Morre um astrólogo (ou a dança do delírio no salão do poder)


* Por Antonio Danilo Santana



São três horas da madrugada de uma terça-feira, dia 25 de janeiro de 2022, quando, após ter finalizado a leitura de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, uma antiga dívida literária que tinha comigo mesmo, ligo meu notebook e me deparo com a notícia: “Morre Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo.” Num primeiro momento, tenho uma estranha sensação, a notícia de que um agitador como ele morreu ser dada assim, na discrição da madrugada, trazia certo descompasso com sua figura, sempre estrondosa, vívida. Posteriormente eu chego à conclusão de que a morte possa ter optado por premiá-lo com um final à francesa, na paz, depois de ele ter alimentado uma vida à base de muito ódio, dissimulação e conflito. Ela, a morte, deve ter lá suas razões. Sigamos.


Olavo Luiz Pimentel de Carvalho, natural de Campinas, maior cidade do interior paulista, foi astrólogo, influenciador digital, escritor, jornalista, autoproclamado filósofo e polemista. Foi também um conspiracionista, ou seja, um adepto das teorias conspiratórias. Seu pensamento sempre vinha à tona a partir de recortes de polêmicas baseadas em conspirações internacionais, geralmente anticristãs, antipatriarcais e pró-comunistas.

De modo assombroso, o astrólogo conseguia fazer o homem comum saber da existência de algo chamado filosofia, ainda que a ensinasse através de franjas monumentalmente distorcidas. Da mesma forma, Olavo fez o Zé da padaria ouvir falar de uma teoria política e social chamada comunismo, fazendo-o crer, décadas após a ditadura civil-militar que governou o Brasil, mas tal qual o mito tão comum naquele período, que os comunistas comem criancinhas e querem roubar seu Gol seminovo financiado em setenta e duas prestações.

Nós, da esquerda, com anos de organização, muitos de nós em partidos e sindicatos, nunca conseguimos criar no Brasil um homo politicus, como fizera Olavo em poucos anos, ao organizar um verdadeiro exército de militantes da extrema-direita cristã através das redes sociais. E por falar em redes sociais, o campinense radicado na Virgínia foi pioneiro por essas bandas na formação de militância política por meio da internet.

Falando palavrões a torto e a direito, não custou muito tempo até lapidar os corações e as mentes do Carlinhos do açougue e do Dermeval da barbearia para que pusessem para fora seu ódio e seu desprezo por quem pensa diferente. Na verdade, soube organizar magnificamente o que já batia sob disfarce no peito de cada um deles. Sim, sua grande sacada foi perceber, como a esquerda e a direita liberal jamais percebera, o quanto grande parte de nossa população, fruto de uma formação histórico-social atravessada por diversos tipos de violência extrema, se sentia à vontade em operar dentro do campo do ódio e da aversão, dos códigos de conduta estruturados no conflito permanente. Apostou e ganhou a aposta: em poucos anos, um exército de fanáticos olavistas foi formado, um presidente de sua orientação foi eleito e sua turma até enfileirou-se nas nossas casas parlamentares. Pronto, o Estado brasileiro estava tomado, e, como Cáligula em muitas de suas conquistas em nome de Roma, o guru nem mesmo precisou ter adentrado nosso território para vencer a batalha e anexá-lo a seu domínio, no ano de 2018.

Mas a realidade sempre é imune a mentiras e delírios, mesmo que ela própria muitas vezes goste de se mostrar como farsa e como loucura e que suas frestas demorem a trazer a luz à tona. E assim o governo de Bolsonaro passou a soar, desde o seu início, como aquela brincadeira com fundo de verdade que incomodava a Olavo não pelo que ele era, isto é, um governo incompetente e disfuncional, mas justamente por isso ter dificultado desde sempre a entrega do produto pelo astrólogo encomendado, isto é, por não ter conseguido, por incapacidade de romper nossos freios institucionais, embora os tenha estressado em mais de uma vez, implantar seu sonho antidemocrático, anticomunista, reacionário e cristão. Numa só palavra, podemos classificar a relação entre o governo Bolsonaro e Olavo de Carvalho, desde o seu início, como frustrante, mas sobretudo para o guru.

Ora, seu discípulo mais tosco o fizera sonhar alto, mas a realidade se apresentava como um muro grande demais para ser transposto por sua ideologia antimodena. E de quebra Bolsonaro ainda conseguiu a proeza de desagradar o próprio mestre e ser, ao mesmo tempo, odiado pela maioria dos brasileiros, maioria essa que nunca foi adepta do guru, e que provavelmente não tenha ouvido mais que uma ou duas citações a seu nome.

Talvez o excelentíssimo tenha lido alguma de suas obras, mas, de inteligência bastante estreita, tenha tido uma compreensão distorcida do que já vinha distorcido por definição. Imaginem Bolsonaro lendo do astrólogo, por exemplo, que o filósofo frankfurtiano Theordor Adorno compunha as músicas dos Beatles, essa que teria sido, segundo Olavo, uma banda comunista agente da União Soviética no Ocidente. Certamente os poucos e sobrecarregados neurônios do nosso mandatário devem tê-lo feito chegar a esse tipo de raciocínio: “Pow, esse Adorno aí quem é? Ele devia cantar todo adornado de vermelho e com uma AK-47 na cinta, por isso o apelido do cara! Ele era qual daqueles quatro lá de Liverpool? O cara era terrorista e botou a banda pra fazer sucesso e conquistar a moçada, aí hoje em dia vem os esquerdistas dizendo que eu tou errado em querer armar a população, porra!”

Todos os seus seguidores citavam pequenos trechos de seus livros, embora muito provavelmente uma quantidade ínfima tenha-os de fato lido. E ele sabia disso, pois costumava jogar na cara de seu público, exclusivamente brasileiro, que quem o seguia não entendia a sua mensagem, inclusive Bolsonaro, a quem por mais de uma vez chamou de burro e covarde, assim como a turminha do ódio político recheado de humor opaco do famigerado MBL, cujo líder Kim Kataguiri foi por ele apelidado, quando das manifestações pró-impeachment de Dilma, de Kim Katacoquinho, “um sujeito insignificante, uma formiguinha”, nas palavras do guru reacionário.

Mas o fato é que “Olavo tem razão”, chavão utilizado à exaustão por seus seguidores cativos, demonstra o quanto o debate público pode ser facilmente permeado por mentiras verdadeiras, isto é, mentiras e distorções que são replicadas como a mais pura realidade por parte da população, uma realidade que está aí oprimida, perseguida e escondida pelo sistema progressista do racionalismo ateu ocidental. E para quem ainda duvida do sucesso do plano de doutrinação olavista, para além do desprezo acadêmico por suas ideias estranhas e até aberrantes, por vezes contraditórias, lembremos que por anos as Organizações Globo tiveram o polemista entre os seus colunistas da revista Época.

Lembremos também de suas várias entrevistas a canais de televisão diversos, nas quais professava suas crendices, numa espécie de processo obstinado que foi substancialmente capaz de gerar certa legitimidade na circulação de sua gramática do ódio e de suas inversões hermenêuticas, algo que, passo a passo, até o domínio das redes sociais pela ascensão da nova extrema-direita global, da qual sempre foi membro ativo, fez com que quem sequer deveria ser ouvido, como terraplanistas, conspiracionistas e haters de todo tipo, passasse a conceder entrevistas e até a debater – ou pensar que estava debatendo – com gente séria e intelectualmente muito mais bem preparada.

O outro e principal ponto para entendermos o quanto Olavo de Carvalho conseguiu atingir os objetivos certamente traçados por ele há alguns anos em horas de reflexões sob profunda angústia, ressentimento e mania de perseguição, é olharmos para o governo que hoje mantém o Brasil no caos. Esse governo mostra que, para o bem ou para o mal, um pensamento estratégico de dominação das massas e que dê sustentação linguística à mobilização dos sentimentos certos e nos contextos adequados é capaz de mudar a realidade de um país, ainda que para pior. Mesmo tendo entregue muito menos do que prometera a seu mentor, o governo Bolsonaro foi e está sendo extremamente eficaz em provocar o caos, o que, por si só, já é um elemento dificultador e desorganizador do tecido democrático e do bom republicanismo.

As horas de aulas online do astrólogo aos bolsonaristas, diretamente da Virgínia, não foram vãs, mesmo que o ataque à democracia perpetrado por esses não tenha tido a força e a inteligência suficientes para esgaçá-la a ponto de destruí-la, como projetado pelo guro. Deste modo, o projeto falhou, mas apenas em parte.

E é precisamente nesse ponto que eu discordo do jornalista Leonardo Sakamoto, quando em um vídeo do canal do portal Uol (1) afirmou que Olavo viveu para ver o presidente descartando sua figura depois de tê-la usado. Em temos de sobrevivência política, Bolsonaro é, inegavelmente, esperto, e na política há espaço até para fracos como ele, desde que saibam operar sob sua lógica interna. Ao mesmo tempo, tal habilidade se dá numa dimensão inversamente proporcional a seu descontrole psicológico e sua fraqueza emocional, o que o torna, portanto, alguém de uma covardia paralisante demais para te vindo a descartar aquele que sedimentou com ódio e falseamentos da realidade o seu caminho até o Palácio da Alvorada.

Olavo saiu de cena por sentir que a maré estava mudando e que em breve ele poderia vir a estar na lista da Interpol, tão logo o próximo presidente do Brasil viesse a assumir o mandato, desarticulando as blindagens à família Bolsonaro e àqueles do seu entorno. E, neste momento de minha reflexão, um trecho da obra de Hemingway que eu havia acabado de ler volta à minha mente, a meu ver, um trecho alegoricamente bem propício por aqui: “Então o peixe voltou à vida já com a morte nele e ergueu-se no ar mostrando o seu enorme comprimento e a sua enorme largura e todo o seu poder e toda a sua beleza. Parecia flutuar no ar, por cima do velho. Em seguida caiu n’água com um estrondo que lançou uma torrente de água sobre o barco e o pescador” (2).

Quem já leu essa obra do escritor norte-americano sabe que ela aborda a luta de um velho pescador cubano contra forças bem maiores do que as suas para pescar o maior peixe que já viu em toda a sua vida, acabando assim com um jejum de mais de oitenta dias sem sucesso na pescaria. Exceto pela beleza e o tamanho do peixe que luta contra a morte na obra em questão, pois não há beleza nem grandeza no bolsonarismo, muito pelo contrário, a passagem aqui transcrita me soa como uma alegoria mais do que adequada para todo esse contexto, pois o velho ter notado que o peixe veio à vida já sob o domínio da morte seria a perfeita figuração de Olavo de Carvalho vendo o governo morto-vivo de Bolsonaro suspirando, sob um motor a ódio, os seus últimos suspiros, ele que foi sua maior pesca, posto que alguém que trouxe do baixo clero político e levou ao domínio do Estado, alguém através de quem atuou diretamente sobre a realidade do seu país de origem, infringindo-lhe as trevas.

E a morte, então, coroou sua vida e sua obra, ao tê-lo levado desse mundo sem que tenha visto o enterro político do cardume que guiou oceano da incivilidade adentro.


Link da imagem: https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/bolsonaro-decreta-luto-oficial-pela-morte-de-olavo-de-carvalho/



Referência


(1) Olavo de Carvalho viveu para entender que foi usado e descartado por Bolsonaro, diz Sakamoto. Em https://www.youtube.com/watch?v=wI4jiAOkCX0 Acessado em 25 de janeiro de 2022.

(2) HEMINGWAY, Ernest. O velho e o mar. Tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio de janeiro, RJ: Editora Bertrand Brasil, 2008.


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