JOANA D'ARC AINDA DANÇA: O simbolismo político epsicológico de Joan on the Dance Floor, de Aly & AJ
- Nieissa Pereira

- 12 de jul.
- 6 min de leitura

A música popular sempre foi e continua sendo bem mais do que entretenimento. Em diferentes momentos da história, canções serviram como forma de resistência, denúncia, memória e transformação social. A arte possui a capacidade de condensar debates complexos em imagens, melodias e metáforas capazes de atravessar gerações. É justamente nesse espaço que se encontra Joan of Arc on the Dance Floor, da dupla norte-americana Aly & AJ.
Lançada em 2021, a música apresenta uma proposta aparentemente simples: transformar a pista de dança em um lugar de liberdade. Entretanto, seu videoclipe revela uma narrativa muito mais profunda. Ao aproximar a figura histórica de Joana d'Arc de imagens contemporâneas relacionadas ao julgamento público de mulheres que denunciam violência sexual, a obra estabelece um diálogo entre passado e presente, evidenciando que determinadas estruturas de poder permanecem surpreendentemente semelhantes, ainda que revestidas por novas linguagens.
Mais do que revisitar uma personagem histórica, as irmãs Aly & AJ demonstram como determinados símbolos continuam vivos. Joana d'Arc deixa de ser apenas uma heroína medieval para representar todas aquelas pessoas que desafiam instituições, enfrentam o descrédito e insistem em defender aquilo que consideram verdadeiro, mesmo diante de consequências pessoais devastadoras.
A trajetória de Joana d'Arc é uma das mais emblemáticas da história ocidental. Nascida em Domrémy, na França, no início do século XV, afirmava receber mensagens divinas que a orientavam a liderar tropas francesas durante a Guerra dos Cem Anos. Sua atuação militar modificou o curso do conflito e fortaleceu politicamente a monarquia francesa. Entretanto, sua ascensão também despertou interesses políticos e religiosos que culminaram em sua captura, julgamento e condenação por heresia.
Aos dezenove anos, Joana foi queimada viva. Seu julgamento, posteriormente reconhecido como marcado por graves irregularidades, foi anulado décadas depois. Em 1920, foi canonizada pela Igreja Católica, tornando-se símbolo universal de coragem, convicção e resistência.
É precisamente essa imagem que o videoclipe resgata.
Filmado em preto e branco, o vídeo faz referência direta ao clássico cinematográfico A Paixão de Joana d'Arc (1928), dirigido por Carl Theodor Dreyer. A fotografia austera, os closes intensos e a expressividade das protagonistas evocam a linguagem do filme, cuja força dramática reside justamente na exposição da dor humana diante do julgamento institucional.
A escolha estética não é casual.
O preto e branco elimina distrações visuais e concentra a atenção nas expressões faciais, aproximando o espectador da dimensão emocional da narrativa. Não há excesso de elementos cenográficos; existe apenas o confronto entre a vulnerabilidade individual e o peso das instituições.
Enquanto a música convida à dança, as imagens lembram que toda liberdade possui um custo.
Essa dualidade constitui o núcleo simbólico da obra. A pista de dança deixa de representar apenas diversão para assumir a função de espaço político. Dançar passa a significar existir sem medo, ocupar lugares historicamente negados e afirmar a própria identidade diante de uma sociedade que frequentemente exige silêncio, conformidade e submissão.
O aspecto mais impactante do videoclipe, contudo, encontra-se na inserção de imagens reais das audiências de confirmação do então indicado à Suprema Corte dos Estados Unidos, Brett Kavanaugh.
Em 2018, durante esse processo constitucional, a professora de psicologia Christine Blasey Ford compareceu ao Senado norte-americano para relatar, sob juramento, uma agressão sexual que afirmou ter sofrido décadas antes. Seu depoimento foi acompanhado ao vivo por milhões de pessoas e rapidamente ultrapassou os limites do ambiente jurídico para tornar-se um dos maiores debates públicos sobre violência sexual da história recente dos Estados Unidos.
Independentemente das interpretações políticas sobre o episódio, um aspecto tornou-se evidente: mulheres que denunciam violência frequentemente são submetidas a uma investigação social muito mais ampla do que os próprios fatos narrados. Analisa-se sua memória, sua vida pessoal, suas emoções, sua linguagem corporal e até mesmo suas motivações. A vítima, muitas vezes, transforma-se em objeto de julgamento.
É justamente nesse ponto que Joana d'Arc retorna como metáfora.
Separadas por quase seis séculos, Joana e Christine Blasey Ford compartilham uma experiência simbólica comum: ambas precisaram sustentar publicamente suas palavras diante de instituições profundamente mais poderosas do que elas.
Não se trata de afirmar que suas histórias sejam equivalentes, mas de reconhecer que determinadas dinâmicas sociais permanecem presentes ao longo do tempo. Mulheres que desafiam estruturas estabelecidas frequentemente enfrentam não apenas a necessidade de provar aquilo que afirmam, mas também de justificar por que decidiram falar.
Sob a perspectiva psicológica, esse fenômeno revela mecanismos bastante conhecidos.
O julgamento público produz intensa exposição emocional. A pessoa deixa de ser vista apenas como sujeito de direitos e passa a representar um caso, uma controvérsia ou uma disputa política. Sua identidade individual é parcialmente substituída por narrativas construídas socialmente.
Nesse contexto, a arte assume função terapêutica e política.
A dança, presente durante toda a música, pode ser compreendida como metáfora da reconstrução subjetiva. O corpo, frequentemente associado ao trauma, ao medo e à vigilância, converte-se em instrumento de liberdade. Movimentar-se torna-se uma forma de recuperar autonomia sobre si mesmo.
Essa leitura dialoga com diferentes perspectivas da psicologia contemporânea, segundo as quais experiências corporais desempenham papel relevante na elaboração emocional de vivências traumáticas. O corpo deixa de carregar apenas a memória da violência para também expressar resistência, criatividade e esperança.
Outro aspecto relevante encontra-se na escolha da própria Joana d'Arc como referência simbólica.
Ao longo da história, determinadas personagens ultrapassam o contexto em que viveram e passam a representar valores compartilhados por diferentes sociedades. Joana d'Arc é uma dessas figuras. Sua trajetória deixou de ser apenas um episódio da história francesa para tornar-se um símbolo da coragem, da resistência e da fidelidade às próprias convicções, mesmo diante da perseguição e da condenação. Sua imagem foi constantemente ressignificada pela literatura, pelo cinema, pela música e pelas artes em geral, demonstrando como certos personagens históricos permanecem vivos no imaginário coletivo.
É justamente essa dimensão simbólica que Aly & AJ exploram em Joan of Arc on the Dance Floor. A Joana apresentada pela música não pertence apenas ao século XV; ela representa todas as pessoas que enfrentam estruturas de poder para defender sua verdade. A heroína medieval deixa de empunhar uma espada para ocupar outros espaços de resistência, mostrando que a coragem pode manifestar-se de diferentes formas e em diferentes épocas.
Sua força não decorre da ausência de medo, mas da capacidade de continuar apesar dele e é exatamente essa mensagem que Aly & AJ transportam para a contemporaneidade.
Não existem armaduras no videoclipe. Não existem campos de batalha medievais. Existem mulheres comuns, instituições modernas e conflitos igualmente complexos. A espada é substituída pela voz; o tribunal eclesiástico, pelo julgamento da opinião pública; a fogueira, pela exposição permanente proporcionada pelos meios de comunicação e pelas redes sociais.
Essa atualização simbólica demonstra como determinados mecanismos de poder apenas modificam sua aparência histórica.
Ao mesmo tempo, o videoclipe também convida à esperança.
A dança rompe a lógica do sofrimento permanente. Mesmo abordando temas delicados, a música recusa transformar suas personagens exclusivamente em vítimas. Elas também celebram, criam, ocupam espaços e produzem beleza. Existe resistência, mas também existe alegria.
Talvez seja essa a principal inovação da obra.
Historicamente, narrativas sobre violência contra mulheres concentram-se quase exclusivamente na dor. Aly & AJ optam por enfatizar também a sobrevivência. A coragem não aparece apenas no enfrentamento do julgamento, mas igualmente na decisão de continuar vivendo plenamente.
Essa perspectiva aproxima-se das discussões contemporâneas sobre resiliência, autonomia e reconstrução da identidade após experiências adversas.
Ao final, o videoclipe nos lembra que Joana d'Arc jamais pertenceu exclusivamente ao século XV.
Ela reaparece sempre que alguém decide defender sua verdade diante da pressão institucional; sempre que uma mulher recusa o silêncio imposto pelo medo; sempre que a arte transforma sofrimento em possibilidade de diálogo.
É justamente por isso que Joan of Arc on the Dance Floor ultrapassa os limites da música pop. A obra transforma memória histórica em reflexão política, converte referências cinematográficas em crítica social e utiliza a linguagem artística para discutir temas profundamente atuais, como gênero, poder, credibilidade, justiça e dignidade humana.
Em uma sociedade marcada por disputas narrativas cada vez mais intensas, talvez a maior contribuição do videoclipe seja recordar que coragem não se manifesta apenas em grandes feitos heroicos. Muitas vezes, ela consiste simplesmente em permanecer fiel à própria voz quando todos esperam o silêncio.
Se Joana d'Arc enfrentou a fogueira para sustentar suas convicções, as Joanas do século XXI enfrentam tribunais, redes sociais, manchetes, comentários e julgamentos cotidianos. Seus cenários mudaram, mas o desafio permanece semelhante: continuar existindo sem abrir mão da própria verdade.
Enquanto houver pessoas dispostas a transformar vulnerabilidade em resistência e memória em esperança, Joana d'Arc continuará dançando.
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REFERÊNCIAS
ALY & AJ. Joan of Arc on the Dance Floor. Hollywood Records, 2021.
ALY & AJ. A Touch of the Beat Gets You Up on Your Feet Gets You Out and Then Into the Sun. Hollywood Records, 2021.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2020.
DREYER, Carl Theodor (Dir.). A Paixão de Joana d'Arc (La Passion de Jeanne d'Arc). França, 1928.
PERNOUD, Régine. Joana d'Arc: Sua História Contada por Régine Pernoud. Rio de Janeiro: Record.
Imagem retirada do banco de imagens Pexels.com

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