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INDIVÍDUO, ESTADO E DEMOCRACIA





“Todo poder emana do cano de uma arma', diz deputada bolsonarista”. Deputada federal, Júlia Zanata (PL- SC)[1]


A.Rangel: Olha o que a deputada falou, Thiago.


Thiago Pinho: Em um Estado falido, se as instituições não funcionam, vai o indivíduo mesmo.


A.Rangel: Zanatta é o reflexo disso também. Mas acredito que no capitalismo e na democracia liberal instituições estão sempre respirando por aparelhos. É utopia esperar escapar disso.


Thiago Pinho: É.


A.Rangel: Sempre há buracos para tapar buracos. Acho que há mais buracos abertos do que tapados.


A. Rangel: Então o indivíduo é uma nova instituição.


Thiago Pinho: Sim, Sim. Já que todas as outras decepcionam... Por isso esquerda e direita se aproximam muito hoje, embora não pareça.


A.Rangel: O que fazer? Não querem manter capitalismo e democracia liberal? A gente fica toda hora tapando algum buraco... Isso é um alto custo.


A.Rangel: Inclusive, porque a democracia liberal é o reino das infinitas demandas. Apesar de tudo, acredito que ainda seja o melhor dos piores regimes. Só que investimento existencial é bastante elevado.


A.Rangel: Falando do Estado. Qual Estado vai aplicar políticas públicas para tudo e para todos? Isso é impossível! Nenhum Estado dá conta de tantas demandas. Ele seleciona. Escolhe as prioridades, decide quem e o que é e quem é mais importante. Depende dos interesses envolvidos, dos conflitos de grupos e classes e subclasses, das diferentes relações de poder, dos custos e ganhos políticos, eleitorais e financeiros.


A.Rangel: E para os injustiçados do sistema, o que resta? Um apelo para Deus, para a luta política ou mesmo para si próprio (daí o indivíduo como Instituição).


Thiago Pinho: É. A gente saiu de sociedades com 1.000, 10.000, 100.000 pessoas para sociedades com milhões de pessoas. É muito demanda mesmo. O mundo ficou complexo demais.


A.Rangel: E esses demandas são permitidas na Democracia, porque tudo é acolhido e publicizado atualmente. A chamada liberdade de expressão que serve para tudo.


Thiago Pinho: Por isso a gente tenta moralizar o debate, para ver se simplifica mais as coisas.


A.Rangel: Não é como um Estado autoritário, por exemplo, em que se controla os interesses da população.


Thiago Pinho: É complexo...


A.Rangel: Toda hora tem demanda. A democracia é complicada. Se tudo é aceito para ser discutido e demandado...não há fim. É um regime sempre imperfeito. É uma de suas naturezas. E nenhum governo pode resolver isso, seja de direita ou esquerda.


Thiago Pinho: Depois reclamam que o povo está ansioso, com depressão. Isso é o efeito do regime no corpo. E até do modo de produção convertido no corpo.


A.Rangel: Inclusive porque no nosso regime ninguém tá contente. A Democracia é o reino do descontentamento incontrolável e dos desejos infindáveis.


Thiago Pinho: E aí entra o populismo como um remédio imediato em meio a tanta complexidade.


A.Rangel: Porque o populismo limita as escolhas das pessoas e os caminhos da vida coletiva.


Thiago Pinho: É. Eu lembro no começo da pandemia (quem era a favor do Lockdown =bem, quem entra contra=mal). Aí fica fácil a digestão: É tipo um eno. Você não precisa lidar com os efeitos da feijoada. Só basta tomar um antiácido e mascarar as coisas. E quanto mais pesada a feijoada, mais de antiácido você precisa.


A.Rangel: Sim.


A.Rangel: Vivemos também num mundo infeliz: pessoas e grupos estão insatisfeitas com tudo. Por isso que o Estado não consegue dar conta.


Thiago Pinho: Não à toa olhamos para os povos tradicionais em busca de uma saída. Às vezes nostálgica. Às vezes acho que o povo gosta de estar insatisfeito. Não parece ser só um obstáculo, um inconveniente. O povo gosta de resistir, não importa o fundamento da resistência.


A.Rangel: Vivemos o mundo de confusão, de descontentamento infindável e de narrativas.


A.Rangel: É o que restou. Precisamos enfrentar isso.


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[1] https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2023/07/24/todo-poder-emana-do-cano-de-uma-arma-diz-deputada-bolsonarista.htm

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
25 de jul. de 2023

Um bom papo,que traz reflexões e anseios. As instituições perderam-se no afã político,e o indivíduo assume papel institucional. É isso mesmo.

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