top of page

O EXTREMISMO CONTINUA: as engrenagens por detrás do 8 de janeiro de 2023





* Jorge Antonio da Paz Ribeiro


O documentário “extremistas.br” em exibição no streaming da Globoplay traz uma contribuição essencial para descortinar a vandalização do STF, do Planalto e do Congresso Nacional, por apoiadores fanatizados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Longe de apresentar uma novidade do cenário sociopolítico brasileiro, a produção dirigida pelo Caio Cavechini chama a atenção para o aprofundamento da radicalização bolsonarista nos últimos anos, especialmente durante o governo Bolsonaro (2018-2022), na esteira do processo de erosão da democracia brasileira, com destaque inicial para o questionamento dos resultados da eleição presidencial em 2014 por parte do PSDB, sob a liderança do tucano Aécio Neves, que questionou o sistema eleitoral brasileiro e a reeleição da petista Dilma Rousseff. Um pecado capital contra uma democracia pouco sólida e permeada por um autoritarismo não dissipado.


Quando me refiro à “ausência de novidade” da produção da Globoplay, não trato da sua estrutura, produção e organização cinematográfica e muito menos de seu jornalismo investigativo. Não é novo que rupturas constitucionais bem ou mal sucedidas que fizeram uso de teorias conspiratórias e notícias fantasiosas sempre fizeram parte da história política brasileira, como bem lembrou recentemente o cientista político Antonio Lavareda (2022). Lembremo-nos do falso Plano Cohen divulgado em 1935 pelo governo Vargas, alegando a presença de espiões internacionais russos associados aos comunistas brasileiros que planejavam dar um golpe de estado, fazendo referência aos eventos anteriores da Intentona Comunista. Tal plano foi usado como pretexto para a instauração do Estado Novo, ditadura comandada por Getúlio Vargas de 1937 até 1945.


Lembremo-nos de um outro exemplo, envolvendo os discursos conspiratórios em torno de João Goulart, que assumiu a presidência na década de 1960 após a renúncia de Jânio Quadros em 1961. Tais discursos conspiratórios serviram para reforçar um ambiente sociopolítico favorável e estruturante do golpe militar deflagrado em 1964. Não à toa, como sinalizado pelos trabalhos de Motta (2002, 2021) e Soares (1995), por exemplo, o discurso golpista da época era recheado de ideias conspiratórias sobre o governo de Goulart, acusando as medidas governamentais como indícios da infiltração comunista internacional no Brasil, acusando o próprio presidente de ser autoritário em sua atuação nacionalista, dentre outros discursos conspiratórios de caráter religioso e sociológico. Essa difusão de conspirações sofreu também influência, claro, do contexto da Guerra Fria (1945-1991) e da disputa entre Estados Unidos e União Soviética. Isso fica claro pela atuação de entidades que recebiam recursos financeiros dos EUA para desestabilizar o governo Goulart em relação a opinião pública (nesse caso, basta lembrarmos do complexo IPES/IBAD: Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, ambos fundados por grupos civis e militares para organizar a oposição e o enfrentamento a João Goulart e aos comunistas).


Não à toa, tanto as memórias anteriores a 1964, quanto às posteriores ao regime militar continuam vivas no imaginário sociopolítico de parte expressiva da sociedade brasileira, essa mesma que ainda em 2015 pedia intervenção militar para livrar o Brasil do comunismo do PT, em 2018 participou ativamente da candidatura de Bolsonaro e em 2022 invadiu a sede do poder federal em Brasília. O documentário da Globoplay destaca a particularidade da manifestação, revitalização e proliferação desse discurso golpista e anti-democrático em tempos de transformações sociais e comunicacionais proporcionadas pelas redes e pela ascensão social de grupos sociais anteriormente confinados em um lugar de subalternidade (econômica e social, principalmente).


Há que se destacar, tratando da questão das redes sociais, como as teorias conspiratórias viraram fonte de renda para muitas pessoas anteriormente anônimas e que, pegando embalo no bolsonarismo ascendente, conseguiram renda e relevância social, defendendo uma causa. “Não importa a verdade: o que importa é a causa”. Virou uma indústria lucrativa, cujo funcionamento se expandiu durante a pandemia de COVID-19 e depois, fazendo com que o poder judiciário brasileiro tenha de se debruçar sobre essa nova realidade, não só modernizando seu aparato jurídico, mas, sobretudo, incluindo e responsabilizando as grandes redes pela falta de clareza em suas diretrizes. Daí, inclusive, que vem um dos componentes do ódio dirigido ao STF, que estaria “tirando o sustento das pessoas de bem” e “censurando a liberdade de expressão”.


O documentário traz diversas informações importantes sobre como os extremistas se organizaram para depredar e vandalizar as instituições do poder federal, e a conivência das forças de segurança com os golpistas durante os ataques. Não se trata de manifestações espontâneas e orgânicas, necessariamente, mas grupos organizados e coesos em torno de um discurso fomentado pelo ex-presidente e sua turba, divulgado por uma estrutura comunicacional sofisticada que conta com operadores de marketing político especializados, infraestrutura operacional robusta e financiamento proveniente de recursos públicos e privados. Mostra uma verdadeira indústria do caos, cujo funcionamento ativo fora perceptível não só durante a CPI da COVID-19, mas também antes das eleições de 2018, em torno de movimentos antipetistas e, mais tardiamente, em torno de Bolsonaro e candidaturas similares. Uma das consequências desse tipo de fenômeno é o reforço de uma linguagem política e um marketing político agressivo e hostil, que não foi exclusivo de Bolsonaro, mas de outros candidatos (como por exemplo, Ciro Gomes e seu marketeiro João Santana (LACOMBE, 2022).


Extremistas.br é um esforço muito bem construído para chamar a atenção de toda a sociedade democrática brasileira para enfrentar a radicalização golpista desses segmentos e grupos anti-democráticos da direita brasileira, que sempre estiveram presentes, manifestando seu saudosismo da ditadura militar (1964-1985), seu anticomunismo tacanho apoiado em ideias fantasiosas e irreais, e seu desejo de matar física e simbolicamente qualquer um que pense e se manifeste em prol de um mundo outro que não seja o seu. Matar física e simbolicamente identidades não semelhantes à sua. Mostra como o projeto de fortalecimento de uma extrema-direita no Brasil teve sucesso e continua sendo impulsionada diante da vitória de Lula nas eleições passadas. Resta saber se repetiremos o erro histórico de não acertar as contas com o passado, ainda mais agora que ele está materializado no presente e mais vivo do que nunca.


_____________________________

* Jorge Antonio da Paz Ribeiro. Bacharel em Ciência Política (UFBA)

Mestrando em Ciência Política (UFBA)





Referências:


LACOMBE, Milly. “Ciro Gomes, o candidato "credo, que delícia" que não suporta o outro”. Portal UOL, 16 de agosto de 2022. Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/colunas/milly-lacombe/2022/08/16/ciro-gomes-o-candidato-credo-que-delicia-que-nao-suporta-os-outros.htm>


LAVAREDA, Antonio. Leniência militar em 8 de janeiro lembra levante integralista de 1938”. Folha de São Paulo, 28 de janeiro de 2023. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2023/01/leniencia-militar-em-8-de-janeiro-lembra-levante-integralista-de-1938.shtml>.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho. São Paulo, Ed. Perspectiva/FAPESP, 2001.


MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Passados presentes: O golpe de 1964 e a ditadura militar. São Paulo, Ed. Zahar, 2021.


SOARES, Gláucio Ary Dillon. O golpe de 1964: os fatos e os mitos. 19º Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu, 1995. Disponível em: <http://anpocs.org/index.php/encontros/papers/19-encontro-anual-da-anpocs/gt-18/gt09-9/7597-glauciosoares-o-golpe/file>.

57 visualizações5 comentários
bottom of page