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O MUNDO JÁ NÃO É COMO ANTIGAMENTE





O mundo já não é como era antigamente, e como bem poetizava nosso querido Lulu Santos “ Tudo que se vê não é igual o que a gente viu a um segundo, tudo muda o tempo todo no mundo”, mas esta fatídica realidade nos causa muito desconforto, se “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia e que tudo passa e tudo sempre passará” porque ficamos tão desesperançoso e angustiados? Afinal, isto deveria nos trazer uma certa paz, dias ruins passam, porém, dias bons também.


A mudança é inevitável, mas a questão está em como nosso cérebro processa o tempo.


Segundo o neurocientista David Eagleman, o tempo que o cérebro leva para compilar todas as informações imagéticas, tácteis e auditivas e sincronizá-las é maior que a passagem do tempo cronometrado. Embora acreditamos estar captando tudo ao mesmo tempo de forma sincrónica, cada sinal tem velocidades específicas e divergentes. Portanto, isto significa que todos nós vivemos um pouco no passado.


E essa sensação de que quando somos mais jovens o tempo passa menos depressa? A explicação está em uma pequena parte do nosso cérebro chamado de amígdala, responsável por armazenar recordações em um espaço de memória diferente da vida cotidiana. Esta região é ativada quando estamos em estado de alerta ou emergência, como quando estamos processando lembranças, pois estas são muito densas, afinal, estando em alerta, anotamos tudo que ocorre em mínimo detalhe. Portanto, quando o cérebro termina de ler todas as informações ocorridas, há tantas delas que a conclusão é de que o evento levou muito tempo.


Ou seja, quando se é criança e tudo é novidade, seu cérebro acumula muita memória e no momento da retrospectiva tem muitas recordações do que aprendeu. Por isso a sensação de que o tempo passa mais devagar, do mesmo jeito quando estamos mais velhos e não temos tanta novidade, processamos de forma mais rápida e tudo parece ser mais veloz. Afinal, o tempo é apenas uma construção psicológica e ele pode ser percebido de maneiras diferentes por cada ser humano, e por cada etapa da vida, depende de como a está vivendo. Quanto mais novidade se vive, mais temos a percepção de que aproveitamos mais o tempo. Não é à toa que uma viagem faz um bem danado.


No entanto, uma quantidade muito grande de informação estressante de modo prolongado que gera uma carga emocional pesada como ansiedade, insegurança e frustração provoca alterações químicas e morfológicas em regiões cerebrais como o hipocampo, a amígdala, o núcleo accumbens, o córtex pré-frontal e o córtex visual, impactando diretamente no sistema imunológico.


De acordo com Erika C. Silva em seu artigo “Efeitos do estresse crônico em áreas do cérebro”, após a exposição ao estresse os reguladores químicos promovem uma reação de adaptação em busca de homeostase, ou seja, de retornar ao equilíbrio. No entanto, se esta exposição persistir por um longo período, este estresse pode se tornar crônico e pode comprometer o bom funcionamento orgânico, disparando inúmeras doenças geneticamente programadas, as quais permaneceriam latentes na ausência do estresse. Segue trecho do artigo:


“Essas doenças podem ser tanto físicas como psicológicas [Bradley & Dinan 2010; Lipp 2006]. A exposição a estressores pode precipitar ou agravar muitas doenças mentais, como o Transtorno Depressivo Maior, o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e a Esquizofrenia [Bradley & Dinan 2010; Liston, McEwen & Casey 2009]. Por exemplo, uma extensa revisão da literatura, realizada por Bradley e Dinan (2010), relaciona estresse crônico e a Esquizofrenia”.


Portanto, uma quantidade excessiva de informação por longo tempo causa um estresse que, tornando-se ele crônico, afetaria todo nosso corpo e nossa mente, explicando até mesmo a aparição das doenças mentais as quais temos falado bastante ultimamente.


A partir do artigo de Megan R. Gunnar, PhD, Adriana Herrera, MA, Camelia E. Hostinar, da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, o estresse é uma condição na qual o indivíduo vivencia desafios ao bem-estar físico ou emocional que superam sua capacidade de enfrentamento. Embora alguma experiência com tensões gerenciáveis seja importante para o desenvolvimento saudável, o estresse prolongado, ininterrupto e opressivo pode ter efeitos tóxicos.


Dentre estes fatores de estresse estão: abusos psicológicos e físicos, violência ou maus-tratos, poluição sonora, sobrecarga de trabalho, trânsito caótico, informações negativas com intenção de provocar sofrimento emocional, agressões físicas ou verbais, iluminação exagerada, poluição ambiental dentre muitos outros.


Obviamente cada pessoa reage ao fator estressante à sua maneira e é preciso observar fatores relacionados como: tipo(s) de estresse enfrentado(s), sua cronicidade e gravidade; (2) o ambiente familiar; (3) mecanismos psicológicos de enfrentamento e defesa; (4) diferenças individuais quanto à reatividade; (5) e o status de desenvolvimento de cada indivíduo.


Não somente nossa percepção do tempo é alterada pelos fatores estressantes como nossa qualidade de vida e obviamente nossa forma de encarar as mudanças. Ter um olhar mais otimista ou pessimista para o futuro está inteiramente ligado a como nosso cérebro processa os acontecimentos e como ele é afetado pelo estresse, seja ele crônico ou não.


Se a vida atualmente é bem pior do que era antigamente, provavelmente esta percepção está ligada a quantidade de fatores estressantes que hoje seu cérebro processa em comparação ao que era exposto em outra ocasião. É notável que em muito pouco tempo tivemos uma explosão de inovações tecnológicas, e a quantidade de informação que processamos é demasiada para nosso cérebro, que não somente causa uma sensação de exaustão, mas, a depender da qualidade delas, gera estresse e muitas doenças.


Pensar que sua música alta, seu paredão, ou sua voz estridente, assim como a sua sujeira ou poluição visual pode ser um fator estressante para o próximo e, portanto, te torna responsável pela doença física ou mental do seu vizinho é uma maneira de nos educar enquanto comunidade. O fato de estarmos morando em apartamentos e condomínios aproxima-nos uns dos outros e exige ainda mais uma consciência coletiva, além de nos afastar de fatores que promovem bem estar e renovação orgânica, afinal, somos seres do mato que decidiu se aventurar no mundo caótico e urbano.


De acordo com o site “Olhar Digital”, um artigo publicado no início do mês na revista Molecular Psychiatry, pertencente ao grupo Nature, faz uma correlação entre a saúde humana e o contato com a natureza. Cito: “segundo o estudo, andar em uma floresta por apenas uma hora, por exemplo, pode desencadear reações benéficas em nosso cérebro”, pois esta gera na amígdala que é envolvida no processamento do estresse, aprendizado emocional e resposta de luta ou fuga, é menos ativada durante a perturbação em residentes rurais do que em moradores da cidade.


Atos como abraçar uma árvore, estar com animais, caminhar no verde, meditar, silenciar ou manter-se em ambientes sem poluição sonora, se conectar com qualquer elemental ou elemento da natureza, abraçar pessoas de forma contínua, com qualidade e por uma certa duração, são algumas das atividades que diminuem a ativação da amígdala e podem gerar bem estar e diminuição do estresse. No entanto, a exposição a fatores estressantes positivos também pode promover bem estar, como uma viagem, conhecer pessoas diferentes, se conectar com outras culturas, conhecer novas práticas esportivas, culturais ou artísticas, são essenciais para a manutenção do seu sistema imunológico.

Para finalizar, gostaria de fazer você refletir sobre seus hábitos e se eles estão sendo saudáveis para você e para seu próximo, e como eles afetam na sua percepção do tempo e, principalmente, na qualidade deste. Somos inteiramente responsáveis por nossas escolhas, e podemos contribuir com a mudança da vida de uma forma mais positiva e eficiente, afinal não existe via de fuga. Permanecer na cegueira só diminui nosso tempo e qualidade na vida e, infelizmente, também do seu próximo, da sua comunidade e da espécie humana. Portanto, aprenda com o mar e seja como uma onda e não um tsunami, pois como bem finaliza nosso maravilhoso Lulu Santos: Não adianta fugir, nem mentir para si mesmo agora, há tanta vida lá fora, aqui dentro sempre, como uma onda no mar.


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Referências/ Leia também:


Como uma onda ( Zen-surfismo) - Canção de Lulu Santos











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