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LUZERNA DO SERTÃO GRANDE.




Quando criança, no sertão baiano, cresci ouvindo histórias de almas, caiporas, roncadores, lobisomens, mulas sem cabeça. Talvez eu tenha feito parte da última ou penúltima geração brasileira e nordestina que teve o prazer de crescer ouvindo esses contos, sobretudo, da boca dos avós e tios-avôs.  Mas, sem dúvida, o ser mágico que mais me chamava a atenção, nessas histórias todas, era a luzerna, uma entidade presente na memória de muitos adultos com mais de quarenta janeiros e idosos nonagenários daquela região em que fui criado, o Nordeste da Bahia.


Os relatos da luzerna eram sempre os mais empolgantes, daqueles feitos com direito a olhos arregalados, pausas na fala, suspense de primeira! “A luzerna é uma alma de uma pessoa que não se conformou de morrer e ficou vagando como luz por esse mundo, meu filho!”, dizia minha saudosa vó materna. “A luzerna corre estrada e encandeia motorista...”, contava um senhor que havia vindo morar na minha rua, saído da zona rural do município vizinho. “Quando a gente encontra uma luzerna, a gente tem que rezar e encomendar sua alma a Deus!”, alertava uma tia-avó. E a gente, criança, ficava ali reunido, todo mundo quietinho, olhinhos vidrados no narrador, frio na espinha, ouvindo cada sílaba sem dar um pio!


Possivelmente pelo fato de ser um ser dos dois mundos, o dos mortos e o dos vivos, do primeiro, por prisão, e do segundo, por dívida, a luzerna seja um ser tão fascinante. E cada mito, no fundo, não deixa de ser uma projeção do material ao imaterial, do concreto para o abstrato, já que sempre algo que desafia as leias da física, em certo sentido, que mexa com os limites objetivos de nossa estrutura interpretativa, tal como a percepção de um sonho, quando tentamos decifrá-lo, ao acordarmos. Um ser como a luzerna, em especial, acaba levando este aspecto da dubiedade da forma ao limite. Uma luz que se move rapidamente, que “corre estrada”, que está aqui, mas de repente some, já está ali na frente, que é fogo, mas espírito, isto é, é um dos quatro elementos da natureza, mas, a um só passo, também um elemento da outra natureza, a natureza do “mundo de lá”, do além.


O incontornável Max Weber, em seu clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, descreve, de modo magistral, o processo de desencantamento do mundo, que teria começado nos primórdios da religião judaica, atravessando o espírito científico do mundo helênico e concluído seu percurso na consolidação do capitalismo (1). O processo aqui aludido, no entanto, aliás, como qualquer outro fenômeno social, e nem o próprio Weber professou o contrário, não pode ser tomado como uma linha histórica linear e fechada, ou seja, em cada parte do mundo ele se desenvolveu a passos mais ou menos rápidos, com configurações que se defrontavam com cada cultura em particular, em sua voraz busca objetiva pela universalização de valores que servissem aos seus mecanismos de acumulação de riqueza, tendo, assim, mais ou menos força para se estabelecer plenamente em cada lugar do globo.


Para além dos clichês, no sertão do Nordeste somos, de fato, muito portugueses, pancararus, quiriris, cariris,  bantos, ciganos, iorubanos, árabes e judeus (cristãos novos); ao mesmo tempo, sem clichês baratos, somos intensamente cada um desses povos e todos eles, portanto, somos um povo à parte, dentro do Brasil, uma nação dentro da outra, o povo do muxoxo, que oferta o primeiro copo da cerveja ao santo, derramando-a no chão, que varre a casa para os fundos, nunca pela frete, que é enterrado com mortalha, na cidade dos pés juntos, que busca curar azia e erisipela com chá, uma gente que samba, dança xote e, mesmo após a atual onda evangélica neopentecostal tendo atingido nossa região, assim como ao restante do país, somos, ainda, e fortemente, aqueles que não entram numa mata sem pedir ao divino alguma proteção, preferencialmente fazendo o sinal da cruz. E o que fomos, de certo modo, e, novamente, não é clichês bobo, de fato, sobrevive conosco, na memória das pessoas das gerações que ainda estão por aqui.


A luzerna era, para nós, nordestinos criados no sertão e nascidos nos anos 1990 ou antes deles, mais que um ser mágico. O fogo que corre estrada e mato significou um elo entre gerações, um elo de preservação do encantamento e da culturalmente insistente ruptura entre o binarismo científico-racional seco entre vida e morte, material e imaterial, tendo sido brilho da infância que ficou adulto e continuou a iluminar a percepção de mundo de idosos e crianças, hoje já adultas. Mas, antes de qualquer coisa, a luzerna seria algo forjado no imaginário desse povo por este ser um povo de uma cultura sempre tão pujante e inventiva.


É famosa a passagem abaixo em que Weber retrata a sociedade industrial consolidada primeiramente na Inglaterra do século XVIII e, posteriormente, na Europa Continental e no restante do globo:

 

Aquele grande processo histórico-religioso do desencantamento do mundo que teve início com as profecias do judaísmo antigo e, em conjunto com o pensamento cientifico helênico, repudiava como superstição e sacrilégio todos os meios mágicos de busca de salvação, encontrou aqui sua conclusão. (Weber, 2004, p. 96)

 

Como na constatação desse grande intelectual alemão exposta acima, o fim da transmissão intergeracional das histórias sobre a luzerna, ao contrário do que ocorre a seres míticos como o lobisomem e a mula sem cabeça, por exemplo, que foram incorporados ao imaginário nacional a partir de contos que continuam a circular em larga escala por canais de televisão e  internet, de grupos folclóricos e educacionais e até de centros culturais públicos e privados Brasil afora, enfim, tal processo simboliza a consolidação absoluta da racionalização do mundo para nós, sertanejos.


O fato das pessoas de minha geração ser, talvez, a última que experimentou, em sua infância, o prazer de ter ouvido histórias de luzerna das vozes de idosos e pessoas de meia-idade retrata muito mais que um processo de eliminação da criatividade lúdica presa a uma dimensão mítica da realidade compartilhada entre pessoas sertanejas de todas as idades, sobretudo entre adultos maduros, idosos e crianças (sim, as histórias sobre luzernas eram não só criações de pessoas maduras para divertir crianças, mas relatos fantásticos que circulavam entre aqueles que tinham saído da fase infantil).


Um povo não se faz só com costumes de base material. Ao mesmo tempo, a dimensão mítica, segundo o filósofo judeu-alemão Ernst Cassirer, não é mais simbólica que a dimensão política, econômica etc. Segundo esse pensador, o homem não deveria ser classificado como um ser rationale, mas como um ser symbolycum, já que, conforme Ana Amália Souza e Zeferino Rocha, para ele, Cassirer (1998 apud Rocha e Souza, 2009), “todo conhecimento e toda relação do homem com o mundo acontecem no âmbito das diversas formas simbólicas (...) neste sentido, a linguagem, o mundo mítico-religioso e a arte apresentam-se como outras tantas formas simbólicas particulares.” ( Rocha e Souza, 2009, p. 2).


Chegamos à conclusão, assim, de que, por constituir-se enquanto ser simbólico tanto quanto qualquer outro elemento de qualquer outro campo, posto não haver separação real entre o imagético e objetos ou situações imediatamente físicas ou constituídas de relações/instituições ditas reais e/ou objetivas (contratos, redes de trabalho, namoro etc.), quando se perde um elemento ou todo um campo de sociabilidade em eu estes são produzidos no imaginário histórico-coletivo, na linguagem ancorada em elementos dispostos na pura criação imemorial, por vezes estamos falando de um déficit real no modo de vida de determinado povo afetado por esta perda.


Com a afirmação acima, no entanto, não estou defendendo a ideia de que os efeitos de um desemprego em massa, ou de um governo que prenda, mate e torture dissidentes, ou, ainda, de uma guerra entre religiosos de diferentes instituições confessionais, pois, não tenham efeitos mais marcantes ou mesmo mais mapeáveis do que os de um mito e sua forma de reproduzi-lo perdidos entre gerações. Tampouco estou sustentando que tal déficit gerado pelo desaparecimento de tal elemento não possa e, na maior parte dos casos, não seja ocupado por outros elementos e/ou mesmo outros campos representacionais ancorados totalmente em formas imaginativas.


De modo saudoso, isso é verdade – e quem passou dos quarenta não perde a chance de, aqui e ali, ser um pouco nostálgico –  não me furto o prazer de falar de luzerna, assim como de falar das tardes em que eu e minha turminha tomávamos banho de chuva, nos  verões da década de 1980, ou das quixabas (frutinhas, como chamávamos) que colhíamos nas grandes quixabeiras que ficavam na pracinha na frente de minha casa, e não poderia me escapar, ainda, as lembranças de quando faltava energia por dias, em nossa querida cidade de Antas, as “Zanta” de “cumpade” Gerardo, como os seus cidadãos mais velhos e os que já se foram há certo tempo a chamavam. Nesses dias, enquanto os nossos pais se desesperavam para que as coisas se normalizassem e eles pudessem trabalhar, abrir seus comércios, ir bater carimbo na prefeitura, enfim, amávamos criar todo tipo de brincadeira sob a luz da lua – era aquela torcida pra anoitecer logo.


No final, não foi o mito da luzerna e o saudoso modo de compartilhá-lo que desapareceram, mas uma parte do que constituía a própria noção do que é o interior, o sertão, enquanto oposição ao metropolitano/litorâneo e ao multiculturalismo, esse monstrengo liberal. Peço desculpas, mas hoje, mais cedo, escutei Lamento Sertanejo, dos gênios da raça Dominguinhos, sertanejo típico, e Gilberto Gil, sertanejo de alma.

 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

ROCHA, Zeferino Jesus Barbosa; SOUZA, Ana Amália Torres. No princípio era o mythos: articulações entre Mito, Psicanálise e Linguagem. Estudos de Psicologia, Natal, v. 14, n. 3, p. 199- 206, set./dez. 2009.


WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

Fonte:  Foto gerada na IA Gemini, do Google.






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Texto ótimo! Parabéns!

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Antonio Danilo Pereira Santana
há 5 dias
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Obrigado!

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há 7 dias
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Excelente texto! Emociona pela conexão entre o popular e o acadêmico.

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Antonio Danilo Pereira Sant
há 5 dias
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Obrigado!

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Convidado:
há 7 dias
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Texto maravilhoso

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Antonio Danilo Pereira Santana
há 5 dias
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Obrigado!

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Ivonete
há 7 dias
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Danilo encanta com aa palavras

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Antonio Danilo Pereira Santana
há 5 dias
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Obrigado!

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