MULHERES, FUJAM DOS ÓCULOS DA META!

Depois de ter que vigiar suas roupas e o local por onde andam, se desviar das calçadas escuras e desconfiar das pessoas com quem falam, as mulheres agora terão que prestar mais atenção nos óculos que um estranho use perto delas. Isso porque desde que a META lançou seu modelo de óculos de alta tecnologia, que grava e interage por comando de voz, mais homens têm os utilizado de forma perversa, por conta do alto grau de discrição do objeto.
Com o avanço da tecnologia, eles se tornaram cada vez mais imperceptíveis como instrumentos de gravação. Você olha para o objeto e pensa que é um óculos normal, feito para corrigir uma miopia ou astigmatismo. Seu último lançamento possui diferentes armações, combinações de cores e opções de sol (normais e polarizadas), transparentes e Transitions (que escurecem de acordo com o Sol). Jamais imaginaria que eles estão sendo usados para gravar aquele momento. É nesse ponto que estou pedindo para as mulheres fugirem desses óculos!
Os fatos estão aí. Estão sendo reportadas várias situações de incômodo vivida por mulheres, onde homens as abordam na rua, dando em cima, comentando sobre seus corpos, sua aparência, sem elas saberem que estão sendo gravadas. Depois, eles postam esse tipo de conteúdo na internet sem sua autorização. Como esclarece uma matéria da BBC:
“A BBC encontrou centenas de vídeos curtos semelhantes no TikTok e no Instagram, postados por dezenas de influenciadores masculinos diferentes. Eles oferecem dicas sobre como conquistar mulheres e, na maioria dos casos, os vídeos parecem ter sido gravados secretamente — usando óculos inteligentes da Meta.”
Há também o terrível caso que aconteceu em Salvador de uma paciente desconfiar que o médico usava óculos com uma câmera integrada durante um exame ginecológico! Pior ainda, foi um vídeo de uma influenciadora expondo o caso de pais que, ao levarem o filho para pediatra, descobriram, após o exame físico na criança, que o óculos usado pelo pediatra estava gravando o corpo nu do menino, com o intuito de expor em grupos de pedofilia na internet.
Precisamos pensar o quanto o mercado de tecnologia pode deter tamanha abertura e facilidade para inovações sem que se estabeleçam limites sobre os tipos de mecanismos que são utilizados, em termos de proteção da privacidade. Infelizmente, os corpos femininos sempre são os mais invadidos, procurados, mediados e explorados nesses tipos de situações abusivas de exposição íntima. Já estamos vendo os milhares de casos de uso da IA para colocar o rosto de pessoas conhecidas ou famosas em trechos de filmes pornográficos (deepnudes), alimentando a fantasia doentia de homens pelo mundo. Sem esquecer das gravações não consentidas da relação sexual que podem ser usadas para o revenge porn. Os óculos da META chegam como um achado para os homens abusadores que não medem esforços em explorar o corpo feminino. Agora, eles podem utilizar algo mais tecnológico, aperfeiçoado e pior, mais discreto…
Algumas discussões já estão vindo à tona. Houve um anúncio conjunto entre o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e a Coding Rights que acionaram o Ministério Público Federal (MPF), a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) contra a existência dos óculos da Meta, com o argumento de que...
“eles permitem a gravação de vídeos e a captura de fotos e áudio das pessoas ao redor, muitas vezes sem que elas percebam. Para as organizações, isso cria riscos de violência, assédio e violação de direitos.”
Grupos ativistas também já se manifestaram a respeito, chamando o objeto de “pervert glasses”, ou “óculos de pervertido”. Até mesmo um dos grupos, chamado Everyone Hates Elon (“Todos odeiam Elon”, em tradução livre), espalhou pela cidade de Londres vários cartazes com uma imagem que fazia uma montagem do abusador de menores Jeffrey Epstein usando o Meta Glasses e a frase: “Óculos para quem não faz questão de consentimento”.
A marca, é claro, não demonstra nenhuma preocupação real a respeito do assunto. O máximo que afirmam é que, quando os óculos estão gravando, uma luz se acende. Porém, o mercado já oferece dispositivos que cobrem essa luz, deixando o objeto mais discreto no momento da gravação. A marca contrapõe, dizendo que, logo mais, estará disponibilizando uma atualização que desativa a gravação, caso esteja usando esse tipo de dispositivo, como afirma uma nota lançada pela empresa:
“A principal mudança está em uma atualização obrigatória em andamento para os dispositivos vestíveis. Ela vai desabilitar a câmera dos aparelhos se detectar que o LED de alerta de captura em andamento foi fisicamente coberto, alterado ou até destruído.”
Só isso. Apenas um paliativo.
Vamos falar a verdade. O sucesso dos óculos da META é uma forma de reafirmar o espaço deles como pioneiros na nova tecnologia e essa conquista não será diminuída pelos terríveis danos colaterais que mencionei acima. A gravação utilizando óculos já foi assunto de filmes de James Bond, de detetives ou da sequência de Missão Impossível, mas agora é muito maior que isso. Eles miraram no mercado de influenciadores e do uso dessa tecnologia como algo simples, leve e prático para quem está caminhando na rua e quer fazer o seu registro, sem ser incomodado por olhares estranhos devido uma tela de celular exposta. A discrição do óculos é bastante atrativa e chegou para ficar.
Isso fica claro quando vemos que a META chamou uma das maiores influenciadoras do mundo, a Kylie Jenner da família Kardashian, para promover os óculos mais modernos que eles já ofereceram. É o primeiro lançamento de óculos inteligente próprio da META e tem o preço mais acessível que o Ray-Ban Meta 2. É um objeto ainda mais semelhante a um óculos comum e que aparenta beleza, moda e elegância. Porém, por trás de sua simplicidade, possui um mecanismo de gravação ao alcance de um botão. Ao utilizar a imagem de uma das mulheres mais bonitas do mundo, dentro de padrões de beleza inalcançáveis, e que tem milhões de seguidores, eles estão querendo provar como esse tipo de tecnologia facilita as vidas dos influenciadores.
Nesse sentido, vemos a contradição. Como uma mulher pode falar em nome de uma marca que está corrompendo tantos corpos femininos com essa mesma tecnologia? Vai saber o quanto de ironia sobre esse fato é algo proposital da META… O que posso concluir factualmente é que, enquanto o mercado de tecnologias for esse espaço aberto e livre, onde simplesmente basta seguir algumas leis e pagar alguns impostos, tudo é possível! Nunca teremos paz em relação à proteção dos corpos femininos diante da exposição das tecnologias. Enquanto isso, temos dois papéis nessa história. Primeiro, trazer à tona o assunto e discutir fervorosamente a nossa insatisfação com esse tipo de tecnologia. Segundo, fugir! Fugir para bem longe de pessoas com óculos META na nossa frente!
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Infelizmente, o tecnofeudalismo reforça o modus operandi machista. Estes óculos precisam, junto com todas as violências de gênero, ser extirpados. Isso é totalmente desrespeitoso e truculento. Um ataque aos direitos das mulheres e a equidade. Gratidão pelo texto, bastante claro!