O paredão deve ser parado?

Na madrugada de quarta-feira 13, após o feriado de 12 de outubro, uma festa “paredão” terminou em tragédia: 6 pessoas morreram e cerca de 12 ficaram feridas após um tiroteio, ocorrido no bairro do Uruguai, em Salvador. Os envolvidos eram bem jovens, perfil de público em eventos desse tipo. A investigação sobre a motivação do crime está em curso e dois acusados foram presos. Segundo a polícia civil, a maioria dos mortos e feridos não tinham participação alguma nos disparos efetuados. O governador Rui Costa emitiu um comunicado nas redes sociais informando que vai proibir a realização desse tipo de celebração, mas não despachou nenhuma medida oficial pra isso.


Paredões são formas de divertimento que ocorrem nas ruas de bairros periféricos – carentes de espaços propícios para cerimônias – com ajuntamento de jovens, muita paquera, dança e música projetada através de aparelhos de som potentes e, às vezes, por grupos musicais ou Dj’s. Essa diversão é muito comum, mas ganhou destaque por ocorrer muito durante a pandemia – causando aglomeração e disseminação do coronavírus – e por provocar uma barulheira intermitente para quem mora no local. Relatos dão conta de som alto da noite até o amanhecer e outros durando vários dias consecutivos! Aí é problema...


Já escrevi um artigo sobre a poluição sonora em Salvador, cidade campeã nacional do barulho. Esse é o primeiro ponto: a capital baiana produz zoada em escala industrial! Essa situação é drama em vários logradouros. Som do vizinho, do carro, do bar, da igreja, do “carro do ovo”, do rádio que transmite futebol, do baba da molecada, da “disputa” entre caixas de bluetooth nas praias, do sambão no fim de semana... sem falar que surgiu aqui o trio elétrico, palco ambulante que emite centenas de decibéis. Ou seja, independente de paredões, milhares de pessoas precisam conviver diariamente com algum incômodo desses.


Isso faz parte então da nossa cultura? Nos anos 1990 pipocou na cidade vários grupos de percussão – tipo Olodum – que agrupavam muitos meninos carentes nas ruas de bairros populosos, batendo tambor nos fins de semana. Houve muita reclamação e chegou-se até a surgir o ditado “prefiro um garoto com tambor na ladeira do que batendo carteira”. Projetos desse tipo foram pouco assimilados pelo poder público. Aconteciam também muitas “lavagens” de ruas, com palcos erguidos e muito pagode, geralmente sábado e domingo à noite. Com abertura de espaços fechados, esses eventos puderam migrar pra esses locais, minimizando o terror para a vizinhança. Lembro de alguns dessas casas, como Marechal. Com, The Best, e Guest’n Bahia.


De uns tempos pra cá aumentou a festa conhecida como “paredão”. Muitos são organizados pelo movimento do tráfico de drogas, o que fica difícil sua interrupção por meio de acordos comunitários. Porém, é uma das poucas alternativas para a juventude pobre, sobretudo negra, para se divertirem. E isso em vários pontos do país. É uma forma de interação coletiva, muito importante para a geração atual, criticada por ser adepta de conexões virtuais e utilização quase ininterrupta do aparelho celular. O perigo de envolvimento em um tiroteio é o mínimo, acostumados que são com a ostensividade policial e outras agruras e mazelas diárias que são obrigados a encarar.


Portanto, a proibição é uma atitude muito complexa, visto que os hormônios juvenis não irão se aquietar, e irão “vazar” para outras atividades, procurando diversão em locais mais distantes de sua residência e correndo assim mais riscos. No entanto, a comunidade precisa descansar. É tortura ser obrigado a se adaptar diaria