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FORÇA E PUDOR: PELOURINHO COMO RESISTÊNCIA E ATRATIVO.




Quem chega aqui em Salvador para visitar nossa cidade, já sabe que uma passada no Pelourinho, tombado pela UNESCO, é “de lei”. Principal cartão postal da nossa terra, aprendemos desde cedo que era um local onde o sistema escravocrata realizava suas sevicias e torturas em praça pública. Jorge Amado retratou suas belezas arquitetônicas em vários de seus belos romances e foi palco principal do sucesso cinematográfico “Opaió”. No carnaval, vira circuito (Batatinha). Ocorre por lá também a feira literária Flipelô. Se você aparecer lá qualquer horário, é capaz de estar acontecendo algum evento que você nem sabia, porque se passou.


Durante os anos 1970 e 1980 o local estava bem abandonado, mal iluminado, e boa parte de seus moradores marginalizados. É o que retrata várias músicas do cancioneiro baiano do período. Com o surgimento do bloco afro Olodum isso ficou bem evidente. Começa um processo de luta e reconhecimento de uma pequena comunidade que o Olodum unira em laços de confraternidade. Um movimento artístico em seus casarões, enriqueceu nossa musicalidade com grandes clássicos regionais que transcenderam as fronteiras. A partir de então, o carnaval baiano foi se turistizando, e aí começaram a perda de referenciais de luta, gerando uma total festividade “abadada”


Em 1991, ações de urbanização do então governo do Estado proporcionou uma reviravolta e o Pelourinho ganhou destaque, atração de investimentos, e trouxe uma vida comercial ao local. Até o Olodum foi na onda e mudou as características de protesto e ficou hippie, pop, reggae, e rock. Pirou de vez. De fato, os soteropolitanos, que nunca foram lá muito frequentadores antes disso, passaram a ver o Pelô como novo point. O projeto “Pelourinho Dia e Noite” levou muito espetáculo pra lá.


Eu estudava no CEFET (hoje IFBA) lá pelo início dos anos 2000 e quase toda semana estava lá. Assisti “1,99” de Ricardo Castro, vi shows do Olodum, peças de Renato Piaba, saraus, batucadas, comi muito caruru no Teatro XVIII, tudo 0800. Foi um período efervescente do local. A questão é que os antigos moradores de lá foram remanejados para outros locais da cidade, ou seja, toda esse regabofe cultural foi um claro processo de gentrificação. Cobriu um santo e descobriu um monte.


De uns quinze anos pra cá, houve uma parada dessa festança e aos poucos os programas culturais foram sumindo. Isso não aconteceu apenas no Pelourinho. Outros equipamentos culturais foram sendo sucateados. O Museu de Arte Moderna, no Solar do Unhão, também apresentou problemas de manutenção. Digo isso porque era outro local que frequentava, muito coquetel e vernissage rolava por lá e de repente... O indicativo é que com a mudança de governo (do carlista pro petista) houve claramente uma freada em muitos projetos que aconteciam. O Pelourinho então, ficou esvaziado por uma época, muito provavelmente pela carência de atrativos, como ocorria. A famosa Benção, na terça-feira, tá bem fraquinha. Ainda assim, a fama do lugar não permitiria tal submersão. A imersão, nem Osiris sabe como aconteceu.


Em verdade, de uns tempos pra cá a violência se apossou de lá, assim como em toda Salvador. O Pelourinho não está numa redoma, apartado da cidade, e sofre as consequências da insegurança pública que vem nos cercando há anos. Muitos relatos de furtos, agressões, assaltos, acompanhados de fechamentos de lugares tradicionais, como o restaurante Alaíde do Feijão e a Praça do Reggae, que contribuíram para esvaziamento de muitas ruas. Quando passo por lá, a sensação é que não há nada de novo. Virou lugar pra turista. A impressão de descuido também é grande. Uma parte da Igreja de São Francisco ameaça cair e ao invés de procedimentos para corrigir a avaria, colocaram um tapume de alumínio pra ninguém passar, deformando um importante trecho de movimentação. Vexame.


O local onde os negros eram castigados já passou por muita coisa e ainda é referência para muitos. Porém, não precisa sofrer tamanho castigo, gerado pela total falta de politicas publicas a qual estamos acostumados a ver.


Já fui, Banda Mel!





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