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NÃO É SOLITÁRIO, É SOZINHO!




Eu preciso estar sozinho, do silêncio, não é solitário. É sozinho, é o que fala o cantor Ney Matogrosso sobre não ter casado e não querer casar. Esse vídeo viralizou há alguns dias. É um trecho de uma entrevista que Ney deu no Folio, Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, em novembro de 2023. Mas não é sobre casar ou não que conversaremos aqui, mas sobre este estar sozinho e não solitário.


A escritora e psicanalista Ana Suy diz que a solidão é uma ilusão, porque em última instância a gente nunca está sozinho, mas está com a gente mesmo. Ela faz uma espécie de convocação para termos atenção a maneira como a solidão vem sendo mencionada e falada, sempre como algo ruim e que não faz parte do estar no mundo, um sentimento que faz parte do existir. A autora entende o conceito diferente de Ney, sendo ser solitário uma atitude positiva frente à solidão, mas ambos falam do mesmo sentido, que é lidar com a solidão de forma positiva. Seguiremos aqui com o conceito de Ana Suy.


Se fizermos uma metáfora, crescemos e nos desenvolvemos dentro de um espaço-útero e ficamos meses lá, solitários. Sim, há as interações com a/o genitora/genitor, com aqueles que conversam e lidam com este ser, mas ele está só. Lá dentro, ainda sem a consciência do existir, talvez seja um simulacro do que é o mundo: intaragimos com outros, formamo-nos através do outro, estamos com o outro, mas no fundo há uma solidão. Existe um espaço tão íntimo e nosso que o outro não penetra e este lugar é solitário. É como uma senha, “pessoal e intrasferível”.


A solidão tem sido pensada como uma patologia a ser eliminada, como se não fosse da nossa condição humana sermos solitários, afirma Ana Suy em outro momento. Por mais que o outro nos apoie, aconselhe, esteja presente em diversos momentos, a decisão final , a mudança – ou não – de rota depende da nossa escolha íntima e solitária. Acontece que os estímulos a nossa volta nos retiram desse contato. São muitos “sons”: redes sociais, músicas e séries em streamings, o trabalho, a luta para pagar as contas/sobreviver, a violência, os nossos relacionamentos, as leituras e tantas outras interferências.


Estamos tão envoltos de movimento que a solidão é aniquilada, e pior odiada e expulsa do seu espaço. Na verdade, camuflamos ela com tudo isso que foi citado acima e deixamos ela ali, em um cantinho, escondida, “longe dos nossos olhos”. Não queremos contato. Até porque há o medo do que podemos encontrar neste espaço solitário. Talvez essa seja uma maneira de evitarmos o encontro com nós mesmos, tanto com as nossas melhores caracrterísticas e intenções, como com o nosso inferno, aquilo que geralmente não apresentamos ao outro. O que está escondido e que achamos, ficará ali por não ser visto e olhado.


Quando Ney fala desse prazer em estar sozinho e enfrentar o silêncio, deixa claro que foi aberto um espaço para retirar a solidão do canto e fazê-la parceira. E ter essa parceria não é ser infeliz, melancólico ou depressivo (lembremos que a depressão é uma doença), é assumir a responsabilidade de que ter esse contato é portal para o autoconhecimento. Para se reconhecer como ser existente no mundo, que se forma com e através do outro, mas que possui a sua individualidade, sua assinatura e identidade. E que este lugar tão íntimo, é necessário e nosso.


Ana Suy comenta que não curte a diferença que tem se realizado entre “solitude” – uma solidão sem sofrimento – e “solidão”. Ela prefere manter a palavra solidão, na tentantiva de restituir alguma dignidade a ela, que por vezes é, sim, estado meditativo, de bem-estar, de contentamento consigo mesmo. Mas que também, por vezes, dá notícias do desamparo e da angústia com que chegamos ao mundo (...). Ou seja, lidar com a solidão é enfrentar nossos “anjos e demônios”, é iluminar aquelas áreas que não desejamos e temos receios.


Não é fácil este movimento de encontro à solidão. É preciso esforço e um tanto de autoconhecimento. E nosso dia a dia, como já mencionado, não contribui para isso. E não falamos aqui de parar, meditar ou algo nesse sentido, mas de se pensar, refletir sobre si, encontrar-se. Isso pode ocorrer após, ou durante, uma discussão com um colega de trabalho, por exemplo. Quando percebemos como agimos, o que fizemos e como nos sentimos. Perceber-se é estar em contato com a sua solidão.


Daí, não querer casar, gostar de estar só, buscar seu espaço físico – quando possível –, tornam-se consequência de um caminhar, podemos dizer, “abraçados” com a solidão. De mesmo com medo, enfrentar nossos vazios e questões – que nem sempre terão respostas. Aliás, precisamos de respostas para tudo? Na próxima vez em que você se sentir só, pense sobre como se sente, se incomoda ou não, se é confortável ou não. E se disso vier uma angústia, talvez seja interessante buscar auxílio de um profissional. Para nascer, sair da barriga, tivemos a ajuda de alguém ou “alguéns”. Para “nascer para a solidão”, talvez também precisemos do mesmo auxílio.

 

FONTE:




SUY, Ana. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Planeta do Brasil: 2022.


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Irretocável. Irasol

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Livro que você me apresentou! Bj

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