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GENTILEZA E ACEITAÇÃO: os novos heróis do sujeito contemporâneo



No mesmo fim de semana, assisti dois filmes com propostas muito diferentes, mas que se assemelham na escolha da figura do herói da narrativa, que, além de sair do lugar do protagonista, apresentou nuances que revelam características do pensamento do sujeito contemporâneo frente os desafios de relacionamento e seus conflitos inevitáveis.


O primeiro foi o “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, dos diretores Daniel Scheinert e Daniel Kwan. O filme apresenta uma complexa trama sobre a existência de multiversos e a relação de uma mulher simples e ordinária que é colocada na posição de salvadora de toda existência do universo. Recheado de efeitos especiais e muitos confrontos únicos e invariavelmente cômicos, a história encontra seu desfecho na figura do seu marido (que quase se torna ex), um homem simples, bondoso, gentil e otimista - que lhe dava nos nervos ao longo de toda narrativa. Porém, foi o exemplo dele que abriu os olhos da protagonista para adotar novas opções frente a batalha que estava prestes a deflagrar.


Esse “reencontro” dela com o marido e uma nova admiração pela sua postura, enlaça um novo arco na história e entrega a sujeita o caminho da gentileza e empatia para enfrentar os inimigos à sua frente. Mais ainda, ela descobre que as pessoas que batalhavam contra também tinham suas dores, seus desejos, seus vazios e pequenos movimentos dela poderiam ser capazes de curar essas almas. No final, ela descobre o seu próprio caminho de cura, que lhe exigiria aceitar as diferenças e incômodos do outro, especialmente aqueles em que depositamos nossas maiores expectativas como nossos companheiros/ras e pessoas da família.


O segundo filme foi o Gato de Botas 2, dirigido por Joel Crawford e produzido pela DreamWorks Animation, aclamado desde sua primeira produção. Nessa continuação, o enredo escolhe apresentar as vulnerabilidades do seu personagem principal, lhe tirando o que mais o torna ele mesmo: o destemor. Vemos o herói-gato, devido a uma circunstância específica, se assustar com a possibilidade da morte. De fato, ao encarar essa faceta não corajosa, o animal desiste da sua persona e entra em estado depressivo, saindo desse lugar apenas quando surge a oportunidade de mudar esse cenário através de um encanto mágico.


No caminho para essa conquista, ele encontra um cachorro mulambento e machucado, que deixa claro que foi abandonado até a morte, porém, mantém uma contínua postura de otimismo com a vida, por enxergar prazer e alegria nas pequenas coisas. Como a mulher do filme citado anteriormente, o Gato de Botas, inicialmente, demonstra sinais de irritação por essa figura e certa incredulidade sobre seu jeito. Novamente, vejo nas telas a mesma premissa do filme visto no dia anterior: muitas batalhas e embates acontecendo, o pequeno cachorro ensinando não só ao gato, mas a todos os personagens que poderia existir um novo caminho que não fosse a disputa e a guerra.


O exemplo do cachorro faz o protagonista da história mudar sua perspectiva sobre a vida e seus desejos de fama e glória. Ele aceita suas fragilidades e seus medos dotado da coragem que cabe a quem aceita-se por completo, com todos os defeitos e qualidades. Essa inspiração respinga nos outros personagens e todos, de alguma forma, entendem e buscam diferenciar entre desejo e necessidade, se dando conta que a felicidade acontece nas coisas mais simples e no foco em agradecer pelo o que temos, antes de pensarmos em situações aparentemente melhores.


No final das duas películas, percebi como esses dois personagens, o marido e o cachorro, apresentam similaridades de atitude e visão sobre a vida, ganhando o papel de verdadeiros heróis da narrativa, porém, dada a sua personalidade, sem ganhar os créditos para tal. Eles passam pela vida das pessoas, influenciam seus pensamentos e comportamentos e celebram juntos quando as coisas se acertam. Sem serem protagonistas, eles alicerçam toda a história e deixam essa lição sobre vulnerabilidade, gentileza e aceitação.


Não acho que foi à toa a condução dos filmes para esse lugar. Com a intensidade que temos entrado em combate por conta das diferenças de pensamentos, as bolhas infladas de emoção das redes sociais e a força dos algoritmos em aumentar discursos e estereótipos, estamos buscando reencontrar nosso lado humano e tocarmos no lugar das fragilidades com mais compaixão. Há uma necessidade de falar mais sobre aceitar si mesmo, não apenas para validar a identidade de um grupo, mas no desejo de lidar com as vulnerabilidades com mais coragem e amor-próprio.


O cenário prevalecente de consumo, com excesso de produtos e informações que estamos expostos também impele o sujeito contemporâneo ao desejo pela simplicidade, por reencontrar no lugar das pequenas experiências todo o prazer da existência, sendo feito com total consciência e plenitude e sem necessidade de ganhar seguidores ou chamar atenção.


Enfim, fiquei impressionada com as duas obras de cinema, de gêneros tão únicos e com intenções de narrativa tão particulares, conseguiram apresentar essa ligação. Acho que isso revela como nós, no sentido de humanidade que se agrega, se acolhe e se aconselha, está em busca de um novo caminho sobre a vida e os eventos de embate que fazem parte dela.


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