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O DINHEIRO QUE NÃO SALVA AS MULHERES



No passado, confinadas ao lar, muitas mulheres aceitaram as piores condições de um casamento apenas porque, caso decidissem divorciar-se, não teriam qualquer recurso financeiro para recomeçar a vida. A geração seguinte de mulheres entendeu esse recado e decidiu ter enorme dedicação à vida profissional, buscando acumular bens e patrimônios, e garantir alguma estabilidade financeira até que… elas descobrem que nem mesmo ele, o tão poderoso dinheiro, é capaz de protegê-las das garras opressoras do machismo. 


Uma sequência de acontecimentos destacados pela mídia revelou que mulheres poderosas e bem estabelecidas em suas carreiras estavam completamente desprotegidas nas suas relações conjugais. Além de sofrer toda a violência emocional, psicológica e até física com seus parceiros, elas se depararam com a inesperada confusão financeira, tendo seus bens e patrimônios afetados por conta da negligência e irresponsabilidade de seus cônjuges. Foi o caso da Ana Hickmann, apresentadora de renome que se separou do marido após uma situação de violência doméstica motivada pela descoberta do rombo milionário causado por ele que, por muitos anos, cuidou das finanças da carreira dela. 


O mesmo aconteceu com a cantora Naiara Azevedo que, além das agressões físicas, teve seu acesso ao dinheiro acumulado ao longo de anos de carreira limitado pela ordem e decisão do marido. Em nuances semelhantes, houve o caso da cantora Iza, que tendo trabalhado com seu ex-marido desde do início da trajetória como artista, ao pedir o divórcio, foi impelida por ele a pagar uma quantia milionária por conta do próprio considerar essencial sua participação no acúmulo de bens dela. Claro que os casos de mulheres que decidiram abrir mão da vida profissional para se dedicar a família continuam a existir, como a situação da famosa atriz Susana Werner que, ao longo de vinte anos de casamento, recebia uma “mesada” do marido que controlava todos os seus gastos, descartando toda contribuição dela na economia do cuidado. 


Cada uma dessas situações tem nome e sobrenome: violência patrimonial. Ela está entre os cinco tipos de violências domésticas que acometem as mulheres e que está submetida a denúncia através da Lei Maria da Penha. As violências física, psicológica, sexual e moral são mais difundidas e discutidas, deixando de lado os estragos que a violência patrimonial pode causar. Caracterizada por “qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades", segundo a legislação, a violência patrimonial pode passar despercebida por conta da conduta cultural que a sociedade alimenta sobre a mulher e o dinheiro. 


Para o dito senso comum, associar esses dois elementos não implica um lugar de poder e independência. O olhar para a mulher é que ela seja responsável pelo cuidado. Prover? Essa é a responsabilidade do marido. Trabalhar? Sim, ela pode trabalhar e até ter uma grande e renomada carreira, contanto que não se dedique tanto ao assunto. Sua prioridade precisa ser a família, o casamento e sua aparência. As complicações com o dinheiro podem ser deixadas por aquele que vai saber administrar melhor porque é dotado da objetividade e praticidade necessária para tal: o homem. Com seus sentimentos e natural doçura, a vaga feminina precisa ser ocupada nos deveres do lar e do bem-estar dos outros. 


Foi por conta dessa perspectiva que Ana Hickmann entregou de mão beijada toda a administração financeira da sua carreira, sem sentir qualquer necessidade de vigiar a ocupação do seu esposo. Da mesma forma, Naiara Azevedo e a Susana Werner não se opuseram à ideia de receberem uma mesada controlada pelos seus parceiros. Elas confiaram que eles estivessem cuidando devidamente do patrimônio da família e que essa limitação tinha o propósito de manter as contas em dia. Nenhuma delas se interessou em estudar sobre contratos, finanças, investimentos ou a administração de bens e grandes fortunas. Condicionadas ao discurso do gênero, como mulheres, elas faziam a sua parte e confiavam que seus companheiros fizessem o mesmo. 


Consigo compreender a escolha delas, afinal, quando casada, tomei uma decisão semelhante. Me desfiz de uma conta bancária para abrir uma conta conjunta com meu marido na época, em nome da confiança e da ideia de que o “dinheiro era da família”. Ele controlava essa conta, pagava todas as despesas de casa e eu o entregava todo o dinheiro que recebesse. Quando nosso filho nasceu, fiquei ainda mais alienada sobre nossos gastos. Se eu queria algo, perguntava a ele se era possível, se tínhamos dinheiro suficiente e pronto. Vivíamos uma realidade financeira bem penosa e não houve da parte dele qualquer desvio do dinheiro, porém, ao me separar e, finalmente, querer saber como estávamos nessa questão, descobri uma enorme dívida. 


Talvez, se eu ou uma delas mudasse de ideia, e cogitasse, por mera curiosidade, acompanhar um pouco mais de perto as finanças, nossos olhos rapidamente perceberiam os rombos deixados pelos companheiros de vida. Os motivos para os buracos nos orçamentos são ainda mais surpreendentes. Homens, com acesso a todo tipo de conhecimento e educação financeira, simplesmente faziam péssimas escolhas em investimentos ou apostavam o dinheiro em bitcoins e outros esquemas duvidosos, buscando retornos milionários rápidos. As terríveis decisões causaram enormes problemas que foram encobertos com empréstimos às escondidas ou outras formas escusas de obter dinheiro fácil para que as esposas não desconfiassem de seus erros. 


O ponto é que dinheiro e poder não caminham lado a lado. A independência financeira de uma mulher não é suficiente para que ela seja protegida das opressões machistas. Deter a grana precisa ser acompanhado de uma consciência sobre as cristalizações sociais a respeito do lugar feminino, que dita para as mulheres a alienação de qualquer aspecto relacionado à provisão. De fato, arrisco teorizar que as mulheres citadas nesse texto provavelmente entregaram aos seus esposos o controle das finanças por um sentimento de culpa por ganharem mais que eles e para que não tomassem o lugar dos homens como provedores da família. 


Segundo a perspetiva da pesquisadora e psicóloga Valeska Zanello a subjetividade do masculino é regimentada pelo dispositivo da eficácia sexual e profissional. Na última, cabe ao homem se colocar como aquele que provê, detendo o poder financeiro em suas mãos. Com isso, ele pode competir com outros homens, exibindo sua performance masculina como o senhor das posses, incluindo as “posses” esposa e filhos. Ela explica:


“O verdadeiro macho seria considerado o provedor das necessidades da família, ainda que sua mulher trabalhe remuneradamente, “contribuindo” para o orçamento doméstico. Segundo Saffiotti (1987), ‘quer seja o único provedor das necessidades familiares, quer seja o principal deles, não lhe é permitido fracassar’ (Saffiotti, 1987, p. 24).” (p. 237)

Com esse entendimento, podemos notar que o processo de libertação do machismo não é  uma equação tão simples. Sair do lar e trabalhar não é suficiente. Ter uma carreira de sucesso não é suficiente. Ter bens, posses e um salário milionário não é suficiente. A liberdade é transcorrida por um desmontar intenso de camadas de opressão e injustiça. No final das contas, nem mesmo o dinheiro nos salva. Dependemos de nós, do apoio feminino e dos bons homens para sair das inúmeras ciladas do machismo. 



FONTE:




ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Editora Appris, 2020. 



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