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MEDUSA E BILLIE JEAN: O direito de dizer o próprio corpo

19 de ago.
5 min de leitura

Entre o mito grego e a canção de Michael Jackson, uma pergunta atravessa os séculos: quem tem o direito de contar a história do corpo de uma mulher?


Há histórias que sobrevivem porque continuam acontecendo. Mudam as personagens, os cenários e as palavras, mas alguma coisa permanece. Medusa talvez seja uma dessas histórias. Billie Jean também.


À primeira vista, pode parecer estranho colocar lado a lado uma personagem da mitologia grega e a mulher eternizada por Michael Jackson. Entretanto, algo aproxima profundamente essas duas mulheres: nós as conhecemos principalmente através daquilo que dizem sobre elas. E talvez seja justamente aí que a questão comece. Quem conta a história de uma mulher? Quem possui o direito de dizer quem ela foi, o que desejou, o que aconteceu com seu corpo e, principalmente, se devemos acreditar nela?


Uma das versões mais influentes da história de Medusa encontra-se nas Metamorfoses, de Ovídio. Medusa é descrita como uma jovem de extraordinária beleza. Poseidon a possui sexualmente no templo de Atena e, paradoxalmente, é sobre ela que recai a transformação. Seus cabelos tornam-se serpentes e seu olhar passa a petrificar.


Há algo terrivelmente familiar nessa narrativa: o corpo violentado torna-se corpo culpado.


Medusa sofre quando seu corpo é invadido, quando aquilo que lhe aconteceu passa a defini-la e, finalmente, quando Perseu corta sua cabeça e a transforma em troféu. Mas talvez sua primeira morte tenha acontecido antes da espada. Medusa começa a morrer quando perde o direito de narrar aquilo que aconteceu consigo.


Outros contam sua história. Outros interpretam seu corpo. Outros estabelecem sua culpa. Finalmente, um homem será reconhecido como herói porque consegue matá-la. É nesse sentido que podemos falar, a partir de uma categoria contemporânea, em uma espécie de feminicídio mítico.


Antes da violência física existe uma violência discursiva. Primeiro se produz uma culpa. Depois se justifica a violência. No caso de Medusa, a operação é ainda mais radical: é preciso transformar a mulher em monstro para que o homem que a mata possa ser transformado em herói.


E Billie Jean? Talvez seja justamente aqui que Michael Jackson entre inesperadamente nessa história. “Billie Jean” é construída a partir de uma voz masculina. É ele quem fala, recorda, descreve e nega. Billie Jean afirma que existe um filho e atribui ao narrador a paternidade. Ele responde: the kid is not my son.


Mas talvez a questão filosoficamente mais interessante não seja descobrir quem diz a verdade. Poderíamos perguntar outra coisa: o que Billie Jean diria se a música fosse cantada por ela?


Não sabemos verdadeiramente quem é Billie Jean fora da narrativa masculina. Sabemos que ela dança, seduz, afirma algo que o homem nega e, sobretudo, representa um perigo. Mas sabemos tudo isso porque ele nos contou.


Billie Jean não narra Billie Jean. Ela é narrada. Medusa também.


É nesse ponto que as duas mulheres se encontram. Medusa é transformada em monstro. Billie Jean é transformada em ameaça. Em torno delas aparece um dos arquétipos mais persistentes das sociedades patriarcais: a mulher perigosa. A mulher bela torna-se suspeita. A mulher que deseja torna-se perigosa. A mulher sexualmente autônoma torna-se ameaça. A mulher que fala precisa provar que sua palavra merece ser acreditada.


É uma operação antiga e perversa: o homem deseja a mulher e depois responsabiliza a mulher pelo desejo que sente por ela. O corpo desejado transforma-se em corpo culpado. Medusa é desejada antes de ser monstruosa. Billie Jean é fascinante porque seduz e perigosa porque seduz. A cultura patriarcal construiu durante séculos essa pedagogia do medo diante da mulher que deseja, fala, olha e possui poder.


Quem matou Medusa? A resposta aparentemente óbvia seria Perseu. Talvez não seja suficiente.


Antes que Perseu pudesse cortar sua cabeça, foi necessário que uma narrativa tornasse aquela morte aceitável. Por isso, talvez a pergunta mais importante seja outra: quem precisou transformar Medusa em monstro para que Perseu pudesse ser chamado de herói depois de matá-la?


Essa pergunta retira nosso olhar da espada e o coloca sobre a narrativa. Existe uma violência que acontece na linguagem, que escolhe quem será chamado de vítima e quem será chamado de culpado, quem será lembrado como herói e quem permanecerá na história como monstro.


Depois de matar Medusa, Perseu ainda leva sua cabeça consigo. Ela é exibida e utilizada como arma. Nem mesmo depois da morte o corpo de Medusa deixa de ser apropriado. O homem que a mata passa também a possuir sua imagem. Perseu permanece sujeito. Medusa torna-se objeto.


E voltamos a Billie Jean.


A música está atravessada pela angústia masculina diante da palavra de uma mulher. Ele fala, explica, recorda, nega. Ela permanece do outro lado da narrativa. Por isso, antes de perguntarmos quem mente, talvez devamos perguntar: por que não ouvimos Billie Jean? Medusa não consegue contar o que aconteceu com seu corpo. Billie Jean não consegue narrar integralmente aquilo que aconteceu entre os corpos. Uma é monstruosizada. A outra é suspeitabilizada. Em ambas existe uma disputa pelo poder de estabelecer a verdade sobre o corpo feminino.


Mas há ainda uma possibilidade.


E se o olhar de Medusa não for apenas uma maldição? E se for resistência?


Depois de ter seu corpo invadido, Medusa passa a possuir algo que nenhum homem consegue atravessar impunemente: seu olhar. Aquilo que durante séculos foi chamado de monstruosidade pode ser interpretado também como potência. Medusa passa de corpo disponível ao desejo masculino para corpo impossível de ser apropriado sem resistência.


Talvez seja justamente por isso que ela precise morrer.


E há um detalhe extraordinário: Perseu consegue matá-la, mas não consegue olhá-la. Precisa do escudo, do reflexo, da imagem indireta. O homem considerado herói consegue cortar a cabeça da mulher, mas não consegue sustentar seu olhar.


Talvez Medusa tenha sido monstruosa apenas porque alguém precisava que ela fosse.


Talvez Billie Jean seja perigosa porque conhecemos sua história por meio daquele que precisa se defender de sua palavra. Talvez muitas mulheres tenham sido transformadas em monstros porque determinados homens precisavam continuar sendo chamados de heróis.


Recuperar Medusa, portanto, não significa apenas inocentá-la. Significa devolver-lhe algo muito mais radical: a possibilidade da palavra.


Talvez devêssemos imaginá-la recolocando a cabeça sobre o próprio corpo, olhando novamente para Perseu e dizendo: Agora a história será contada por mim.


E talvez seja isso que ainda assuste tanto. Não as serpentes. Não o olhar que petrifica.


Não Billie Jean. Mas uma mulher que finalmente conquista o direito de contar, com sua própria voz, aquilo que fizeram com ela.


Porque talvez Medusa nunca tenha sido o monstro da história. Monstruosa pode ser uma sociedade capaz de olhar para uma mulher violentada e perguntar o que havia de errado com ela, em vez de perguntar o que fizeram com ela.


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Imagens retiradas do banco de imagens gratuito Pexels.com



7 comentários

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Natan Pereira
02 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Na música Billie Jean, presente no álbum "Thriller" (1982), Michael J. conta a história de uma garota que afirma ter um filho o qual ao narrador pretende a partenidade. Ou melhor, conta a história dele, sua defesa, diante uma garota que lhe atribui a paternidade de um de seus filhos. Refletindo sobre o texto acima, existe de fato o apagamento da narrativa da própria mulher, no verso escrito, pelo menos. O plot twist, já fazendo link com o mito de Medusa e com a reflexão dessa discussão, é justamente o trecho da música onde ele diz "... be careful of what you do. 'Cause the lie becomes the truth'..." (Tome cuidado com o que você faz, porque a mentira s…

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Avaliado com 5 de 5 estrelas.

É sobre a mania antiga de “virar o jogo” e colocar a culpa no outro — normalmente, naquele que é mais frágil ou que, de alguma forma, é lesado. Tambem é sobre a cultura masculina e patriarcal ( que é especialista nisso): primeiro deseja e consome o corpo da mulher, e depois joga o que restou dos seus "efeitos colaterais"no colo dela. A Medusa foi violentada e virou um "monstro" que precisava ser destruído por um herói. A Billie Jean virou a "ameaça" porque ousou abrir a boca para cobrar algo. Em ambos, a lógica é a mesma: transforma-se a mulher em vilã para que o homem saia com a imagem intacta. É a famosa e perversa "pedagogia do medo”…

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Convidado:
27 de ago.
Avaliado com 2 de 5 estrelas.

Há vida dentro da garrafa


Ainda não somos náufragos!

O náufrago é sempre aquele que sobrevive ao afundamento da embarcação!

A garrafa precisa ser lançada, caso o náufrago sobreviva!


O sonho de ser lido por alguém mesmo que já estejamos mortos; alguém vai saber sobre a historia que contarmos!

O sonho de quem emite a emissão é que a decodificação seja feita!

Tem gente escrevendo a gente. Para nos colocar na garrafa e lançar ao mar.

De sorte que o remetente/escritor é um coletivo imaginário que usa o inconsciente e a inconsciência!

Mas o remetente ainda nâo nos lançou no mar! A gente nem sabe se ele é náufrago! Se sobreviveu a 2026 e as eleições de outubro! Enfim!

O…

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Convidado:
26 de ago.
Avaliado com 2 de 5 estrelas.

A angústia é onipresente.

É na angustia que o humano encontra a totalidade do ser. E como bem colocado no textonão basta ao humano possuir o corpo. É necessário ao mesmo tempo possuir a linguagem narrativa transformando o outro em objeto de sua narração.

O herói para ser herói precisa derrotar o monstro. Monstro criado pela narrativa dele mesmo.

Professor, obrigado pelo texto!

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Carlos André
26 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente reflexão.

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