O AMOR DA EXTREMA DIREITA BRASILEIRA PELA NOVA DITADURA DA AMÉRICA LATINA
Atualizado: 17 de ago.

Recentemente, nasceu uma nova ditadura na América. A Assembleia Legislativa de El Salvador, um pequeno país na América Central, com 6,3 milhões de habitantes, aprovou um projeto de lei que, na prática, permite que o presidente Bukele fique no poder por tempo indeterminado, prevendo reeleições ilimitadas, o aumento do mandato de 5 para 6 anos e a inexistência de 2º turno. O projeto teve a aprovação de 57 dos 60 parlamentares. Bukele chegou ao poder em 2019 e já havia conquistado uma brecha jurídica para se reeleger em 2024.
A estratégia utilizada é evidente. Ele usou sua maioria parlamentar para modificar o sistema político do seu país. O presidente já havia utilizado sua influência e maioria parlamentar para subordinar o Judiciário do país. Dessa forma, ele detém os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. O país estava assolado pela violência e por facções criminosas. Ele foi eleito com a bandeira de combate ao crime organizado. Transformou o país no maior sistema carcerário do mundo, levando em consideração a proporcionalidade de sua população. Assim, a violência deixou de ser das gangues e passou a ser estatal. Não é à toa que Bukele é aclamado pela extrema direita em todo o mundo como modelo de “sucesso” em sua gestão.
As ditaduras na atualidade não surgem mais de golpes militares como no passado, mas surgem do interior de democracias que são destruídas internamente e, nesse processo, subordinam e eliminam a independência judiciária, modificando o sistema político para se eternizar no poder. Ao eliminar o 2º turno das eleições, ele garantiu sua reeleição e vai, nesse meio tempo, eliminando possíveis opositores em seu país com justificativas diversas.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. A extrema direita brasileira também tentou usar esse método. Observe que Jair Bolsonaro fica falando aos quatro cantos que não deu golpe, já que não pegou em armas. Notem que os ataques ao Judiciário brasileiro foram frequentes. Ele já havia falado que, se reeleito, conseguiria maioria no STF.
Bukele não é apenas associado à queda dos homicídios. Seu governo também ficou marcado por estado de exceção prolongado, prisões em massa, restrições a garantias legais, concentração de poder, julgamentos coletivos e mudanças institucionais que permitiram sua reeleição. Bukele combateu as gangues mediante um regime de exceção que suspendeu determinadas garantias legais, posteriormente renovado sucessivamente. Ou seja, será que vale a pena a perda da democracia para reduzir os dados de criminalidade?
A situação da imprensa em El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele, é bastante preocupante. Embora a Constituição garanta formalmente a liberdade de expressão, organizações internacionais de defesa da imprensa registram uma deterioração significativa das condições para o jornalismo independente. Desde que Bukele chegou à presidência, em 2019, jornalistas e veículos que investigam ou criticam o governo passaram a sofrer ataques públicos, inclusive nas redes sociais. A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) registra assédio digital, vigilância, ameaças e campanhas de difamação, algumas envolvendo autoridades de alto escalão. Um aspecto importante é que o ataque não ocorre apenas por meio de processos judiciais. A exposição pública e a desqualificação dos jornalistas também funcionam como mecanismos de intimidação. O regime de exceção decretado em 2022, originalmente apresentado como estratégia de combate às gangues, suspendeu determinadas garantias constitucionais e ampliou os poderes de detenção. Um caso emblemático foi o do jornalista Víctor Barahona, que ficou preso de junho de 2022 a maio de 2023. Segundo a RSF, ele se tornou o primeiro profissional de mídia encarcerado sob o regime de exceção. No Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, El Salvador aparece em 143º lugar entre 180 países, com pontuação de 38,88. Em 2025, estava em 135º.
Em El Salvador, sob o governo de Nayib Bukele, opositores, críticos do governo, defensores de direitos humanos e jornalistas têm enfrentado um ambiente de forte pressão e intimidação. O prolongado estado de exceção, iniciado em 2022, ampliou enormemente os poderes de prisão e reduziu garantias de devido processo; organizações de direitos humanos documentam detenções arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e maus-tratos. Ao mesmo tempo, críticos e organizações da sociedade civil têm sido alvo de vigilância, ataques públicos e, em alguns casos, prisões. A concentração de poder no Executivo também enfraqueceu os mecanismos institucionais de controle, enquanto reformas recentes abriram caminho para a reeleição presidencial indefinida.
Em outras palavras, a repressão não se limita a quem é acusado de pertencer a organizações criminosas: há denúncias de que o ambiente criado pelo estado de exceção também produz efeitos sobre quem critica ou fiscaliza o governo. A Human Rights Watch e a Anistia Internacional apontam justamente para esse problema: a combinação de militarização, detenções em massa, enfraquecimento da independência judicial e restrições às garantias fundamentais criou condições para graves violações de direitos humanos.
Na extrema direita brasileira, Nayib Bukele passou a ser apresentado como uma espécie de modelo de “líder forte”, sobretudo por sua política de segurança baseada no encarceramento em massa e no enfrentamento radical das gangues. A admiração aparece de forma explícita em setores bolsonaristas: Eduardo Bolsonaro, por exemplo, defendeu em 2026 que o Brasil adotasse o “método Bukele” contra o crime organizado.
A aproximação também extrapola a questão da segurança: Bukele é frequentemente associado, nesse campo político, à ideia de um governante que confronta instituições, imprensa e adversários sem recuar diante de críticas — justamente o aspecto que seus admiradores interpretam como “coragem” e “autoridade”. Assim, mais do que simplesmente admirar o presidente salvadorenho, parte da extrema direita brasileira idealiza o “bukelismo” como uma alternativa de poder baseada em mão dura, concentração de autoridade e enfraquecimento dos freios institucionais, transformando Bukele em referência para propostas brasileiras de combate ao crime.
As jornalistas da GloboNews, Andréia Sadi e Natuza Nery, apresentaram uma série de entrevistas com os principais candidatos à Presidência da República e fizeram diversas perguntas confrontando os candidatos. Dentre os temas abordados, estava a idolatria que todos os candidatos nutrem por Bukele. Elas perguntaram aos candidatos se eles concordam com prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamentos coletivos de centenas de réus, prisões baseadas em denúncias anônimas, perfil territorial e tatuagens. Todos disseram que não concordam, ao passo que não souberam responder como seria aplicado o modelo de Bukele no Brasil sem utilizar todas essas práticas.
A impressão é que todos estão levantando a bandeira da segurança acima de tudo. São conservadores que flertam com o autoritarismo nas redes sociais, mas, quando confrontados em um programa de audiência, recuam e desconversam. Por diversas vezes, as jornalistas precisaram dizer que determinada pergunta não foi respondida. Já dizia minha avó, estamos em um mato sem cachorro. O alento que temos é que Lula está na frente nas pesquisas da eleição de 2026. Chega logo eleição! Que todos os deuses e deusas que regem todas as religiões do mundo nos protejam nas eleições de 2030.
Até que ponto a promessa de segurança pode justificar a redução de direitos e garantias fundamentais? É possível combater a criminalidade de forma eficiente sem enfraquecer a democracia e o Estado de Direito? Quando um governo passa a concentrar poder, perseguir opositores e restringir a atuação da imprensa, ainda podemos falar apenas em “mão firme” ou estamos diante de sinais de autoritarismo? Por que determinados setores da extrema direita brasileira admiram Bukele apesar das denúncias de violações de direitos humanos associadas ao seu governo?Se o “método Bukele” fosse aplicado no Brasil, quem definiria quem são os “inimigos” que deveriam ser combatidos? Uma política de segurança deve ser avaliada apenas pela redução dos índices de criminalidade ou também pela forma como trata os direitos daqueles que são presos e acusados? Por que a mesma defesa da liberdade que aparece no discurso de determinados grupos políticos pode desaparecer quando o assunto é imprensa, oposição, direitos humanos ou devido processo legal? Vamos refletir?
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REFERÊNCIAS:
MASSEI, Lucas. Eduardo Bolsonaro defende "método Bukele" para enfrentar o crime organizado. CNN. 16 maio 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/eduardo bolsonaro-defende-metodo-bukele-para-enfrentar-o-crime organizado/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 08 ago. 2026.
ORGANIZAÇÃO REPÓRTERES SEM FRONTEIRA - RSF. A imprensa independente sitiada em El Salvador: perseguição, violência e estrangulamento financeiro forçam jornalistas ao exílio. RSF. 23 out. 2025.
Disponível em:https://rsf.org/en/independent-press-under-siegeelsalvadorpersecutionviolenceandfinancialstrangulationforceutm_source=chatgpt.com. Acesso em: 08 ago. 2026.
Imagem enviada pela autor da publicação, produção própria.


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