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JUSTIÇA SOBRE AS HORDAS DO INFERNO





* Por Antonio Danilo Santana



O bolsonarismo passou dos limites nesse início de 2023? Não, ele já havia passado dos limites desde que Jair Bolsonaro, à época deputado federal, clamou, nos longínquos anos 90, pelo fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Àquela época, o bolsonarismo não existia em grandes dimensões como hoje, obviamente, mas, no subconsciente coletivo de boa parte dos brasileiros, já constituía, ainda que esta boa parte não soubesse claramente, uma força reacionária contendo o que há de mais podre em nossa sociabilidade nacional.


A invasão das sedes dos três poderes no domingo, dia 8 de janeiro de 2023, certamente o maior ataque à nossa democracia desde a redemocratização, configura também a nossa maior vergonha nacional, e não somente por se tratar de um bando de tiozões e tiazonas do whatsapp, guiados por toneladas de fake news consumidas há anos, estuprando as sedes dos três poderes da República. A vergonha maior, em verdade, encontra-se no fato de esse show de horrores se dá como acúmulo de séculos de privilégios gozados por senhores brancos, endinheirados e intelectualmente medíocres, nossa elite rastaquera, a linha de frente dos bolsonaristas terroristas, uma elite que desde sempre se sente tão à vontade quando diante do braço armado do Estado brasileiro.


Nossas forças policiais são reacionárias até a medula. Isso vem desde os nossos tempos mais remotos, e, ao que parece, a não ser que haja uma revolução profunda em sua formação e estruturação, projeta-se ad infinitum. Com o advento do bolsonarismo, fenômeno que se alimenta das novas mídias digitais, a possibilidade de que tenhamos policiais jovens tão ou mais reacionários do que os veteranos é concreta. Só uma pesquisa vasta e séria confirmaria essa suspeita, mas, diante da conivência criminosa dos militares do Distrito Federal com a destruição perpetrada pelas hordas bolsonaristas no fatídico domingo, exposta nas redes sociais feito troféu fascista, dou-me o direito, de antemão, de constatar ao menos uma tendência ao resultado afirmativo para a indagação. Pareciam bem jovens os policiais que tiravam fotos com terroristas e até os protegiam e os orientavam para que realizassem a barbárie contra a nossa República.


Bolsonarismo rima com destruição, tanto quanto rima com mediocridade, mas também rima com a certeza pincelada a tons de cinismo de que as posições de cor, classe e status social, nesse país, representam privilégios enraizados no período escravagista. Os hoje senhores brancos aposentados e vestidos com a camisa da seleção brasileira, assim como os negros, mulheres e demais grupos que compraram para si suas pautas autoritárias e jurássicas replicadas em escala industrial e à velocidade da luz nos grupões de whatsapp e telegram, passaram toda a sua infância, juventude e fase adulta vendo as forças de segurança reprimindo manifestações legítimas em prol da educação e de melhores salários para operários, servidores públicos e professores. Para esses senhores, hoje terroristas, ser conservador (leia-se reacionário), cristão e de classe média alta é estar automaticamente ao lado da polícia, o que a conivência dos policiais do Distrito Federal regada a selfs e instruções a eles, terroristas, deixa registrado, mais uma vez, nessa tarde nebulosa da nossa história nacional.


A veemência, porém, com que Alexandre de Moraes afastou o delinquente governador do Distrito Federal Ibanes Rocha por noventa dias nos cai, felizmente, como uma ponta de esperança não só na reconstrução democrática do país, mas na possibilidade de trazer à pauta uma discussão sempre adiada no seio do próprio Estado, aquela de se repensar a estrutura das nossas forças de segurança, uma estrutura que ainda cheira bastante aos anos de chumbo do regime militar implantado em 1964. Pensar em normalidade democrática é pensar, sim, que, para além da necessidade urgente de desbolsonarizar o país, é legítimo e possível desejar uma polícia menos racista, menos classista e menos autoblindada, uma polícia desmilitarizada, mas mais eficiente, no sentido de prever situações de risco e reprimir crimes hediondos com inteligência e eficiência.


Ao lado disso também é preciso, sem dúvida, pensar uma reforma profunda de nosso código penal, elevando as penas de crimes contra a ordem democrática, que hoje giram em torno de um máximo de doze anos de prisão, para trinta. Trata-se da possibilidade de punir quem, apesar de todos os privilégios de sempre, opta por deslegitimar o único ato que, numa sociedade de classes com forte herança escravocrata, tem o mesmo peso para todos, o de escolher livremente os seus representantes.


É preciso, ainda, que as penas para os aviõzinhos do tráfico, por exemplo, sejam repensadas, diante da consciência nacional profunda de que prender garotos ao lado de criminosos perigosos potencializa as chances de que se tornem muito mais violentos ao saírem da prisão do que quando nela dão entrada. Isso também é se combater a perspectiva da elite rastaquera, é combater, de fato, as assimetrias de berço, deixando claro que apoiar o fascismo quando se tem todas as oportunidades e acesso a bons estudos para não fazê-lo é pior do que, quando se nasce e se cresce em condições subumanas, ganhar a vida como se pode. Trata-se, no limite, usando aqui um neologismo, de desinverter os valores, invertidos desde o nascedouro dessa zona que precisa um dia ser um país.


Não, não nos conformemos com a palhaçada que mergulhou o Brasil nessa eterna noite dos mortos-vivos, com aquilo que, após ebulição estimulada por seu líder, de palhaçada transformou-se em terrorismo, esse ataque nefasto às nossas possibilidades de que venhamos a ser o país que sempre sonhamos ser. E comecemos por gritar aos quatro ventos e durante sete dias por semana: sem anistia para terroristas!


A democracia se protege com a lei, e que os honrados agentes públicos não queiram se misturar às figuras que desonraram suas corporações façam, após os comandos que certamente virão da justiça e dos governos sérios, aquilo que deve ser feito. Pelo diálogo ou pela força, mas que não deixem de fazê-lo, transmitindo-nos uma luz após o caos. E que Bolsonaro seja responsabilizado pela selvageria de seus súditos zumbis, pois isso é essencial a esse processo.


O Brasil ainda pode voltar a ser um país com sonhos. Chega dessa mistura sufocante de burrice, ódio e mentiras. Precisamos voltar a respirar, e nosso tubo de oxigênio chama-se justiça. Que o braço da lei não alivie seu peso ao baixar sobre os biltres que vestidos de verde e amarelo mancharam esse pedaço de América Latina, após historicamente por aqui ele nunca ter aliviado para pretos, pobres e periféricos. Justiça, quando dá certo, faz justiça histórica. E essa é a maior chance de um projeto chamado Brasil.


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* Antonio Danilo Santana é mestrando em Ciências Sociais pela UFBA, e técnico universitário na Uneb.


Fonte da imagem: https://jcconcursos.com.br/noticia/brasil/invasao-em-brasilia-criminosos-bolsonaristas-quebram-tudo-veja-imagens-105849


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