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NINGUÉM DEFENDE O ABORTO DE CRIANÇAS, NEM MESMO FEMINISTAS




Aborto é um dos temas mais tensos na mesa do sujeito contemporâneo, um daqueles tópicos espinhosos circulando por aí, muitas vezes como armadilhas disfarçadas de perguntas inocentes (Ei João, você é a favor ou contra o aborto?). Todos os desafiantes da luta, cada um em seus ringues simbólicos, usam o máximo dos seus repertórios, na tentativa desesperada de justificar uma certa posição, seja ela religiosa ou laica. De qualquer forma, todo mundo acredita ser coerente, todos os lados acreditam que compreendem a si mesmos e os seus opositores, assim como o que é certo e óbvio. Mas seria tão simples assim? Como qualquer tema que passeia por nossas salas, ruas e congressos, “certeza” acaba sendo uma simples estratégia psicológica, um mecanismo de defesa, ao invés de algum fato objetivo ocultado nas entranhas da realidade.


Se você segue o argumento das feministas liberais, o aborto sinaliza a escolha de mulheres concretas, assim como a autonomia dos seus corpos acima de qualquer instituição. Como qualquer liberal, existe aqui um duelo entre o indivíduo, entendido como uma célula autônoma e fundante e, do outro, as famosas instituições, entendidas como um peso, grandes correntes que sufocam o eu soberano e suas escolhas emancipadas[1]. Quando mergulhamos em águas conservadoras, os argumentos seguem por outro caminho. Muitas acreditam que o aborto é um ataque aos princípios religiosos, assim como a instituições sólidas como a família. Em vez de uma celebração do indivíduo e suas escolhas empoderadas, o aborto é uma afronta ao bem mais precioso produzido pelo criador: a Vida. No primeiro caso, o corpo é uma posse do "eu soberano", um artefato privado, ou seja, "MEU", já no segundo, ao contrário, o corpo não pertence a mim, mas a um ser sagrado, assim como a instituições sólidas.


Apesar de tantas interpretações, acompanhadas de brigas, xingamentos e ameaças, eu tenho uma hipótese estranha nas minhas mãos agora e convido você a avaliar sua relevância. Depois de algumas análises, eu acredito que ninguém é a favor do aborto de crianças, nem mesmo as feministas liberais. Mas o que eu quero dizer com isso? Parece confuso, eu sei, mas vamos aos poucos...


Provavelmente você lembra que a Argentina legalizou em 2020 o aborto, conquista essa celebrada aos gritos de felicidade por várias feministas. No mundo inteiro, existem 77 países onde o aborto é legalizado, embora todos estabeleçam um limite gestacional, um tipo de teto que define até quando o aborto pode ser feito. Esse limite gira em torno de 12 a 14 semanas, o que significaria aproximadamente três meses. Esse número não é aleatório, mas segue uma definição bem científica de vida, compartilhada inclusive pelas feministas liberais. Com 12 semanas, o feto não é considerado cientificamente uma pessoa, uma criança, mas uma célula em desenvolvimento. Como seu sistema nervoso ainda não está pronto (período que ocorre apenas entre o 4º e o 6º mês), “a criança” é considerada um simples pedaço de matéria em formação. Tecnicamente falando, o aborto não é um assassinato de uma vida, ao menos quando seguimos os parâmetros de uma feminista liberal com seu suporte científico.


Por exemplo, eu não conheço nenhuma feminista que aceitaria o aborto de uma criança com com 8 ou 9 meses de gestação, nem mesmo aquela mais “liberal”, mais emancipada. Observem que tanto as feministas, quanto as reaças religiosas, são contra o aborto de um ser vivo, de uma criança. A diferença é que feministas, em geral, usam um critério científico de vida, enquanto as reaças, um critério religioso, onde o feto, no momento mesmo da fecundação, já é considerado vivo.


Os dois lados (feministas liberais e reaças) tentam moralizar o debate, simplificando as decisões na esperança de reduzir os custos das escolhas. Segundo as primeiras, as reaças são alienadas, enquanto elas, ao contrário, são livres e capazes de decidir por conta própria. Segundo as reaças, por outro lado, as feministas liberais são pecadoras vivendo uma vida caótica, vazia e completamente narcisista, já que pensam apenas em si mesmas, reproduzindo seus egos acima de qualquer instituição ou valor mais sólido. Mas quando olhamos tudo com olhos mais antropológicos, ambos os lados são muito parecidos. Ambos defendem a vida, ambos são amparados por instituições (a democracia liberal ou a igreja), ambos acreditam que fazem o melhor, ambos acreditam representar os interesses das “mulheres”, ambos acreditam que combatem um mau perigoso, um inimigo cada vez mais presente.

[1] Não vou levar em conta nesse ensaio o argumento do feminismo negro, já que envolve outras premissas de fundo, com outras implicações. De acordo com uma feminista negra, o centro do debate não é a liberdade, como no caso das liberais, mas a rede de amparo nos bastidores. Ou seja, no feminismo negro o debate é sobre saúde pública, o que representa um tema institucional, seguindo por outros caminhos. Na verdade, esse é o motivo que eu, pessoalmente, defendo a legalização do aborto.

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2 Comments

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
Oct 05, 2023

Bom,se as feministas utilizam critérios científicos para defender a interrupção da gravidez (que deveria ser o mote de quem defende a regulamentação "interrupção da gravidez". O termo "aborto" está eivado de caracterizações pejorativas que dificultam demais o parco debate) então não há moralismo aí,entendo eu. O curioso disso tudo é que a tal "liberdade individual do cidadão" a qual o povo evangélico coaduna como espectro ideológico conservador,precisa ir às favas nessa questão. Isso sim é moralismo frágil e sem conteúdo.

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Thiago Pinho
Thiago Pinho
Oct 08, 2023
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Observe que o ponto do ensaio foi mostrar a complexidade da coisa toda, já que existe aqui um conflito de definições metafísicas de vida (a priori, não tem como estabelecer o vencedor, pelo menos não sem muito cuidado e pesquisa). No fundo, ambas posições (feministas liberais e reaças) tentam simplificar o debate, como se tudo se reduzisse a uma escolha "bondosa", "correta", "inteligente" ou "óbvia". Na prática, não é tão simples assim, a não ser que se use o critério pragmático das feministas negras (sobre saúde pública). Mas aí é outra linha de raciocínio que foge dos limites do meu ensaio.

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