que meu marido passa lá fora, e o que todos os homens bons passam por suas famílias, eu tenho mais certeza do quanto eles verdadeiramente amam suas mulheres as guardando em casa, em segurança com seus filhos. Obrigada por nos pouparem.

De forma hipotética, e até ficcional, aqui seguem possíveis respostas de diferentes tipos de feminismo. Como cada uma delas responderia ao post? Ao observar sua diversidade de respostas, e até as premissas filosóficas de fundo, vai ficar claro o quanto a complexidade pode ser vantajosa quando o objetivo é produzir pontes, diálogos, ao invés de abismos e ressentimentos. Vamos às respostas...


Resposta da feminista liberal: "Essa mulher do post está completamente presa por um jogo institucional que a ultrapassa. Pobre coitada... presa pelas instituições da família e da religião, sem ter nem espaço para respirar. Não consegue refletir por conta própria, não consegue ter autonomia, não consegue ser um indivíduo livre e emancipado. Por isso, precisamos esclarecer essa mulher o mais rápido possível, libertando sua singularidade das garras institucionais que estabelecem padrões opressores e hierarquicos"

Resposta da feminista negra: "Espaços institucionais como a família e a religião, ou seja, espaços coletivos de convivência, são locais realmente emancipadores. Por isso discordo da minha colega feminista liberal quando sugere o indivíduo como um espaço nobre e sólido, enquanto instituições são consideradas apenas como mentirosas e violentas. Mas, diferente do post, não concordo com o fato de termos sido poupadas, já que o espaço público também deve ser nosso por direito. A mulher do post está parcialmente certa ao compreender a religião e a família, ou seja, a comunidade e um certo senso de interdependência, como elementos de força, mas errada no desenrolar do raciocínio"


Resposta da feminista dialética: "Pobre coitada, ainda está presa em uma divisão de trabalho desigual que nem sequer reconhece suas contribuições no universo capitalista. Esse trabalho doméstico não remunerado apenas reforça a exploração doentia do capitalismo sobre as mulheres, sendo que o desejo de reproduzir esse mesmo trabalho é um simples sintoma ideológico e nada mais. Também discordo da minha colega feminista liberal, principalmente pelo fato de seu "indivíduo emancipado" ser apenas uma versão neoliberalizante do discurso burguês"

Resposta da feminista queer: "essa mulher está performando muito bem o papel da mãe e da doméstica. Não tem nada de errado com isso, já que tudo é performance e encontros provisórios e linguísticos, mas existem outras performatividades que poderiam ser consideradas. Isso significa que eu discordo da minha colega feminista liberal... Não existe nada a ser emancipado, nenhuma essência a ser libertada, a não ser um trabalho performático e criativo. Também discordo da minha colega feminista dialética, e sua tentativa de ver o capitalismo como um tipo de substância que estrutura o universo como um todo".


Resposta da feminista trans: "Embora eu concorde bastante com minha colega feminista queer sobre a postagem feita, eu acredito que ela exagera um pouco nas conclusões do argumento. Essa história de que tudo é construído não apenas é muito forçado, mas até opressivo quando se trata de corpos trans. Eu, por exemplo, não me sinto em um trabalho performático constante. Muito pelo contrário... eu me sinto como se tivesse libertado algo durante muito tempo adormecido, algo de especial dentro de mim apenas aguardando as condições sociais certas para aparecer. Vocês podem me chamar de essencialista, eu sei, mas não me importo"


Resposta da feminista nova materialista: "essa mulher do post está muito centrada na ideia de uma divisão entre natureza e cultura, onde ela ocuparia um papel básico e harmônico de defensora do que é natural. Por isso, ela esquece que seu corpo também é uma rede de humanos, animais e objetos que fazem parte do seu dia a dia. Em outras palavras, não existe a separação de fora (o mundo da cultura) e dentro (o mundo das necessidades imediatas e harmônicas). Por isso discordo também da minha colega feminista queer e seu construtivismo social exagerado. Soa como algo muito relativista, na minha opinião"


Resposta da feminista pós-identitária: "Essa mulher leva muito a sério o papel que representa. Ela precisa entender que é mais do que rótulos e definições, muito mais do que linguagem. Por isso também discordo da minha colega feminista liberal e dialética, quando tornam certas categorias partes fundamentais da realidade, ao invés de simples ferramentas provisórias"


Diante dessas falas, é possível perceber que o feminismo não é um conceito, muito menos um pacote harmônico de ideias, mas um campo complexo e rico de investigação, envolvendo tradições filosóficas diversas como a dialética, o pós-estruturalismo, o pragmatismo, a fenomenologia, etc. Claro que do ponto de vista político é normal pensar em termos amplos, genéricos, da mesma forma que existem grupos como “Movimento negro” ou “movimento LGBTQIA+”. Quando usamos uma linguagem pragmática, mais direcionada, faz sentido essas simplificações, mas quando pensamos dentro das ciências humanas e sociais, ou seja, quando usamos uma linguagem epistêmica, de pesquisa, as coisas são mais complexas do que parece. Por esse motivo a ciência é tão atacada, tanto pela direita quanto pela própria esquerda, já que ela é sempre lenta, complexa, envolvendo altos e baixos, testes, comparações, analises, ou seja, uma série de procedimentos incompatíveis com a demanda conveniente e conservadora do nosso campo experiencial.


Referência da Imagem:


https://claudia.abril.com.br/sua-vida/feminismo-diferentes-visoes-luta-igualdade-direitos/

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