O Mal Estar da Educação!





Hoje falarei um pouquinho de educação no pensamento de Émile Durkheim. Ao fim do ensaio, farei breves observações sobre as dificuldades atuais nesse campo.


Para o sociólogo francês, um dos fundadores da Sociologia, não há uma educação ideal, universal, perfeita, válida para todas as épocas. A educação é variável. Por exemplo, em nossa sociedade democrática e liberal se cultiva mais a individualidade, a crítica, a liberdade de pensamento e expressão. Mas nem sempre foi assim.


Cada ajustamento social tem seu sistema de educação que se impõe aos indivíduos, de forma irresistível à eles. Pais e educadores são mediadores desse sistema de regras e condutas. Por isso, são as gerações precedentes que contribuirão para a educação atual.


Durkheim insiste que a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta. Significa dizer que a melhor definição de educação é da geração mais velha que exerce uma ação sobre os mais jovens.


O preceptor é quem dispõe das coisas, quem está por trás delas, que “as ordena legitimamente”. Ao formar a criança pela experiência direta, cria em sua mente o sentido de realidade e de necessidade, dois elementos essenciais para alguém que dentro de pouco deverá enfrentar-se com a sociedade como algo real. (DURKHEIM, 1998, p. 17).

A educação é ao mesmo tempo múltipla, em termos de aptidões individuais e até das diferenças entre grupos, classes, lugares numa mesma sociedade; e, no contexto atual, a complexidade demanda essas diferenciações no cumprimento de funções sociais também complexas; e singular, no sentido de uma base comum ao povo educado, em que cada aglomerado social elabora um certo ideal de homem, do ponto de vista intelectual, físico e moral. O norte idealizado é, em certa medida, direcionado a todos os membros.


Em resumo, a sociedade só sobrevive com certa homogeneidade na persistência da vida coletiva; e, por outro, a cooperação seria também impossível sem uma certa dose de diversidade nas operações.


A educação é a socialização metódica das novas gerações. Há dois seres em nós: individual, que diz respeito apenas a nós mesmos, nossos gostos e personalidade; e social, envolto em um sistema de ideias, sentimentos e hábitos externos. É esta última, o objetivo fulcral da educação.


O ser que nasce é egoísta e associal. Cada novo nascimento é, via de regra, um ser de tábula rasa, com exceção de algumas "tendências vagas e incertas da hereditariedade”. Se cria um novo ser, não o despertar de elementos primitivos no organismo individual, pois é importante ir além da vivência e insistir na convivência.


Nos animais, a natureza já os dota de um programa prévio sobre o que fazer; já no ser humano, a cultura é que traz os sentidos da vida social, não está inscrita previamente em sua biologia.


As necessidades do meio provocam os interesses para os indivíduos - o que a sociedade espera deles. Não existe algo oculto que desperte faculdades elevadas, como a educação científica, filosófica, artística ou religiosa.


A imposição cultural é boa para nós; nos torna humanos! A educação tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança estados físicos e morais que são requeridos pela sociedade política no seu conjunto. Só somos humanos porque vivemos em sociedade, afinal ela nos auxilia.


E aí a pergunta sobre o que resulta a moral. A resposta é simples: da vida em comum. Ela foi capaz de impulsionar a vivência com estranhos. É a sociedade que nos faz sair de nossos ímpetos meramente egoístas, naturais, pois aprendemos o autodomínio contra as forças cegas interiores.


A acumulação de conhecimento para a posteridade. Tudo é produto da sabedoria humana sem cessar. A acumulação é fundamental na perpetuação da civilização. Este modo de proceder está acima das bestialidades, comum a cada novo nascimento. Só nos tornamos humanos com esforços exigidos pela e para a sociedade; afora isto seriamos meros bárbaros.


O papel da educação. A educação não pode ficar à mercê de critérios subjetivos, individuais ou familiares. Uma vez que, na modernidade laica, ela tem uma função essencialmente social, pública, cabe ao próprio Estado conduzi-la. Mas ele também não pode, necessariamente, monopolizar o ensino; no entanto, deve controlá-lo dentro de certos limites. Isso faz parte de a escola transmitir princípios gerais para que os professores assim também o executem; são questões objetivas. Exemplo do ensino da ciência, do direito e da moral democrática.

O poder da educação. O instinto é algo que já nasce conosco: é um sistema de movimentos determinados que são sempre idênticos, sem que a reflexão possa intervir em algum momento. Herdamos algumas qualidades gerais naturais, algumas pessoas têm maior falta de atenção, outros têm mais facilidade de aprendizado etc. Mas isso não determina quem seremos. Há bastante flexibilidade. O futuro não se encontra pré-determinado pela nossa constituição congênita.

A educação, em essência, deve ser uma questão de autoridade. Autoridade ou referência moral é a maior qualidade do educador; é ele que estimula o senso de dever do educando. Autoridade moral não é repressão ou violência. Isto é abuso. Medo do castigo não é igual ao respeito à autoridade. O castigo precisa ser visto como justo pelo indivíduo que recebe.


O educador deve ser crente, no sentido de acreditar em algo, na sua missão de educar. É algo de grandioso a tarefa do professor, pois deve ser exemplo aos demais. Ele tem a enorme missão de ensinar pessoas aptas para viver, pacificamente, com outros, além de ser um intérprete crucial dos valores morais com a finalidade de promover a coesão social.


Não há oposição entre liberdade e autoridade. A liberdade é filha da ordem, pois não se pode fazer o que bem se quer: há limites respaldados pela autoridade. É preciso trabalhar esse autocontrole na criança. Por isso, a criança deve exercer repressão sobre si mesma. Só assim ela conseguirá saltar os impulsos egoístas. O norte é a busca do autodomínio.


A criança deve exercitar-se a reconhecer [a autoridade] na palavra do educador e a submeter-se ao seu ascendente; é por meio dessa condição que saberá, mais tarde, encontrá-la na sua consciência e aí se conformar a ela (DURKHEIM, 1998, P.17).

Como podemos pensar essa visão de educação nos tempos atuais, nas sociedades liberais? Apesar de haver algumas concepções bastantes discutíveis sobre a expertise da criança e do jovem pós-moderno, é fato que o descentramento, que acaba por diminuir o poder das autoridades, sua legitimidade, em especial no campo da educação, é uma preocupação séria. Qualquer pessoa inteligente pode instruir alguém, qualquer jovem pode ser muito mais esperto que um professor em vários assuntos. Mas, verdadeiramente, a prática de ensinar é tornar possível uma aprendizagem, não é meramente transmitir informação; instruir é apenas explicar uma utilidade prática. Durkheim ensina que educar deve ser visto como a capacidade de apontar um horizonte ao educando, portar-se como referência, estabelecer coordenadas culturais, exercer uma direção. Isso cabe às gerações adultas.


O desrespeito ao docente, que muitas vezes é encarado apenas como mero reprodutor de ideias de uma determinada classe ou valores opressores, ou de alguma suposta ideologia dominante, contribui com a perda da importância de um profissional que estudou e se dedicou anos a fio para exercer sua função.


Encaro que o professor deve ser uma referência intelectual, sim, mas também moral, do ponto de vista de integridade e respeito frente aos educandos, jamais assumindo uma postura de arrogância, insensibilidade e autoritarismo. Também é papel dele compreender, assim como a escola e a universidade, a realidade dos estudantes, suas demandas e dificuldades práticas, bastante diversas, sem abandonar o que é fundamental no espaço da educação: o conhecimento do passado, do presente e perspectivas para o futuro. E, sim, é o educador ou educadora a pessoa legitimada no cumprimento desta grandiosa tarefa. Isso não significa que não haja aprendizado, afinal de contas estamos experenciando o tempo todo.


À guisa de conclusão, concordo com o pedagogo Dermeval Saviani, um autor marxista, em sua pedagogia histórico-crítica, que aponta a necessidade de acolher as experiências dos estudantes, em suas realidades sincréticas, mas que compete ao professor(a) sintetizá-las, pois tem maior expertise no cumprimento desse papel. O senso comum, a trajetória dos discentes, não dá conta de explicar a sua própria realidade.


[...] sabemos que as novas gerações são educadas pelas gerações anteriores e que há uma responsabilidade dos adultos, representados pelos professores, diante da educação das crianças e jovens. E é isso que a teoria da Pedagogia Histórico-Crítica formulou ao tomar a prática social como ponto de partida e ponto de chegada da educação, esclarecendo que professores e alunos se situam no interior dessa prática social ocupando posições distintas sendo que no ponto de partida o professor detém uma visão sintética da prática social enquanto o aluno se situa numa visão sincrética (SAVIANI, 2021, p. 175).


Link da imagem: https://www.rcssaude.com.br/artigos/Preocupao.html



Referências


DURKHEIM, Émile. Educación y Pedagogia. Buenos Aires: Editorial Losada. p. 7-73, 1998. ___________. Educação e sociologia. 10ª ed. Trad. de Lourenço Filho. São Paulo: Melhoramentos, 1975.


SAVIANI, DERMEVAL. Pedagogia histórico-crítica e pedagogia da liberdade: aproximações e distanciamentos. Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 13, n. 3, p. 170-176, dez. 2021

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