Inteligência Artificial (IA) e suas consequências




* Por Marcos Antônio Marques


A ideia por trás da inteligência artificial é de que os agentes inteligentes (que podem ser robôs ou programa computacionais) podem fazer muito mais que trabalhos “mecânicos”, pois com uma boa programação, a máquina tem mais potencialidade do que se imagina e pode, inclusive, tentar “pensar” como um ser humano pensaria, afinal de contas, quem constrói essa inteligência algorítmica já o faz pensando nessas questões.


Como enfatiza a pesquisadora Christiana Freitas: a inteligência artificial nasce da intersecção da ciência da computação e das ciências cognitivas. Durante seu desenvolvimento, ficou claro que o conhecimento de outras áreas começou a integrar, influenciar e analisar a IA e a programação. Este é o caso da neurologia, linguística, ciências sociais e muitas outras disciplinas.


Um bom filme para tentar ilustrar o surgimento da ideia que paira acima da inteligência artificial é a do extraordinário Alan Turing (1912-1954), matemático/filósofo/biólogo/cientista da computação inglês que, graças à programação, conseguiu decodificar códigos (quebrar cifras) e antecipar-se aos ataques alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Foi um marco na ciência da computação e certamente foi um passo importante para o forte empreendimento na construção de algoritmos inteligentes. Até agora, o filme está disponível na HBO Max e o título é "O Jogo da Imitação".


Conforme comentado pelo prof. Dr. Silvio do Lago Pereira, definir o que é "inteligência" já é uma tarefa difícil e às vezes imprecisa, o que torna ainda mais difícil definir o que é "inteligência artificial". Em conclusão, tentando encontrar uma definição minimalista, podemos dizer que se Inteligência é definida como a capacidade de resolver novos problemas de forma rápida e eficiente, o que é uma explicação psicológica, então Inteligência Artificial pode ser definida como sistemas que pensam e agem como seres humanos e/ou logicamente.


Essa definição inicial serve apenas para nos dar uma ideia do que é o objeto sobre o qual estamos falando, afinal, não é difícil imaginar quanta discussão isso gera e vai continuar gerando, porém, mais do que uma definição rigorosa do que é Inteligência e, posteriormente, do que é inteligência artificial, é importante entender qual definição foi central para a construção desses novos agentes.


A programação desempenha um papel central nisso. Podemos entender de forma grosseira, mas eficaz, a programação como uma maneira de se comunicar com a máquina. Normalmente nós, leigos (as) no assunto, não nos comunicamos diretamente com as máquinas, precisamos de um tradutor, que é um software, esse tradutor é o que nos permite dar comandos para as máquinas de uma forma mais simples. Para a criação deste software e para a construção de máquinas ou programas, é necessário ter noções de programação, pois programação é o que vai atribuir à unidade computacional a capacidade de realizar determinadas funções, é essa sequência de comandos que permite “a mágica" acontecer. Dentro da discussão sobre programação ainda existem várias subdivisões, a subdivisão entre Inteligência Artificial Tradicional e Aprendizado de Máquina é a mais evidente, mas deixaremos essa discussão para outro momento. O que nos interessa saber aqui é compreender que falar de Inteligência Artificial é falar de Programação e este tem sido um ramo de mercado que carece muito de profissionais, programadores (as), e estes (as) estão ganhando muito dinheiro devido à alta demanda e complexidade da ocupação.


A introdução da Inteligência Artificial e da Programação no mundo do trabalho tem gerado grande debate. A principal crítica é quanto ao deslocamento, pois há troca de pessoas que são substituídas por máquinas e programas. É uma crítica pertinente porque vai de encontro à teoria marxista que diz que os (as) empresários (as) sempre que possível optarão por trocar "trabalho vivo" por "trabalho morto", ou seja, pessoas que precisam de remuneração por máquinas que não precisam do mesmo tipo de “gasto” a longo prazo.


Além da economia, em muitos casos é vantajoso para os (as) empresários (as) começarem a substituir pessoas por máquinas/programas, pois, máquinas e programas, têm se mostrado capazes de aumentar muito a produtividade e a precisão sobre esse grande número de produções, principalmente quando observamos para o mercado da forma que se encontra hoje, em que se pede produção em massa e, paradoxalmente, mais personalizações.


Para lidar com esse problema do desemprego estrutural, o desafio dado às nações é que invistam na formação de profissionais, para que não se tornem obsoletos para o mercado capitalista. Esse desafio gera grandes discussões porque sabemos que para os países mais empobrecidos haverá mais subordinação, empregos precários e desemprego. No caso da programação, por exemplo, é uma necessidade global e os países que mais investem nessa formação ainda não o fazem de acordo com o número necessário de profissionais, imagine os países mais pobres que não têm muitos investimentos para a capacitação e sem falar no investimento necessário para o desenvolvimento tecnológico do país. É uma bola de neve sem fim, mas não tem como fugir dessa discussão e desses problemas, pois isso não é uma necessidade do futuro, já faz parte do nosso presente.


Pesquisadores (as) e formuladores (as) de políticas públicas estão se dedicando a essa discussão de desemprego estrutural, que tendem a intensificar com sob a influência das inovações da inteligência artificial e programação, na tentativa de antecipar problemas e apresentar soluções, mas parece ser consenso na literatura que esse é um mal da qual dificilmente conseguiremos escapar, pois mesmo que novos empregos sejam criados, estes não chegaram perto do número de empregos que se tornaram obsoletos (essa discussão merece um desenvolvimento melhor e pretendo fazer isso daqui a um tempo, mas conecta com o post anterior, sobre uberização).


A inteligência artificial e a programação fazem parte de um campo cada vez mais pesquisado, utilizado e aprimorado em larga escala por diferentes disciplinas. Em relação ao mercado de trabalho, aponta-se que há carência de profissionais que atendam a esses novos pré-requisitos e isso tem sido benéfico para os (as) poucos (as) profissionais que possuem essas competências e que possuem salários bem satisfatórios. Infelizmente, as desigualdades também se revelam e se aprofundam com as novas exigências do mercado capitalista e isso tem gerado a discussão sobre o desemprego estrutural que será mais evidente nos países empobrecidos e é esperado que essas desigualdades se aprofundem ainda mais.


Como sabemos, existem vários usos da IA ​​e programação em diferentes tipos de mercado: medicina (auxiliar robôs em cirurgia); empresas (inteligência algorítmica auxiliando na gestão e controle); indústrias (principalmente em indústrias de produção em série); jogos e mercado de games e até mesmo em pesquisas acadêmicas e de mercado (que passam a lidar mais facilmente com muitos dados e até na identificação de padrões e relações de teorias que contam com um número grande de pesquisas). Fique atento (a) aos próximos posts aqui, vou me aprofundar nesses exemplos de aplicação de IA e programação nessas áreas mais tradicionais.


Link da imagem: https://www.sulinformacao.pt/2018/12/vem-ai-a-inteligencia-artificial/


*Marcos Antônio Marques

Bacharel em Ciências Sociais (UFPI)

CV: http://lattes.cnpq.br/8583230916817216

Linkedin: www.linkedin.com/in/marcosantoniomarques


Referências e indicações de leituras:


FREITAS, C. A Inteligência Artificial e os desafios às Ciências Sociais. SOCIEDADE E CULTURA, V. 7, N. 1, JAN./JUN. 2004, P. 107-121. Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/fcs/article/view/928/1175.


GOMES, D. S. dos. Inteligência Artificial: Conceitos e Aplicações. Revista Olhar Científico – Faculdades Associadas de Ariquemes – V. 01, n.2, Ago./Dez. 2010. Disponível em: https://www.professores.uff.br/screspo/wp-content/uploads/sites/127/2017/09/ia_intro.pdf.


PEREIRA, S. L. do. Introdução à Inteligência Artificial. USP. Disponível em: https://www.ime.usp.br/~slago/IA-introducao.pdf.


SIVIDANES, F. P. de. Inovação, Inteligência Artificial e Mercado de Trabalho. Monografia (Graduação em Ciências Econômicas) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2020. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/218381/INOVACAO-EMPREGO-IA-11-12-2020_assinado.pdf?sequence=1&isAllowed=y.


VIER, T. O uso da Inteligência Artificial nas ciências sociais: o caso do patriotismo dos brasileiros. Tese (Doutorado em Ciência Política) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/213401/001117282.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

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