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LÉO LINS E A ESCRAVIDÃO COMO EMPREGO




Não é raro surgir debates sobre limites do humor, isso porque tem muitos que ultrapassam e muito esses limites. Nessa semana houve um então... A justiça proibiu o humorista Léo Lins de fazer piadas com minoria, com pedido de remoção de um vídeo com show do comediante no Youtube, intitulado “Perturbador”. O nome vem a calhar, pois causou imensa indignação. Menos daqueles que indicaram censura e apoiam ela, a rainha, a majestosa, a aclamada, ovacionada, querida, a miss... com vocês, a liberdade de expressão!!!


Não vou entrar aqui na questão judicial da remoção. Muitos foram nessa linha, sem entrar no (des)mérito das piadas, por isso, o que importa aqui é o conteúdo gerado pra fazer rir. E aí vieram as polêmicas: muitos colegas dele, que ganham a vida fazendo stand up, saíram em sua defesa. Até Porchat – considerado por muitos “um esquerdista”, e, portanto, um cerceador da piada alheia – o defendeu com um argumento clichê: “não gostou da piada, não consuma”. Vamos verificar juntos algumas dessas piadas proibidas pela Lei:


“ Todo mundo fala os problemas que o gordo sofre, ninguém fala dos problemas que o gordo causa”


“Se alguém fala ‘um estupro’, é pesado. ‘Um estuprito’, é divertido. ‘Um estuprito’?


“O pessoal fica sempre procurando um lugar aquecido. A prova disso é que teve uma boate que pegou fogo e as pessoas não sairam de dentro” (sério que ele fez uma anedota sobre isso????)


Vimos que o sujeito utiliza mesmo a tal da liberdade de expressão, pois até tragédia nacional ele considera vetor de riso. Porém, a que mais chamou atenção foi essa:


“negro reclama que não tem trabalho pra ele. Na época da escravidão já nascia empregado e também achava ruim”.


Lins é especialista em tocar em feridas fatídicas do nosso passado nada glorioso, utilizando-as como peças de diversão, e acha que a justiça o censurou...


Não vou aqui descrever os horrores da escravatura, a sevícia a seres humanos durante séculos, o abandono de seus descendentes e os incontáveis casos de racismo e analogias a essa época terrível, como uma ex-jogadora de vôlei que chicoteou um entregador com a coleira do seu cãozinho de estimação, como se o ato deixasse bem claro pra ele que o seu lugar não era nas ruas da Zona Sul do Rio fazendo entrega, e sim, em algum tronco levando merecidas chibatadas de um senhor de engenho. É assim que muitos brasileiros gostam de tratar quem teve seus ancestrais trazidos na marra, amontoados em navios negreiros, pra depois ir gargalhar nos stand ups da vida. Riso e sofrimento não se encontram, nem se encaixam em gargalhadas. Não tenho notícias de nenhum folião que saia na rua fantasiado de escravo, acorrentado e tudo o mais, pois a desprezível ação de submeter alguém a seus caprichos jamais pode ser um ato brincante numa folia de rua. Isso é assunto pra bancos escolares, símbolos de resistência, luta de classes, lição para gerações vindouras. Jamais pra ser usado como veículo de livre expressão, pois liberdade, humor, piada, e escravidão não cabem na mesma frase!!


O mesmo comediante que está sendo defendido por seus pares fez uma “piada” inacreditável. Trabalhando no SBT, ele fez a seguinte galhofa sobre a campanha Teleton, transmitida pela emissora:


"Eu acho muito legal o Teleton, porque eles ajudam crianças com vários tipos de problema. Vi um vídeo de um garoto no interior do Ceará com hidrocefalia. O lado bom é que o único lugar na cidade onde tem água é a cabeça dele. A família nem mandou tirar, instalou um poço. Agora o pai puxa a água do filho e estão todos felizes"


Além de comparar um garoto com sério problema de saúde com uma cisterna, ele mexeu com milhares de pais que passam por difícil situação, precisando da ajuda de profissionais e associações de apoio a excepcionais, muitos na mingua, mendigando contribuição financeira para seus sustentos. E aí o métier não liga: como censurar algo do tipo? Lins foi sumariamente demitido depois dessa. Provavelmente, nem programas de humor antigos como Sartiricon, Casseta&Planeta, TV Pirata, ou Os Trapalhões – bastante comentados por anedotas alarmantes - ouviríamos algo tão grotesco!


Minorias são alvo de piada desde sempre. Quando criança, ouvia algumas que eram assim: “o que significa um preto, sentado num fusca, em frente ao BANEB (antigo banco estatal da Bahia)? Nada! Fusca não é carro, preto não é gente, e BANEB não é banco”. Ou “quando negro é gente? Quando ele está no sanitário, alguém bate na porta, e ele responde ‘tem gente!’”. A piada envolve sempre o mais fraco, pois esse pessoal passa por tantos problemas e uma vida de merda que ri de si mesmo é um remédio – mesmo que a piada não seja oriunda de suas mentes sofridas. Um então deputado que relata que em quilombos – centros de refúgio e direitos de dignidade – seus habitantes pesam arrobas e possuem uma preguiça macunaímica, é tratado como “um político ético” e apoiado por boa parte desses humoristas que defendem expressões como essa, só mesmo sentando na cadeira e derramando o oposto do riso.


Grande parte dos atingidos por essas piadas de extremíssimo mal gosto nem tem tempo de ficar bronqueados. É preciso sobreviver e trabalharem o tempo todo e nem terem direito a aposentadoria ou qualquer outro benefício. Mas os comediantes brasileiros sempre terão uma piada sobre suas desgraças, enquanto ainda ressoam nas peles dos “piadados” os estalos do açoite. E afinal de contas, esperar de certos comediantes mais consciência sobre o outro, empatia com os mais necessitados, um futuro melhor pra todos, e menos desigualdade nesse país, só mesmo em piada.


FONTE:






IMAGEM: Rádio Peão Brasil








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2 komentarai

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Mkcoth H
Mkcoth H
2023-12-03

Os negros deveriam ser mais fortes como seus antepassados e ter orgulho de sua raça, não dando importância para piadas e comentários, são só palavras, quando se tem orgulho do que é, qualquer que seja dito não tem valor.

Patinka

Taís Gomes
Taís Gomes
2023-05-25
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Muito bom o texto. Uma discussão sucinta que nos faz refletir sobre a diferença de liberdade de expressão e crime. É válido lembrar que o que o humorista fez se trata ou deveria ser tratado como um crime de racismo. Nenhum princípio é supremo e a liberdade de expressão tem limite

Patinka
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