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JÁ PASSAM DAS DEZ



* Por Polly Moraes


Acordei mais cedo do que deveria. Hoje seria um daqueles dias que eu te acordaria com beijinhos no rosto e você, sem esperar, se assustaria. “Sai daqui! Me deixa dormir! Quando você está dormindo eu não faço isso!”, você diria. Acostumada com a afetividade matinal, você me perguntaria que horas são. Eu mentiria, dizendo que já passam das dez, na esperança de que você acordasse e me fizesse companhia. Mal sabia que essa informação não afetaria, de maneira alguma, sua vontade de permanecer na cama.


Todos os dias eu acordo pensando em você, Jota A. Pensando que eu poderia te contar diversos acontecimentos recentes. Minha vida é uma baita novela. Todos os dias tem uma nova fofoca para contar e, buscando brechas entre amizades e familiares, eu verbalizo os fatos. Mas o problema é que ninguém me entende como você. Todos têm a mania de julgar minhas perspectivas de mundo. Você não o faria.


Se eu te contasse que Betê se ofereceu para passar o feriado prolongado comigo aqui, você acreditaria? Ele disse que não passava de uma ideia. Acontece que eu estou muito bem com BRD. Betê teve oportunidades mais do que suficientes de me ter. Ele não quis. Por que agora ele me procura? É engraçado perceber que talvez eu valha a pena. Ao contar isso para meu pai, ele disse que eu seria suja se ficasse com Betê. Mas em momento nenhum isso perpassou por minha mente. Jamais o faria. Jota A, eu estou apaixonada por BRD.


Há momentos que ele aciona meus gatilhos de afastamento. Mas talvez eles ainda estejam atrelados às minhas cicatrizes, não é? Estamos acostumadas a tentar cicatrizar situações do passado utilizando da presença do outro no agora. Mas as coisas não funcionam assim, Jota A. Eu quem preciso lidar com meus traumas. BRD nem ao menos precisaria saber o que está passando na minha cabeça, visto que eu não tenho interesse que ele saiba que estou insegura. Mas será que isso não é uma fagulha depressiva? “Não quero preocupar ninguém”, eu penso. Mas minha terapeuta concorda quando eu verbalizo sentimentos.


Hoje eu pus uma coleira em Salada. Você deve imaginar o que isso significa. Adotei mais um gato. Agora são três. Batata, Farofa e Salada. Mainha me perguntou com indignação o motivo de eu batizar meus animais de estimação com nomes de comida. Ah, Jota A, tem algo melhor do que batata (que pode ser feita de qualquer maneira e fica sensacional); farofa de dendê (sim, esse é o sobrenome de minha gata de seis anos); e salada tropical? bendito seja aquele que teve a ideia de misturar frutas e hortaliças.


Meus pesadelos melhoraram. Eu usei uma estratégia infantil e romantizada. Sempre que BRD dorme aqui, ele me abraça e eu me sinto protegida. Essa semana ele veio e, ao sair cedo para uma reunião de trabalho, esqueceu uma camisa cinza. Na verdade, é meio grafite. Independente de sua cor, a camisa carrega o cheiro de BRD. Durante um acesso de choro, eu achei a camisa embaixo de meu travesseiro. Ao sentir o cheiro dele, eu me senti protegida. Como se ele estivesse aqui. Como se ele estivesse me abraçando e dizendo que está tudo bem, sem nem ao menos precisar saber do contexto, sem nem ao menos precisar saber que eu estou derramando mais lágrimas por você, Jota A.


E foi a primeira vez que eu dormi bem e sozinha desde 2019. Me senti constrangida ao perceber essa estratégia. Como eu vou pedir para ele deixar uma camisa aqui sempre que vier? O cheiro dessa está se esvaindo. Imagina o quão ridículo seria eu verbalizando isso: "BRD, eu preciso de uma camisa sua aqui.” Obviamente ele perguntará o motivo. “Ah, é por que eu durmo sentindo seu cheiro para me sentir protegida”. Que patético.


Mas tem sido muito eficaz. Nas últimas noites eu sonhei com unicórnios, encontros familiares sem atrito, com atitudes pessoais de coragem e sorvete. Fazia muito tempo que eu não sonhava comigo mesma em uma situação onde eu estivesse ativa, Jota A. Todos os meus sonhos estavam atrelados ao medo de me sentir incapaz de resolver situações simples. Eu sempre estava dormindo nos meus sonhos. Eu sabia o que estava acontecendo, tinha consciência da situação, mas não conseguia falar, me mexer ou lidar com aquilo.


Foram meses de tortura onde eu sabia que se eu dormisse, isso aconteceria. Eu seria incapaz de lidar com meu próprio subconsciente. Quando eu era mais nova, eu tinha a autonomia de escolher o que iria sonhar. Eu tinha o controle de minha mente, Jota A, como se fosse um controle remoto. A cada piscadela, o canal mudava. Era como se eu tivesse a autoridade de controlar tudo que eu pensava e sentia. Eu podia escolher o repertório dos meus próprios sonhos. Eu era minha própria diretora subconsciente. Mas isso mudou. E eu sinto saber exatamente quando isso aconteceu.


Eu fui demitida de minha própria mente, Jota A. Quando eu passei a ter apenas pensamentos pessimistas. Quando eu já não sentia vontade de acordar. Parece até que meus divertidamentes quiseram me proteger de mim mesma. Você já assistiu divertidamente? Ah, sim. Você assistiu comigo. É a minha animação preferida da Pixar. Eu imagino o diálogo deles. A felicidade tomou as rédeas e disse à tristeza: “Ela não pode ter sonhos bons”. Sabemos, como bons cinéfilos, que no filme, os medos da protagonista precisam vir à tona para que ela acorde assustada. E foi assim todas as vezes comigo. Eu precisei perder o controle para sentir vontade de acordar, de tornar a realidade mais confortável que meus sonhos.


É isso que eu tenho feito nos últimos anos, Jota A. Tentado tornar a realidade mais confortável que meus sonhos. Acontece que com nosso afastamento, é muito fácil igualar sonhos com realidade. Eu me sinto incapaz de resolver o nosso atrito. Meus medos gritam inconscientemente para que eu tome uma atitude o mais rápido possível. Eu sonhei que você estava morrendo. E você sabia que aconteceria, mas não me contava justamente por nós não estarmos nos falando. Quando eu ficava sabendo por terceiros, eu ia ao seu encontro, desesperada por uma resolução. Eu tenho medo de que você morra sem termos nos resolvido.


Durante esse processo, eu pensei em suicídio. Jota A, eu não tive coragem de verbalizar isso nem para minha terapeuta, que é uma das pessoas que eu mais confio no mundo. Eu pensei que se esse é meu medo, pode ser o seu também. Quando eu cheguei em casa ontem, depois de nossa ligação frustrante, sentei na varanda para fumar um cigarro e me segurei firmemente. Naquele momento, eu pensei no que aconteceria se eu caísse dalí. Eu saberia que não foi um acidente. Mas eu sobreviveria. E isso me tiraria liberdades como da última vez. Você sabe que o que eu mais prezo na vida é a minha liberdade.


Mas eu fico pensando o que você sentiria caso eu me suicidasse. Será que você sentiria responsabilidade? Será que você sentiria culpa mesmo que eu tenha lhe explicado que esse sentimento é tóxico? Será que você se arrependeria de ter guardado rancor da minha partida? Será que você acharia que se estivesse mais próxima de mim, isso poderia ter sido evitado? Será que você culparia meu pai por não ter tido cuidados o suficiente comigo? Isso me torna uma suicida em potencial?


Se eu o fizesse, Jota A, dessa vez eu teria certeza que não haveria volta. Que mesmo me levando para a emergência, mesmo me fazendo vomitar, mesmo me deixando na UTI, que nada, nada disso seria o suficiente para me trazer de volta. Eu trabalharia com afinco para garantir que ninguém soubesse do que estava passando na minha cabeça. Eu não verbalizaria isso para ninguém, Jota A, nem para minha terapeuta. Mas não se preocupe. Eu também não escreveria.


Com amor, Polly.


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*Polly Morares é Jornalista, comunicóloga e escritora. Instagram: @apollypur




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Gostei! não consegui parar de ler

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Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
Aug 17, 2023
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Texto extremamente pessoal e sincero

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Eder Silva
Eder Silva
Aug 17, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Texto bom, me surpreendeu

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Rated 5 out of 5 stars.

Desde muito nova, uma cativante escritora ✍️, como eu entro no personagem tomei vários sustos kkkk e no final eu me acalmo kkkk.

muito bom cara❤️

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